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A década de 1930 foi desafiadora para os americanos. Após a recessão homérica causada pelo crash da bolsa de valores em 1929, eles ainda tiveram que lidar com intervenções grotescas do estado, como a proibição do consumo de bebidas alcoólicas. O resultado foi a criação de uma porção de organizações criminosas que se especializaram em contrabandear essa e outras drogas no período.

Hollywood, décadas mais tarde, se apaixonou pelas histórias de uma dessas quadrilhas: a máfia italiana. Com personagens que viam na sua organização uma espécie de família, um período repleto de conflitos sociais e uma estética que chama a atenção do público, esses filmes fizeram a cabeça de gerações e, obviamente, também se tornaram games mais tarde.

Mafia é uma das franquias que bebe dessa fórmula e seu primeiro jogo foi lançado há quase vinte anos, em 2002. Com a nova geração chegando, a desenvolvedora Hangar 13 decidiu dar uma repaginada no visual desse jogo interessante e fez todo um remake com gráficos modernos, prontos para levar a história de Tommy Angelo para mais uma geração. O resultado veio acompanhado de pontos altos e baixos.

A beleza dos anos 30

A história de Tommy Angelo, protagonista do jogo, começa bem no olho do furacão. No meio de um mundo em plena mudança, às vésperas da Segunda Guerra Mundial e passando por uma recessão, Tommy é um taxista como qualquer outro, tentando ganhar a vida de maneira honesta. Como os primeiros dois capítulos deixam bem claro, essa rotina é dura, cheia de frustrações e com um pagamento que mal dá para pagar as despesas.

O destino vai colocar Tommy, um cidadão comum, em um novo mundo de oportunidades: o do crime organizado. Aqui o risco é constante e você pode morrer a qualquer momento, mas o dinheiro e a chance de ser alguém com poder são irrecusáveis para o garoto. A história então vai desenrolar em como ele sairá de um bandidinho qualquer para um mafioso cheio de recursos e poder, narrada por ele próprio para um policial em uma lanchonete. O motivo? Jogue para descobrir.

Não é um roteiro brilhante, muitas das saídas são tomadas em função do recurso e tecnologia inferiores do início dos anos 2000, mas tem seus momentos, mesmo que o uso de cutscenes seja exagerado para o meu gosto. Algumas setpieces chamam a atenção e o resultado final, que às vezes parece simples demais, é uma jornada curta mas divertida.

Embora conte com uma grande e belíssima cidade, Mafia é um jogo praticamente linear. Cada capítulo começa já com um chamado para a missão a ser completada e engata para um ritmo alucinante e simples até que isso seja concluído. Na essência, está mais para um jogo de tiro em terceira pessoa do que de fato um jogo de mundo aberto nos moldes de GTA.

Isso não significa que a ambientação aqui tenha sido feita sem cuidado e o jogo funcione apenas em corredores. Com carros fiéis aos modelos da época, a vestimenta dos personagens cuidadosamente desenhadas para o período e a fumaça do cigarro – um acessório que definia o público dos anos 30 – você realmente se sente dentro daquele mundo.

A reformulação dos gráficos, graças ao uso do motor gráfico de Mafia 3, um jogo mais atual, deixa o remake de Mafia ombro a ombro com os títulos mais modernos. Dirigir durante a noite, com o reflexo das luzes da cidade refletindo sobre o capô cintilante dos carros de época é um momento marcante e belo, que faz toda a jornada valer muito a pena. Algumas missões, que pedem para dirigir no entorno da cidade, mostram que naquele momento ainda havia muito contato com a natureza nas metrópoles, algo que diminuiu muito nos últimos noventa anos.

Para quem quer apenas apreciar a beleza da época sem ter que lidar com os contrastes causados pelo crime, há um modo que permite explorar a cidade livremente, apenas dirigindo e parando para tirar fotos para a sua galeria particular.

Jogabilidade ultrapassada

Se por um lado os gráficos ganharam uma modernizada que dá nova vida ao jogo, por outro a jogabilidade recebeu poucos ajustes e parece fora de forma. O principal problema está na movimentação do personagem e a forma rudimentar que ele usa para entrar na cobertura para atirar.

Os jogos mais modernos estão até mesmo retirando a necessidade de um botão para entrar em cobertura. Já aqui, além de precisar apertar sempre que quiser entrar em uma, sair dela para a próxima é um trabalho impreciso e frustrante, que atrapalha alguns dos melhores embates.

As mecânicas de direção de veículo ganharam um pouco mais de fluidez em relação ao original e há até uma coleção de carros para ser completada, onde dá para testar um por um e notar que eles foram trabalhados individualmente. No entanto ainda é pouco comparado aos jogos mais recentes, e a cidade por vezes vazia torna tudo ainda menos interessante. O destaque nesse caso fica para as corridas, bem divertidas e muito menos frustrantes que no passado.

Uma coisa legal que mantiveram é a vasta quantidade de colecionáveis para encontrar pela cidade durante as missões. São mais de uma centena deles, que devem manter os viciados em troféus e conquistas presos no jogo por um tempo.

Conclusão

Mafia: Definitive Edition é um bom esforço da Hangar 13, que conta com gráficos modernizados que chamam a atenção e trazem a história de Tommy Angelo para uma nova geração de gamers. A jogabilidade ficou muito presa ao passado e conta com os mesmos problemas da época, como movimentação truncada do personagem e sistema de cobertura pobre. A história linear e simples também não é um ponto positivo, mas também não é ruim. No fim é um jogo que vale a pena ser jogado, mas aconselho esperar por uma promoção se você não é tão fã desse tipo de ambientação ou não suporta jogabilidade datada.

Prós

  • Gráficos belíssimos
  • Ambientação impecável dos anos 30
  • Localização em português brasileiro

Contras

  • Movimentação do personagem é truncada
  • Jogabilidade no geral é ultrapassada
  • História linear e curta
  • Um número considerável de bugs

Nota: 8.0