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por Márcio Alexsandro Pacheco

Estamos de volta com mais uma “História dos Videogames” e quem está na pauta desta vez é o Neo Geo (que completou recentemente 24 aninhos, uuiii), sistema criado pela empresa japonesa SNK, famosa por seus games de luta no fliperamas como “The King of Fighters“, “Art of Fighting” e “Fatal Fury“. O videogame era desejado por muitos gamers no Brasil, pois apresentava uma qualidade espetacular idêntica aos dos arcades mais robustos da época, coisa que os 8 e 16 bits que dominavam o mercado não podiam oferecer. Mas infelizmente foram poucos os brasileiros que o tiveram nos anos 90, por causa do seu valor absurdamente caro. Não apenas o console, mas os jogos também tinham preços altíssimos, que não condiziam com a nossa realidade territorial. Mas certamente ele marcou presença na história dos videogames, como iremos relembrar agora.

Surge a SNK

A sigla SNK (hoje SNK Playmore) é uma abreviação de Shin Nihon Kikaku (Projeto Novo Japão) e a empresa foi fundada em 1978 em Osaka por Eikichi Kawasaki com o propósito de criar e produzir programas eletrônicos e componentes de informática para uma série de usos.

Não demorou muito tempo para que a empresa lançasse o seu primeiro fliperama em 1979, “Ozma Wars“, um shooter espacial vertical ao estilo “Space Invaders“. No mesmo ano também foi lançado “Safari Rally“, jogo de corrida com uma mecânica extremamente simples numa espécie de labirinto florestal. Nos anos 80 a empresa melhorou a qualidade dos seus arcades, com o shooter espacial “Vanguard” (1981). Esse ano também marcou a fundação da divisão da SNK nos EUA, com a intenção de lançar os seus fliperamas na região (coisa que antes era feito por outra companhia).

Ozma Wars

Em 1986 a SNK já havia produzido 23 jogos em arcade, sendo os seus maiores sucessos “Mad Crasher” (1984), “Alpha Mission” (1985) e “Athena” (1986), esse último um jogo de plataforma 2D, e foi o primeiro a ganhar uma versão para videogames caseiros, o Nintendinho 8 Bits em 1987 (a versão arcade era bem mais superior, mas a versão NES foi bem popular).

Mas sem dúvida o game mais popular desse época foi “Ikari Warriors“, também de 1986 e que aproveitava o sucesso de “Rambo” nos cinemas e mostrava um shooter de guerra com visão aérea, ao estilo de “Commandos“. O título fez bastante sucesso e ganhou vários ports para os videogames e computadores da época, e teve ainda duas sequências.

Ikari Warriors

Essa década foi marcada pela “quebra dos videogames” causada pela Atari, período em que as pessoas perderam o interesse nos videogames e várias empresas faliram. Foi nessa mesma época que o NES 8 Bits explodiu no mercado norte-americano, trazendo um novo conceito para os jogos eletrônicos, o que atraiu a SNK para uma parceria na produção de jogos para o console 8 bits da Big N. Os negócios iam bem e uma outra filial nos EUA foi aberta, essa exclusiva para a produção e distribuição de jogos para videogames caseiros.

Os ports de seus jogos para o NES fizeram muito sucesso, o que encorajou a empresa a começar desenvolver jogos originais especialmente para o sistema, resultando nos games “Baseball Stars” e “Crystalis“. Em 1989 novos videogames apareceram no mercado como o Mega Drive e o PC-Engine, e em 1991 o Super Nintendo. Foi quando a SNK decidiu juntar suas filiais japonesa e americanas para se concentrar no mercado de arcades, deixando para outras produtoras, como a Takara e Romstar, a licença de fazer ports mequetrefes de seus jogos de fliperamas para os diversos videogames caseiros existentes no mercado.

A placa Multi Video System

No final da década de 80, a SNK começou a produzir gabinetes para arcades, revolucionando o mercado com um novo sistema lançado em 1990, batizado de Neo Geo MVS. Naquela época, os gabinetes ofereciam apenas um jogo, e para trocá-lo, era necessário mudar todo os seus componentes internos ou a máquina toda por outra, o que dava uma trabalhão para os seus operadores. O gabinete Neo Geo MVS usava um sistema de cartuchos, igual dos videogames caseiros mas muito mais poderoso, com a opção de até seis jogos diferentes rodassem na mesma máquina, bastando trocar o cartucho/placa e apertando um interruptor dentro do gabinete. Não é necessário dizer que a invenção foi um sucesso explosivo nas casas e botecos que tinham fliperamas.

A placa MVS tem 2 processadores: O Motorola-68000 (o mesmo usado no computador Amiga e no Mega Drive) de 16 bits rodando a um poderoso (para época) processador de 12 Mhz e o secundário Z-80 de 8 bits (o Mega Drive também tinha um, assim como o Master System), rodando a 4 Mhz. Ele era bem similar ao Mega Drive, mas com chip gráfico muito mais poderoso e cartuchos com memória gigantesca, tornando-o um MD turbinado.

Gabinetes arcade da Neo Geo MVS

Estes chips, apesar de muito poderosos, eram baratos para a época, e a criação de jogos baseada nas instruções de ambos os processadores era de fácil programação. Outro ponto positivo é que estes processadores eram conhecidos pelas empresas produtoras de jogos, pois eles já haviam aparecido em outros arcades, computadores e consoles da época justamente pela facilidade de produção.

A MVS tinha um poderoso processador gráfico, sendo a placa mais poderosa para processamento de vídeo na época, com jogos que chegavam a ter 330 Megabits de memória (e alguns títulos possuíam até o dobro disso), enquanto os outros videogames tinham, na maioria, cerca de 16 Megabits.

A SNK logo percebeu que tinha uma mina de ouro nas mãos, e como muitos jogadores desejavam ter um arcade em casa, ela resolveu dar mais um grande passo, adaptando a placa MVS para um formato de um console doméstico, fazendo com que os jogos fossem exatamente iguais aos dos fliperamas. Nascia então o Neo Geo AES (Advanced Entertainment System).

O Neo Geo AES

Neo Geo AES – um fliperama dentro de casa

O Neo Geo funcionava exatamente igual à MVS: dentro do videogame, apenas os processadores; todo o resto estava dentro do cartucho. Isto resultou em um fato curioso, que acabou se tornando uma peculiaridade do Neo Geo: o cartucho era quase do mesmo tamanho que o videogame! Cada controle também era do tamanho do próprio console, e desenhado para se parecer com um controle de arcade, com uma “manivela” (com bolinha e tudo) e quatro grandes botões, ao contrário dos botões direcionais e delicados dos consoles da época. Ele também tinha os mesmos dois processadores, um de 16 bits, e o outro de 8 bits, com uma placa de som  Yamaha YM2610 com 15 canais de som; porém, o Neo Geo tinha um defeito grave: era muito caro.

os cartuchos gigantescos do Neo Geo

O seu preço era extremamente alto em comparação aos outros videogames da época: US$ 650, e os cartuchos passavam fácil dos US$ 200 (o valor de um Mega Drive ou Super Nintendo). Apesar de ser para poucos, o videogame impunha respeito, tanto pelo tamanho como pela altíssima qualidade dos jogos, que eram idênticos aos dos fliperamas.  Os seus cartuchos também eram enormes, assim como os controles e o próprio console. Anos antes do surgimento do primeiro PlayStation, o Neo Geo já usava cartões de memória removíveis para salvar os seus jogos, que inclusive também eram compatíveis com vários arcades.

O Rei das Lutas

O console sempre foi reconhecido pela alta qualidade de seus jogos, em especial os de plataforma como o clássico “Metal Slug“, mas certamente o que marcou o Neo Geoe a própria SNK – foram os jogos de luta que vieram após o sucesso esmagador de “Street Fighter II” da Capcom. Foi no final de 1991 que a empresa lançou o seu primeiro game do gênero, o famoso “Fatal Fury“, que seguia a mesma fórmula do jogo da rival, mas com algumas inovações, como apresentar dois planos de movimento para os personagens e uma história bem mais elaborada.

Metal Slug

Fatal Fury” batia de frente com “Street Fighter II” e dividia a atenção dos jogadores nas casas de flipers. Eram dois jogos bem diferentes, o jogo da Capcom era mais rápido e focado na combinação de golpes, enquanto que FF tinha uma jogabilidade mais lenta e menos complexa, focada nos golpes especiais. Visualmente era fantástico, com enormes sprites na tela, mas era inferior à SFII, mas sua narrativa e personagens carismáticos conquistou muitos fãs mundo afora.

Fatal Fury

E já que estamos falando em FF , a título de curiosidade, uma das maiores musas dos videogames surgiu em “Fatal Fury 2“, e é claro que estamos falando da sensualíssima Mai Shiranui. E vocês sabiam, que quando o jogo estava sendo desenvolvido, a Mai inicialmente era para ser um homem? Pois é, os criadores queriam colocar um homem ninja no jogo, e chegaram a criar a sua concepção, mas no final optaram por mudar para uma mulher, e assim nasceu a bela kunoichi. Ufa, essa foi por pouco, imagina só se eles não mudassem de ideia, a grande perda que nós gamers teríamos…

Mai Shiranui

Mas voltando ao Neo Geo, o console/fliperama foi o lar de muitos games de luta, como “Art of Fighting“, “Samurai Shodown” e “World Heroes” – e suas respectivas sequências -, que inovavam com os seus efeitos de zoom na tela. Mas foi só em 1994 que era lançado o jogo de maior prestígio da empresa (e que viria ganhar sequências a cada ano até 2003, com o último jogo da série lançado para o console): “The King of Fighters ’94“.

O título foi um grande sucesso e trazia novidades interessantes, como a opção do jogador de montar equipes com três lutadores, além de um elenco de personagens vindo de outros jogos de luta da SNK –  e até de outros gêneros não de luta, como “Ikari Warriors” e “Psycho Soldier”. É verdade que o sistema não teve muitos jogos lançados durante sua vida útil, mas dos cerca de 150 jogos disponíveis, pelo menos uns 50 são jogos de porradaria.

The King of Fighters ’94 – o início de uma cultuada franquia

A decadência

Apesar do Neo Geo não ser um console muito popular, a SNK fazia bastante dinheiro com os seus jogos de luta, mas no final dos anos 90 o gênero foi perdendo força na preferência dos consumidores, e o próprio mercado de arcades/fliperamas perdia o seu espaço, agora com videogames mais poderosos que ofereciam experiências tridimensionais, coisa que o Neo Geo era incapaz de fazer.

Em janeiro de 2000 a SNK passava por uma crise financeira e acabou sendo comprada por uma empresa que produz jogos pachinko (máquinas tipo as de cassinos para ganhar prêmios em dinheiro), a Aruze, que começou a produzir suas máquinas com os populares personagens dos jogos da produtora. Foi nessa época que saiu “Capcom vs SNK“, jogo que juntava personagens das duas empresas, chegou a fazer sucesso, mas a maior parte dos lucros foram para a Capcom, que desenvolveu o jogo (a SNK também lançou sua versão do vs). As coisas iam de mal a pior e foi quando o fundador original da SNK, Eikichi Kawasaki, deixou a companhia junto com outros executivos e fundou uma nova empresa em 2001, a Playmore.

Em outubro de 2001 a SNK entrou em colapso e pediu falência, colocando os direitos de propriedade intelectual de suas franquias em licitação. Vários empregados debandaram e fundaram uma nova produtora de games, a Brezzasoft. Durante esse período, a SNK licenciou o uso e produção de suas franquias para várias outras empresas, como a Eolith (que ficou com KoF entre 2001 e 2002), a Mega Enterprise (que produziu Metal Slug 4) e a Noise Factory (que fez Sengoku 3).

A linha de produção do Neo Geo foi descontinuada em 1997, mas os jogos oficiais, tanto para arcade como console, foram lançados até 2004, sendo que o último título da SNK para o sistema foi o “Samurai Shodown V Special“, em 2004. Foram longos 14 anos com jogos cultuados até os dias de hoje.

Samurai Shodown V

Com a intenção de recuperar o seu filho perdido, Eikichi Kawasaki, agora dono da Playmore, comprou todos os direitos intelectuais no final de 2001 e começou a recontratar ex-funcionários, e também comprou a Brezzasoft, rebatizando-a como SNK NeoGeo Corp. Em 2003 toda essa salada foi rebatizada, virando agora a SNK Playmore, quando Kawasaki recuperou os direitos de usar o nome SNK novamente.

Top10_NeoGeo

alguns dos games para Neo Geo: 1 – Metal Slug 3, 2 – Samurai Shodown II, 3 – The King of Fighters ’98, 4 – Super Dodge Ball, 5 – The Last Blade 2, 6 – Viewpoint, 7 – Blazing Star, 8 – Sengoku 3, 9 – SNK vs. Capcom: SVC Chaos, 10 –  Garou Mark of the Wolves

Conclusão

Apesar de ainda existir e de contar com boa parte da sua equipe original, A SNK Playmore está longe de ter a mesmo popularidade, ou nível de qualidade, que ostentava lá nos anos 90. As coisas só pioraram com as tentativas desastradas de lançar novos sistemas, como o Neo Geo CD (1994) – que apesar de jogos mais baratos a US$ 50, tinha um drive de CD-Rom extremamente lento e loading times gigantescos -; a placa Hyper Neo Geo 64 (1997) para jogos em 3D para arcades, que não teve chances contra placas mais poderosas da Sega e Namco; e os portáteis Neo Geo Pocket (era monocromático, lançado em 1998) e o Neo Geo Pocket Color (o último sistema feito pela empresa, em 1999) que foram dois grandes fracassos.

No final de 2012 a empresa Tommo recebeu a licença da SNK Playmore para produzir um Neo Geo portátil, chamado de “Neo Geo X“, mas ele não agradou muito por usar emulação em seus jogos, fazendo com que a SNK terminasse o contrato – e a produção do aparelho – em 2013, em menos de um ano no mercado.

O último jogo da SNK Playmore foi “The King of Fighters XIII“, lançado em 2010 inicialmente para arcades (usando a placa Taito Type X2), ganhando versões para Xbox 360 e PS3, e mais recentemente também para PC. O jogo foi muito bem recebido pela crítica e fãs, com uma estrutura que lembra games como “BlazBlue” e “Street Fighter IV”.

Apesar do futuro incerto da SNK Playmore, nós teremos sempre como seu legado a sua maior criação, cultuada até os dias de hoje: o Neo Geo, o primeiro e único videogame que também era fliperama, considerado um sistema impressionante para a época, que depois de mais de 20 anos, ainda atrai atenção de colecionadores e jogadores de todo o mundo.

A Família Neo Geo

Neo Geo MVS

Neo Geo AES

Neo Geo CD

Hyper Neo Geo 64

Neo Geo Pocket

Neo Geo Pocket Color

Neo Geo X

Leia aqui a história de outros consoles: