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Análise | Gran Turismo 7 retorna às origens e esbanja bom conteúdo

A série Gran Turismo sempre foi sinônimo de PlayStation. O jogo de automobilismo é um dos mais vendidos na plataforma em todas as suas gerações, mesmo passando por altos e baixos com a sua comunidade nos últimos tempos.

Após Gran Turismo Sport, que focou no competitivo, pecou em conteúdo e teve uma recepção bem morna de crítica e jogadores, GT7 foi o encarregado de fazer a franquia retornar aos seus tempos de glória. Kazunori Yamauchi, diretor do jogo, apostou em nostalgia, conteúdo e engrandecimento da cultura automobilística para atingir esse objetivo.

Amor às quatro rodas

Pela introdução, que nem sequer pode ser pulada da primeira vez que você a vê, já dá para sentir a intenção de Yamauchi com Gran Turismo 7. Um vídeo longo nos mostra uma linha temporal da história automobilística, passando pelos primeiros protótipos ainda nos tempos do cinema preto e branco até chegar no próprio Gran Turismo, com as suas corridas alucinantes e carros ultra modernos.

Toda o jogo gira em torno deste culto ao esporte e às máquinas de corrida, uma celebração do prazer que é correr com uma máquina lendária. É uma sensação diferente de outros jogos do gênero, que apostam no frenesi da corrida por si só. A impressão é que você deveria estar trajando um terno e tomando uma taça do caríssimo Gôut de Diamants enquanto pilota seu carango clássico dos anos 60. Um exemplo é logo sua primeira interação com os controles. No inédito modo “Music Rally”, você corre contra o tempo para que a música continue tocando. A expectativa em um jogo de corrida seria por um Pop da moda ou um rap, mas aqui é uma música clássica, refinada como o jogo e seu design.

Já no modo mundo, que retorna para o formato de menu/mapa clássico de Gran Turismo – abandonado após o quinto jogo da saga – há uma série de atividades e todas elas, em alguma extensão, reforçam esse amor ao automobilismo, quase como uma aula. O modo “Café”, por exemplo, é onde o jogador vai pegar algumas missões para cumprir e ganhar recompensas. Ao completá-las, como por exemplo coletar 3 carros específicos da linha M da BMW, há uma explicação sobre a história desses modelos, como foram importantes para o automobilismo e se ainda hoje são relevantes. É bem naquela pegada de nerd mecânico, citando o ano de criação, potência do motor, quase como fazer parte da oficina do Memphis, personagem de Nicolas Cage em “60 Segundos”, mas com um refinamento a mais.

Em alguns momentos, essa vontade de te fazer um amante do automobilismo exagera na dose e às vezes parece que você está participando de um diálogo expositivo desnecessariamente longo, mas acho que essa sensação vai depender bastante do gosto de cada um.

Volta às origens e cuidado com novatos

Além do mapa clássico, o jogo também conta com o retorno de vários favoritos dos fãs. O principal e mais celebrado é o modo de licenças, que funciona quase como um tutorial em modo desafio, sempre brilhante e que fez muita falta na série. O jogador começa tirando a licença B nacional e pode ir até a lendária A internacional, aprendendo os principais conceitos de direção no caminho. Eu mesmo não sou nem de longe um expert em jogos do gênero e aprendi demais aqui. Conceitos que devem ser simples para os outros, como o “fora, dentro fora” para curvas, era algo que eu não fazia ideia e melhoraram muito os meus tempos nas pistas.

Aliás, o cuidado com os novatos precisa ser celebrado. Mesmo na parte do jogo reservada aos veteranos e mais dedicados, a de Tuning dos carros, há explicações didáticas e até bem simples para tudo. Na loja de peças, existe um botão com explicação para cada uma delas, sem exagerar na complexidade e dando exemplos de aplicação simples, como quando utilizar variações focadas em baixas rotações para pistas com excesso de curvas. Eu nunca me senti totalmente perdido e mesmo na planilha de edição do carro, com diversas opções de ajustes, dá para entender muito bem o que fazer.

A volta às origens também tem seus pontos fracos. O mapa é legal, mas bem chatinho de navegar, no sentido que há muita troca e transição de tela para fazer mesmo as coisas mais básicas. Embora o SSD, para quem for jogar no PS5, ajude com o carregamento das telas, ainda assim há algumas mais demoradas que vão te irritando com o tempo.

Jogabilidade Refinada

Nas pistas o resultado também convence. Dentro da sua categoria entre simulação e arcade, GT7 continua divertido e ao mesmo tempo exigente. Mudanças climáticas, que acontecem em tempo real, e agora até o desgaste da pista no decorrer da corrida, mudam drasticamente a resposta do carro e exigem adaptação.

A parte de tuning também influencia muito o resultado das corridas e precisa ser feita pista a pista para os melhores resultados. Isso torna cada prova única e a sensação de domínio das mecânicas bem recompensadoras. Também há momentos em que tudo vai dar errado, seu carro ficar parecendo um sabonete ou uma pedra sem velocidade, mas faz parte do aprendizado e até rende algumas gargalhadas.

Mesmo com todas essas variações, a resposta dos controles é muito boa, proporcionando uma jogabilidade bem fluida. Os erros sempre são só seus e não dá para culpar uma programação ruim de física ou resposta direta de um comando. É muito prazeroso pilotar o carro em Gran Turismo 7.

O DualSense é uma baita adição para a experiência também. O feedback háptico retorna cada aspecto da pista afetando o carro para o controle, incluindo subir nas linhas laterais ou pequenos impactos da suspensão. Tirando um circuito no Japão onde ele se torna incômodo por tremer demais, o que atrapalha na hora de jogar, em todas as outras pistas a sensação foi ótima. Não chega perto da sensação de usar um volante e pedais próprios, mas tem o seu charme, foi bem implementado e sai mais barato.

Conteúdo de sobra

Há muito conteúdo em Gran Turismo 7, que podem render várias centenas de horas para quem tentar fechar todos os desafios.

O que foi alcançado em Gran Turismo Sport após as atualizações se mantém aqui, havendo várias formas de competir online, com torneios, lobbys e até a muito bem-vinda tela dividida em modo local. O piloto vai subindo no ranking de acordo com as vitórias e seu perfil vai ficando cheio de conquistas e números de acordo com o progresso. Como o matchmaking vai funcionar, juntamente com mais detalhes sobre a parte técnica do online, só vai dar para avaliar após o lançamento no próximo dia 4.

No mapa-múndi, além dos modos que já citamos, há uma série de atividades. Há um modo só de desafios, onde é necessário ultrapassar dois carros em um curto pedaço da pista ou tentar chegar na velocidade máxima de um carro específico antes do tempo acabar.

O modo foto é extremamente detalhado, com centenas de paisagens do mundo todo para escolher, inserir seus carros e tirar algumas fotos de cair o queixo.

Para quem gosta de colecionar carros e entrar no mercado de compras e vendas, há mais de 400 veículos para conseguir e é preciso muito, muito dinheiro para ter todos.

Alguns defeitos retornam

Há alguns problemas para se levar em conta também. O primeiro deles é a inteligência artificial dos pilotos. Nem nos modos mais difíceis você sente que está pilotando contra alguém de verdade. A máquina anda sempre em fila, em linha retinha e não tem reação a eventos em tempo real que convencem, o que impacta e eleva outros problemas na pista.

O sistema de colisão é um deles, que carece de realismo. Bater em uma parede é quase como fazer isso com um carrinho de bate-bate daqueles encontrados em parques de diversão. Isso acaba sendo mais frustrante ao bater em outros carros ou quando batem em você. O jogo tenta premiar uma corrida limpa, sem jogar outros para fora da pista, dando mais dinheiro, mas na verdade é o jeito mais fácil de vencê-las, muito por conta dessa inteligência artificial apática.

Vale lembrar que a Polyphony prometeu uma IA capaz de derrotar os melhores pilotos e que seria muito imersiva por meio de uma atualização que virá apos o lançamento, então resta esperar para ver.

Os gráficos também oscilam bastante. Os carros e a pista em si são excelentes, mas todo o resto em volta está bem abaixo da média. Nas aberturas de torneios, nos vídeos mostrando a região e circuito onde a ação vai rolar, os carros são belíssimos, mas as árvores são claramente feitas com poucos polígonos, havendo também vegetação estática, e textura de objetos e chão em baixa resolução, deixando a apresentação muito aquém do que poderia ser.

Conclusão

Gran Turismo 7 retorna às origens e mistura seu passado com o que deu certo na sua fase competitiva para criar o melhor dos dois mundos. O amor ao automobilismo está presente em todos os modos e o cuidado com os novatos é um baita ponto para atrair novos jogadores. Há defeitos e erros para serem consertados no futuro, mas o resultado é positivo e abre caminho para um ótimo futuro em uma das franquias mais tradicionais do PlayStation.

Prós

  • Muito cuidado com novatos, havendo guias didáticos em todos os modos
  • Modo foto robusto, com muita variação e cenários
  • Implementação impressionante do DualSense
  • Conteúdo farto e retorno de antigos favoritos, como as licenças
  • Mais de 400 carros para colecionar

Contras

  • IA dos adversários é precária e simplória
  • Gráficos oscilam por conta dos cenários pobres
  • Navegar pelo mapa-múndi exige passar por telas demais para efetuar coisas simples

Nota: 8.5/10.0

Uma cópia do jogo para PS5 foi fornecida pela Sony para a elaboração desta análise.

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