Análises

ActRaiser

Certamente você que tinha um Super Nintendo no início dos anos 90 deve se lembrar de “Actraiser”, um jogo que marcou época por juntar dois gêneros: o de ação de plataforma 2D e simulador/RPG, em um só game. E ainda colocava o jogador no papel de Deus. Não um deus mitólogico qualquer, mas sim o Todo Poderoso.

A divindade sempre foi algo que intrigou a humanidade, desde os tempos da Antiga Grécia aos dias de hoje. Religião é um assunto bastante polêmico, com várias crenças, pregadores, deuses, histórias e mitologias que fazem parte da história humana. Apesar de em “Actraiser” não estar explícito que você joga como Deus (a Nintendo alterou alguns conceitos para evitar polêmicas), isso fica bastante claro no contexto do título, em que o jogador enfrenta as forças do mal e tem como poderes as forças da natureza.

assuma o papel de Deus em “Actraiser”

O game conta a história de um antigo deus, conhecido como “The Master”, que acordou de um longo sono e se depara com um mundo caótico conquistado por demônios, liderados pelo poderoso e nefasto “diabão” Tanzra. Durante o tempo em que o “Mestre” esteve adormecido, Tanzra pintou e bordou, dividindo o mundo em seis territórios, cada qual sob o domínio de um demônio/general. Mas apesar de o jogador pertencer à onipotência, o início se dá de maneira bastante limitada, pois o “Mestre” perdeu seus poderes por causa da falta de crença das pessoas nele. Mas assim que ele ajuda na prosperidade da civilização e vai derrotando os demônios, vai se tornando mais forte e recupera os seus poderes, até ter força suficiente para enfrentar Tanzra numa batalha final e decidir o destino da humanidade.

A ação em “Actraiser” se desenvolve em dua etapas bem distintas: após escolher a área a ser “limpada”, o “Mestre” desce ao mundo na forma de um poderoso guerreiro (uma estátua na verdade) com a missão de destruir os demônios e os subalternos de Tanzra, no bom e velho estilo jogo de ação de plataforma. Com a área limpa (e o chefão derrotado), as pessoas começam a surgir, e assim começa a segunda etapa do jogo, o simulador com uma visão aérea do território e da população. Também chamado de “god game”, gênero que popularizou-se com “Populous” e “Civilization”, o jogador comanda um anjinho que tem a missão de proteger e conduzir a civilização rumo à prosperidade. Você começa com apenas dois humanos, em uma área infestada de monstros, que tentam impedir o progresso da população. Apesar de o anjo poder matá-los com flechadas, isso não os impede de continuar vindo. Para acabar com a proliferação dos monstros, é necessário conduzir os humanos até os seus ninhos, que os destruirão por completo.

o game garante bons níveis de ação 2D

E assim você os ajuda, tomando algumas decisões como criar estradas e pontes, enquanto os humanos vão povoando e se multiplicando pela área. Em alguns momentos, as pessoas vão até templos orar e pedir por milagres, como destruir árvores e pedras de uma região para poderem plantar, para fazer chover, para matar monstros ou salvar pessoas. Elas também trazem oferendas, geralmente itens que podem ser usados durante o jogo, ou contam sonhos, que tem a ver com a narrativa da aventura. Ainda é possível, no modo de simulação, realizar cinco tipos de milagres: Lightning (um raio que limpa a área, como pedras, rochas e inimigos – e casas se houver alguma por perto); Chuva, para restaurar plantações secas e abrir áreas nos desertos; Sol, para secar pântanos e derreter neve; Vento, para varrer todos os inimigos da tela, e o mais poderoso de todos, Terremoto, que destrói todas as casas da área (necessário em um determinado ponto do jogo, forçando as pessoas a contruirem residências mais resistentes a desastres naturais). Cada um desses milagres custa pontos SP para serem usados. Esses pontos são conseguidos destruindo os demônios no modo de simulação. Aliás, a evolução do seu personagem se dá no modo de simulação, aumentando a sua força, a sua vida e mágica, elementos que também afetará o modo de ação, deixando o guerreiro mais forte.

E falando nele, o modo de ação é bem simples, no melhor estilo Castlevania de ser, tendo o guerreiro comandos básicos como saltar, se abaixar e atacar com a sua espada. É possível ganhar quatro magias conforme a evolução do jogo: Magical Fire, Magical Aura, Magical Light e a mais poderosa, Magical Stardust. Mas nem tudo são flores, apesar de simples, os controles do guerreiro são duros e travados, além de apresentar uma (irritante) demora na hora de pular obstáculos (alguns saltos podem render experiências muito frustrantes). Levará um tempo até se acostumar, mas passado esse problema, o jogo só oferecerá muita diversão e alegrias.

seja um bom Deus e ajude na evolução da civilização

Lembrando que é um jogo da primeira geração do Super Nintendo, lançado em 1991, ele apresenta gráficos muito bem trabalhados (que não usam todo o potencial do console), com cenários distintos e detalhados como florestas, cavernas, desertos, templos e afins, com bom uso de cores e animação. Os inimigos, e principalmente os chefes de fases (a maioria seres mitológicos), também estão bem representados na tela, com designs criativos. Mas provavelmente, a componente técnica visual que mais chamou a atenção de “Actraiser” na época, é a hora em que você desce do seu castelo voador nas nuvens, numa espiral usando o famoso Mode 7 de rotação, até chegar em terra firme. Isso tudo com um fundo musical que deixa a cena ainda mais marcante e impressionante.

E falando em fundo musical, certamente o elemento que mais chama a atenção em “Actraiser” é a sua trilha sonora simplesmente magistral e grandiosa. Composta por ninguém menos que Yuzo Koshiro (o mesmo dos clássicos “Streets of Rage” e “Revenge of the Shinobi”), o game apresenta temas orquestrados que até hoje impressionam. Koshiro era mesmo um mago da game music, criou temas memoráveis usando o chip de som do Mega Drive, e com o SNES que tinha um sistema de som melhor do que o rival, criou uma obra-prima musical. O que mais impressiona, é que sendo um game da primeira geração do console, mesmo anos depois de lançado, poucos são os jogos que podem se equiparar a qualidade técnica sonora de “Actraiser”. Koshiro compôs músicas medievais ao melhor estilo de John Williams (o qual ele é fã confesso), misturando algumas batidas eletrônicas (sua especialidade) criando uma experiência inesquecível para a aventura (lembram bastante as músicas de “Castlevania”). Uma coisa é certa, “Actraiser” não seria o mesmo jogo se não tivesse a trilha sonora de Yuzo Koshiro.

Escute abaixo a versão orquestrada de Fillmore

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O jogo possui uma dificuldade crescente, tanto nas partes de ação como nas de simulação. São no total seis áreas, cada qual com suas dificuldades e características próprias. Cada área possui duas fases de ação-plataforma, intercaladas pelas fases de simulação. Alguns chefes de fase podem apresentar uma dificuldade mais elevada, mas após se decorar o padrão de seus ataques tornam-se mais fáceis (mas prepare-se para a fase final, em que você enfrenta TODOS os chefes novamente antes de encarar o diabão final).  O jogo é relativamente curto e infelizmente não possui fator replay alto. “Actraiser” recebeu uma sequência em 1993, porém apesar de apresentar belos gráficos, ficou longe de fazer o mesmo sucesso que o seu antecessor, por ser desta vez apenas um game de plataforma (e bastante difícil). Desde então ficou esquecido nas brumas do tempo, quem sabe algum dia alguma produtora o traga de volta para a alegria de seus fãs.

Márcio Pacheco

Márcio Alexsandro Pacheco - Jornalista de games, cultura pop e nerdices em geral. Me add nas redes sociais (links abaixo):

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