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Análise | A Dream About Parking Lots – Um sonho indie estranho

Um jogo curto, experimental e confuso que mistura sonhos, terapia e estacionamentos, mas deixa a dúvida: é arte ou só desperdício de dinheiro?

Uma análise de custo baixo!

Existem jogos que te deixam sem palavras porque são obras-primas. Outros porque são desastres completos. E aí temos aqueles que te deixam em silêncio porque… você simplesmente não sabe o que pensar.

A Dream About Parking Lots entra exatamente nessa categoria: é esquisito, é curto, é quase uma pegadinha, mas também é pessoal, experimental e, no mínimo, curioso.

Lançado pela Interactive Dreams, um pequeno estúdio indie do México, o jogo chegou ao Xbox, PlayStation, Switch e PC prometendo te colocar em uma sequência de sonhos dentro de estacionamentos cada vez maiores e mais estranhos. Seu único objetivo? Procurar o seu carro usando um controle remoto que emite um “bip” tímido quando você se aproxima dele. Parece pouco? Pois é.

O que é esse jogo afinal?

Em essência, A Dream About Parking Lots é um walking simulator minimalista. Você controla uma figura anônima, sem rosto, sem voz, perdida em estacionamentos infinitos e labirínticos. De vez em quando, entre uma busca e outra, surgem diálogos com sua terapeuta. É nesse ponto que o jogo ganha profundidade: ele não é apenas sobre encontrar um carro, mas sobre entender por que esse carro é tão importante para o protagonista, que memórias e traumas estão ligados a ele e como sonhos podem traduzir angústias do mundo real.

O problema é que essa premissa interessante dura cerca de 35 minutos. Sim, você leu certo: em pouco mais de meia hora, os créditos já sobem. A não ser, claro, que você caminhe devagar — o que, ironicamente, é quase inevitável, já que o jogo oferece apenas duas velocidades de movimento: “lento” e “um pouco menos lento”.

Narrativa: curta, mas sincera

A parte mais consistente da experiência está na narrativa. Os diálogos com a terapeuta são bem escritos, diretos, e conseguem passar um tom intimista. Você não está apenas ouvindo, mas participando, tomando pequenas decisões que moldam a conversa e oferecem uma sensação de escolha — mesmo que no fim tudo leve para o mesmo desfecho.

É aqui que o jogo revela sua faceta mais pessoal. O criador deixou claro que se inspirou em seus próprios sonhos e sentimentos de paralisia criativa e desorientação. Dá para sentir isso. Não é um jogo pensado para agradar massas, mas sim uma obra experimental, quase uma carta aberta.

Ainda assim, para o jogador médio, a sensação pode ser de vazio. Você anda, escuta, pensa, e pronto: acabou. É mais um curta-metragem interativo do que um jogo em si.

Visual e ambientação: sonho ou preguiça?

Os visuais tentam passar essa ideia de sonho nebuloso, mas na prática ficam no meio do caminho. Cenários repetitivos, iluminação genérica e texturas simplórias. Há momentos em que essa simplicidade até funciona, criando uma estranheza incômoda. Mas em outros, parece apenas falta de refinamento.

Não chega a ser feio, mas também não impressiona. É o tipo de arte que poderia estar em um protótipo de faculdade de design de jogos — o que, considerando o tamanho do estúdio, pode até ser desculpável.

Jogabilidade: apertar botão e andar

Se você está procurando ação, quebra-cabeças ou qualquer tipo de desafio, pode esquecer. A jogabilidade se resume a andar pelo estacionamento e apertar o botão do controle remoto. O “puzzle” é seguir o som do bip. Não existe muito além disso.

É uma experiência relaxante? Talvez. É entediante? Para muitos, sim. Esse minimalismo pode até ser intencional, mas exige paciência do jogador — e com uma campanha tão curta, o tédio é um risco grande demais.

Preço: a polêmica do custo baixo

E aqui está o ponto mais delicado: vale pagar 28 reais na PS Store e 13 reais no Steam por A Dream About Parking Lots?

Se pensarmos em termos de custo-benefício, a conta não fecha tão bem. São trinta minutos de gameplay por quase o preço de um sanduba podrão. E, convenhamos, o sanduba ainda vem com ótimo recheio.

Mas também é preciso lembrar: estamos falando de um jogo indie experimental. Ele não foi feito para competir com blockbusters ou oferecer dezenas de horas de conteúdo. É uma experiência curta, autoral, com valor artístico. Se você encara dessa forma, o investimento (13 reais no Steam) pode ser visto como um ingresso de cinema alternativo. Você não está comprando um game tradicional, mas sim uma ideia.

Ainda assim, não dá para ignorar: muitos jogadores vão terminar a sessão pensando “foi só isso?”.

Crítica e valor artístico

Sendo justo, há algo louvável em A Dream About Parking Lots. Poucos jogos têm coragem de ser tão literais, tão pessoais e tão diretos. Ele fala sobre terapia, sobre sonhos recorrentes, sobre sentir-se perdido — temas pouco explorados em games.

O problema é que a execução não acompanha a ambição. O ritmo arrastado, a duração curtíssima e a jogabilidade rasa minam o impacto da narrativa.

É como se você fosse assistir a uma peça de teatro experimental em que o ator fica meia hora andando em círculos no palco enquanto repete uma frase significativa. Você pode até entender a mensagem, mas sai do teatro se perguntando se valeu o ingresso.

Comparação com outros indies

É impossível não comparar A Dream About Parking Lots com outros indies que também exploram subjetividade e narrativa curta, como Journey, What Remains of Edith Finch ou Gone Home. Esses títulos também têm duração limitada, mas conseguem criar impacto emocional e imersão de forma muito mais eficaz.

Aqui, o impacto existe, mas é diluído pelo marasmo do gameplay. É como se o jogo tivesse uma boa ideia, mas não soubesse como transformá-la em algo memorável.

Conclusão: estranho, curto, mas não irrelevante

No fim das contas, A Dream About Parking Lots não é um jogo para todos. É estranho, é curto e beira o entediante. Mas também é sincero, íntimo e ousado.

Se você é o tipo de jogador que gosta de experiências experimentais, que valoriza mais a mensagem do que a diversão, pode encontrar aqui algo interessante. Se você só quer se entreter, vai se frustrar.

Por R$28, o jogo se torna ainda mais polêmico. Não é exatamente caro, mas também não entrega o suficiente para justificar o preço facilmente. Seria mais adequado como uma experiência de R$10 ou até mesmo gratuito em alguma promoção.

Ainda assim, o simples fato de existir já mostra que há espaço para indies fora do padrão, mesmo que não atinjam grandes públicos. A Interactive Dreams pode não ter criado um clássico, mas mostrou que tem identidade.

Prós:

  • Premissa curiosa e autoral.
  • Narrativa intimista e bem escrita.
  • Atmosfera estranha que cumpre o papel.
  • Curto e fácil de terminar (ótimo para quem caça troféus rápidos).

Contras:

  • Duração ridiculamente curta.
  • Jogabilidade rasa ao extremo.
  • Visual simplório e repetitivo.
  • Preço desproporcional para o conteúdo oferecido.

Nota Final: 6/10

A Dream About Parking Lots é uma experiência esquisita e pessoal que tenta ser arte, mas tropeça na execução. Vale para curiosos e fãs de indies experimentais, mas a maioria dos jogadores vai sentir que pagou caro por meia hora de passeio no estacionamento dos sonhos.

Marcelo Mendes

Analista técnico, Marcelo Mendes é uma enciclopédia ambulante quando o assunto é PlayStation, Call of Duty, Fortnite e Battlefield. Com formação em engenharia da computação e mais de 15 anos cobrindo o mundo dos games.
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