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A Microsoft está se esforçando para estabelecer o Xbox Game Pass como a “Netflix dos jogos”. A comparação não é relacionada ao uso de streaming, mas sim a um serviço digital que oferece uma biblioteca recheada de opções para os clientes. Bleeding Edge é a tentativa de emplacar um game competitivo que não seja um shooter no catálogo (os muitos Halo e Gears já cumprem bem este papel). Infelizmente, a recepção do público e crítica que ele recebeu não foi tão calorosa quanto a desejada, e há muitos fatores para isso.

Para o jogador curioso com o título, só existem três questões que realmente importam: Bleeding Edge é um bom jogo? Bleeding Edge sobreviverá no mercado dos jogos competitivos? E a principal: eu deveria dar uma chance para Bleeding Edge? Eu acredito que sim, mas a Microsoft parece acreditar que não. Para entender melhor, vamos por partes.

O lado bom da jogabilidade

Bleeding Edge não é o ápice dos games competitivos, mas tem uma base sólida, que se apropria do que há de melhor em vários concorrentes, ao mesmo tempo que exibe uma identidade própria – tanto na estética quanto na jogabilidade. Atualmente o jogo é um broto com o potencial de ser tornar uma grande árvore.

No conceito de gameplay, assim como em Overwatch, cada personagem ostenta um kit de ataques, habilidades e movimentos únicos para utilizarem em partidas rápidas e de ação frenética. Dos MOBAs, como League of Legends, o posicionamento no mapa é de extrema importância pela presença de múltiplos pontos de interesse espalhados em cantos diferentes a todo momento. De Paladins e Heroes of the Storm, vem as “montarias” (no caso, pranchas flutuantes customizáveis), que permitem atravessar distâncias com rapidez e estar sempre em algum lugar importante.

Desses todos ele pega emprestado os arquétipos de personagens Tank, Support e DPS – ou os grandões de linha de frente, os curandeiros/ajudantes menos ofensivos e personagens focados puramente em dano. Mas o maior chamariz de Bleeding Edge é de mérito próprio: o combate.

Personagens de combate à curta distância receberam um polimento jamais visto neste tipo de game, através de um sistema de combo automático que deve ser usado em conjunto das demais habilidades para garantir um maior controle ofensivo e defensivo, cada personagem com suas particularidades.

O guitarrista de black metal Nidhoggr (que nomezinho difícil de pronunciar) pode segurar um de seus ataque básicos para transformá-lo em um de longa distância, garantindo o acerto caso o oponente consiga fugir no meio do combo. Já o grandão Makutu pode tanto interromper seu combo, como transformá-lo em uma onda de tapões na cara ininterrupta no melhor estilo E. Honda (de Street Fighter), ou então segurar o botão no último golpe de seu combo automático e transformá-lo em um gancho que manda o oponente para os ares.

Para lidar com tudo isso, os personagens possuem um recurso de estamina, utilizado tanto para interromper as pancadas que estão levando com uma rápida movimentação evasiva (o famoso “dash”), quanto para aparar o atacante e deixá-lo em desvantagem. Certos lutadores possuem mais estamina, e um ou outro pode até utilizá-la de modos diferentes. Existem até Tanks com habilidades exclusivas que substituem esse sistema.

Sabe o que é tudo isso? Mecânicas de jogos de luta, o gênero competitivo que pode ser considerado o mais complexo da atualidade. Isso tudo é muito divertido de explorar. Entender estas mecânicas e aplicá-las durante a jogatina traz uma satisfação imensa. Caso você esteja disposto a se dedicar, Bleeding Edge lhe entrega conteúdo o suficiente para horas sem fim de entretenimento, mesmo com um elenco relativamente pequeno de personagens nesta estréia. Mas aí surge um dos primeiros e principais problemas. Você está disposto a se dedicar?

O lado da jogabilidade que precisa melhorar

De cada 10 partidas que eu joguei, em 9 as pessoas pareciam não ter ideia do que precisava ser feito. Ambos os times zanzavam aleatoriamente pelo mapa, morrendo ou matando como se não tivessem times ou objetivos. Bleeding Edge até tentou implementar um tutorial para ensinar o básico, com treinamentos onde você aprende que existem os dois modos de jogo e como eles funcionam – e um pouco sobre a mecânica de estamina e esquiva. Mas não é o suficiente.

Faltou explicar que é necessário manter o olho no mini-mapa para saber se localizar, os atalhos de diálogo para se comunicar rapidamente com o time e a função de cada tipo de arquétipo. Mais importante ainda, faltou um guia para os personagens. Tutoriais individuais que ensinassem tudo o que eles podem fazer e algumas estratégias, assim como vários jogos de luta fazem hoje em dia, pois isso é absolutamente necessário uma vez que optaram em criar um sistema tão complexo.

De fato, a maioria das pessoas simplesmente ignorariam a existência dele, mas a rejeição ao jogo por não entender o que está acontecendo seria significativamente menor, ainda mais se existisse algum incentivo para que elas completassem esses treinos, como conquistas e moedinhas para comprar cosméticos. E já que citei o visual…

Bonito e feio

Se você bater o olho em qualquer imagem de Bleeding Edge, a primeira palavra que provavelmente virá à sua mente é “bizarro”, certeira para definir o visual. Sendo muito sincero eu o odiei à primeira vista, mas com o tempo, fui me acostumando e hoje simpatizo com a maior parte do elenco, mas é inegável a estranheza da maior parte dos bonecos. É difícil parar de se distrair com a bailarina de pernas mecânicas gigantes com trejeitos de pássaro, ou a americana com sobrepeso que substituiu as canelas e pés por uma única roda de caminhão na qual fica permanentemente sentada. Isso sem falar no curandeiro zumbi cuja mente foi transportada para uma serpente mecânica entrelaçada pelo seu corpo em decomposição.

Existem alguns personagens visualmente mais fáceis de digerir. Temos um ninja do gueto, uma caçadora com um capacete maneiríssimo, uma mecânica australiana que carrega um arsenal bélico, mas esses não são a maioria.

Esse elenco nada ortodóxico merece ser apreciado. Eles fazem com que Bleeding Edge seja uma explosão de personalidade, são todos marcantes à sua maneira. Se você perguntar para alguém que só jogou Street Fighter II há muitos anos quais são os personagens dos quais ele se lembra, eu te garanto que um dos primeiros citados será o Blanka. Em Bleeding Edge, todo mundo é Blanka. E o mérito disso também é do Brasil! Soube recentemente que o designer responsável pelo conceito artístico do elenco é o desenhista brasileiro Marco Teixeira.

Mas agora, eu levanto outra questão que pode ter prejudicado a popularidade do jogo. Você jogaria Street Fighter II caso todos os personagens fossem tão bizarros quanto o Blanka?

As péssimas decisões da Microsoft

Eu chutaria que sua resposta foi “não”. Meu fundamento para isso é a história de um dos maiores fracassos da indústria dos videogames, um jogo chamado Battleborn. Existem inúmeras teorias e até estudos para entender o fenômeno Battleborn, e infelizmente, é possível traçar uma comparação bem direta dele com nosso caro Bleeding Edge.

A hipótese mais forte do fracasso de Battleborn é a data de seu lançamento, em maio de 2016. Exatamente no mesmo mês do jogo de sucesso colossal Overwatch. E caso você não se lembre, Battleborn também se tratava de um FPS competitivo de times, com personagens únicos e mapas com objetivos pré-determinados, era praticamente o mesmo sub-gênero.

Particularmente, acredito que tão impactante quanto a data de lançamento foi seu design um tanto exótico, assim como ocorre em Bleeding Edge. Entre um jogo competitivo cheio de personagens estilosos como o Genji e a Dva, e um em que um dos personagens principais é um cara bombado de cinco metros de altura e uma cabeça de 10 centímetros de diâmetro, a maioria das pessoas escolheria o primeiro. É muito mais fácil de se identificar com o ninja cibernético e a adolescente que pilota um robo gigante. As chances de você colocar um poster deles no quarto, quem sabe até considerar fazer um cosplay, são muito maiores.

Você pode dizer o mesmo sobre o elenco de Bleeding Edge? Será que você se identifica mais com o Hanzo ou com alguém cujo corpo foi mutilado para acoplar uma bola mágica gigante no centro que o permite girar os braços em 360 graus? É esta lógica que, presumo eu, fez com que a Microsoft pareça ter desistido de Bleeding Edge antes mesmo do lançamento oficial.

Claro, o game acabou de sair, mas não do jeito que deveria. A impressão é que a Microsoft apressou a Ninja Theory para entregar o projeto de qualquer jeito, uma vez que o investimento já tinha sido feito. O motivo? Contenção de prejuízo, temendo a reprovação do público por conta do impacto visual e densidade da jogabilidade.

Essa teoria seria responde o porquê do elenco e número de mapas ser tão pequeno. A razão pela qual as skins monetizadas dentro do game serem apenas recolorimentos bem mequetrefes dos visuais originais. Da falta de publicidade apoiando uma aposta tão importante. Quem sabe , até mesmo o tutorial meia-boca seja resultado desta falta de investimento.

Não temos sequer um modo ranqueado! Para boa parte do público de jogos competitivos, partidas ranqueadas dão a adrenalina que os impulsiona para continuarem jogando e aperfeiçoando suas habilidades. Eu sei disso porque eu me enquadro nesse grupo.

Não faz sentido que este jogo não tenha isto. A culpa só pode ser a falta de investimento. Não fazer propaganda significa que o número de jogadores será menor, e dividir a jogatina em modos casual e ranqueado por definição aumenta o tempo de espera pelas partidas. O que, então, dará ainda mais a impressão de que o jogo nasceu morto. São péssimas escolhas que criaram um efeito dominó que pode condenar qualquer chance de Bleeding Edge ganhar espaço no mercado. Isso é uma pena terrível, pois este game merece uma chance.

Agora ou Nunca

Ao menos o time de Bleeding Edge preparou o lançamento de um personagem novo (um golfinho que luta de dentro de um aquário-robô!), um mapa novo e pelo menos uma skin nova muito mais trabalhada do que um simples recolorimento para uma personagem.

Se você já é assinante do Xbox Game Pass, não há motivo para não experimentar este game. Ele não é perfeito e exige um tempo para se acostumar com todas suas facetas, mas faça o teste. Depois de um tempo, vai passar o espanto de ver a russa bailarina com tiques de passarinho, e quem sabe você comece a apreciar o quão única ela é. O fato é que você não vai ver tantos personagens tão coloridos e malucos em outros jogos deste porte.

Conclusão

Caso você esteja cansado da mesmice, de designs genéricos e jogabilidades formulaicas, talvez este joguinho que a Microsoft está deixando de lado seja exatamente aquilo que você está procurando. Sem esquecer que baixando e jogando você automaticamente aumenta a base de jogadores, elevando as chances de que ele receba a atenção e investimento que merece. Por todo esse potencial, Bleeding Edge merece, sim, ser jogado. Se não for agora, pode ser que não seja nunca mais.

PRÓS

  • Forte identidade estética
  • Jogabilidade profunda e satisfatória
  • Cria algo novo ao mesmo tempo que reúne o que há de melhor em outros gêneros
  • Personagens bem diferentes um dos outros
  • Partidas frenéticas

CONTRAS

  • Você pode demorar para se acostumar com o visual dos personagens, ou simplesmente não gostar
  • Exige uma certa dedicação para se jogar minimamente bem
  • Poucos personagens e mapas no lançamento
  • Poucos cosméticos, e as skins presentes no lançamento são apenas pequenos recolorimentos
  • Falta de um modo ranqueado e de treino mais caprichado

NOTA – 8,0 (esta nota é para o jogo em seu lançamento)