Share Button

Presenciamos nos últimos anos o surgimento de diversas plataformas de financiamento coletivo, onde pessoas podem colocar seu dinheiro em projetos que ainda vão ser executados, viabilizando assim sua produção. Esse modelo de negócios casou muito bem com o desenvolvimento de jogos e acabou por financiar diversos projetos ao longo do tempo que de outra forma dificilmente seriam financiados. A partir dai vimos então o ressurgimento de vários gêneros que estavam de certa forma esquecidos pela indústria e dentre eles, o que provavelmente mais se destacou foi o CRPG clássico. Primeiro com Wasteland, que conseguiu doações até do C&O da Razer e depois com Divinity, Shadowrun e o próprio Pillars of Eternity, esse nicho voltou a ocupar lugar de destaque principalmente no PC, onde seu público é mais concentrado.

Agora é a vez de Pillars of Eternity 2: Deadfire, uma sequência direta e imediata do seu antecessor, trazendo de volta as raças, deuses, classes, almas e tudo mais que fez do primeiro um clássico. Como todo CRPG, o foco em Pillars é a liberdade. Você sente isso antes mesmo de começar a jogar. Além da tradicional escolha de dificuldade, é possível editar coisas como a escalada de nível dos inimigos, podendo escolher entre nunca emparelhar o level deles com o seu, só emparelhar se você estiver acima do level da área ou sempre emparelhar. Na interface é possível redimensionar vários elementos, trocar suas posições e adaptar a forma que o texto vai ser exibida como achar melhor. Um trabalho digno de nota e que soma pontos principalmente com a comunidade do PC que preza por essas liberdades.

Ao começar uma nova aventura, você poderá importar o seu save de POE, escolher uma dentre várias opções prontas de mundo ou mesmo passar por um questionário para montar o seu conjunto de decisões previas. As escolhas feitas no primeiro jogo impactam de forma visível o mundo de Deadfire, trazendo de volta npcs que você interagiu anteriormente ou mesmo mudando a forma como companheiros da sua equipe vão agir no decorrer de POE 2. As vezes, durante os diálogos, uma opção terá o ícone do primeiro POE, o que indica que aquele momento só foi possível graças a escolhas feitas no primeiro jogo. Se você não terminou o primeiro, não precisa ficar preocupado, embora alguns detalhes fiquem de fato meio obscuros, a história ainda pode ser aproveitada e entendida perfeitamente sem precisar de ter jogado o anterior.

A aventura dessa vez se passa no arquipélago do fogo morto (Deadfire), um conjunto vasto de ilhas que poderá ser explorado utilizando sua embarcação, uma novidade do segundo jogo que dita toda a ambientação e temática ao seu redor. Todas as raças de POE também estarão nas ilhas do fogo morto, mas os Aumauas serão não só os mais presentes como também os que melhores serão trabalhados. A caracterização das diversas tribos dessa raça, bem como a construção detalhada de sua cultura e de suas divisões sociais é feito de forma primorosa e aumenta muito a imersão dentro do arquipélago.

A escrita segue o padrão de qualidade da Obsidian(Fallout New Vegas, South Park: Stick of Truth) em cada detalhe da aventura, desde os diálogos até as as partes narradas de forma a lembrar um Rpg de mesa. Dessa vez, ainda temos um detalhe que melhora a cadência narrativa, as descrições estão mais diretas e objetivas. Em POE, a descrição do cenário e dos personagens era por diversas vezes extensa de mais, exagerada, o que fazia diálogos simples serem demorados e cansativos, tornando difícil a jogatina por longos períodos. Agora temos um meio termo que parece a medida certa, muito embora vez ou outra os roteiristas se empolguem e exagerem.

A historia principal é bastante divertida, mas carece de mais extensão. A impressão que fica é que ela foi encurtada para que o jogo fosse finalizado logo. Várias progressões de side quests por vezes ficam mais divertidas e mais interessantes que o plot principal, que fica perdidão no meio de tanta coisa para fazer e explorar.

Os personagens do grupo tem histórias interessantes que vão se desenvolvendo ao longo da aventura, com algumas das side quests mais divertidas do jogo. Com o tempo você irá se apegar mais com determinados personagens e querer de alguma forma ajudá-los. A temática que cerca cada um deles é interessante e mostra como é o mundo de Deadfire e a relação das pessoas com os deuses que cultuam. Caso você não goste de uma ou outra história ou personagem, pode simplesmente trocá-los por recrutas feitos por você mesmo nas tavernas das cidades.

No gameplay foram incorporados diversos novos sistemas. O primeiro destaque vai para o de multi classe. Se antes já era possível escolher entre uma miríade de opções para definir o padrão de jogo do seu personagem, agora é possível mesclar duas dessas, gerando uma terceira classe que terá comportamento totalmente diferente durante os combates. Essa junção vai desde o clássico Battle Mage (lutador + mago) até as mais exóticas, como o Liberator( paladino + druida), dando acesso as arvores de habilidade de ambas as classes, o que embora possa parecer apenas vantagens, faz com que seu personagem só tenha acesso as magias mais fortes lá para o final do jogo. Não é preciso nem mencionar o quanto isso agrega ao fator replay.

Outro novo sistema interessante é o de relações entre os seus personagens uns com os outros e do personagem principal com o mundo. Enquanto você vai dialogando e tomando decisões, os seus companheiros e as facções do mundo envolvidas vão tomando nota, criando uma imagem e reputação do seu nome, o que influencia seus diálogos mais a frente. Se você for conhecido pela crueldade, seus inimigos temerão fazer certas ofensas, se você for alguém conhecido pela diplomacia, confiarão em você para resolver conflitos que precisam ser terminados de forma pacífica. Somado a isso, temos a sua reputação com cada facção do mundo, que vai facilitar ou dificultar seu progresso em determinadas áreas. Seus companheiros também reagem uns aos outros, o que pode tornar a convivência dentro do grupo complicada.

A batalha continua parecida com a do primeiro jogo, onde tudo acontece em tempo real, mas você pode pausar o combate para dar ordens específicas para cada personagem. A novidade fica por conta da adição de um novo sistema de IA para os seus companheiros. Agora você pode predeterminar o que deseja que cada membro do grupo faça antes das batalhas, estilo “Final Fantasy XII” e “Dragon Age Origins”, fazendo com que menos intervenções tenham de ser feitas durante o combate ou mesmo que ele possa ser todo resolvido sozinho. Cada personagem, baseado na sua classe, terá alguns padrões prontos para serem utilizados e que de fato são muito eficientes. Nos níveis mais fáceis, até recomendamos que não se use a IA padrão, pois o combate ficará rapidamente fácil e sem graça.

Com o navio é um jogo a parte. No mapa mundo você pode explorar as ilhas, comprar mercadoria de navios aliados e enfrentar piratas que querem roubar tudo que você tem. Quando esses piratas conseguem alcançar o seu navio, é dado início a uma batalha naval. Ela é toda feita por texto e é resolvida em turnos. Você deve antes de cada turno decidir a sua ação, se quer avançar e diminuir a distancia, circular o navio adversário, correr ou atirar com os seus canhões. Nessa hora a sua tripulação é importante, você tem timoneiros, atiradores, contra mestres, cirurgiões, assistentes e outros mais. Toda essa tripulação vai ganhando experiência com o tempo e melhorando suas habilidades. Em combate eles podem se ferir e tem de ser substituídos por outros. Enquanto atira, você pode focar no casco do inimigo, fazendo o barco adversário afundar, atacar as velas, que faz com que eles não possam mais se mover como desejam e até mesmo a tripulação, impossibilitando que por exemplo eles atirem por falta de membros aptos.

Sua tripulação precisa estar sempre com a moral alta, para que não aconteça o início de um motim. Para isso é necessário mantê-los bem alimentados, pagos em dia e tomar boas decisões nos eventos do mapa mundo. De tempos em tempos esses eventos aparecem para serem solucionados, sendo desde uma jogatina no porão com um dos encarregados até peixes místicos que aparecem próximo do barco, seus marinheiros podem querem comê-lo, você preservá-lo, cabe então uma decisão que mexerá com a moral da tripulação.

Existe também um sistema de tempo dentro do jogo. Enquanto você explora o mundo, vão se passando os dias que são contabilizados no canto superior esquerdo da sua interface enquanto você navega. Esse sistema serve para delimitar quando você tem que pagar a sua tripulação e quando eles vão comer e beber. Dentro da cidade, os npcs tem um ciclo de comportamento diferente para dia e noite bem como para dias chuvosos. O problema de todo esse sistema de tempo é que ele impacta pouco na aventura de modo geral e é exageradamente confuso. Poucas foram as quests que puderam ser resolvidas só em um período do dia e o avanço de tempo enquanto navega faz com que você perca um pouco da imersão, uma vez que, teoricamente, Eothas está pisoteando loucamente as ilhas enquanto você coleta algumas coisas para um NPC e nada parece de fato mudar.

Os gráficos são o padrão da antiga Infinity Engine simulados dentro da Unity, que além do POE está presente em jogos como Tyranny e Torment: Tides of Numenera. Ela gera um efeito bem único ao pegar modelos em 3D e transformá-los em um grande plano 2D. Isso tem impactos positivos bem óbvios na performance mas gera alguns cenários estáticos, que são corrigidos pela adição de alguns modelos animados em 3D. Tudo isso funciona super bem com a câmera isométrica do jogo e em POE 2 está ainda mais bonito, com uma ambientação digna de nota. O problema dessa engine é a dificuldade de trabalhar com a memória, o que gera problemas de carregamentos demorados. Sempre que você entrar em uma casa ou em uma nova área, terá um tempo chato de loading. Em cidades maiores, como Neketaka, você por alguns momentos tem a impressão de ver mais a tela de loading do que de fato jogar.

A customização é um ponto forte de POE 2, você poderá modificar não só seus personagens, com tanta complexidade e profundidade quanto no seu antecessor, como também o seu barco. Você irá comprar novas embarcações, trocar suas bandeiras, canhões, velas, âncoras e o que mais você imaginar. Quanto aos personagens, você poderá ter vários sets de armas e armaduras com efeitos especiais e usar melhorias para deixá-las ainda mais fortes. Há todo um arsenal desses itens para ser utilizado também em batalhas, desde poções e venenos até granadas e papiros com feitiços poderosos.

A trilha sonora é um show a parte. Toda ela orquestrada e belíssima. Nos momentos de ápice do jogo ela incrementa os acontecimentos narrados e dá todo um clima especial. Durante a navegação, é possível ouvir a cantoria da sua tripulação enquanto cuidam do barco.Os diálogos todos tem trabalho de voz, o que deve ser um padrão para os CRPGs maiores depois de Divinity Original Sin 2 e ainda bem, pois aumentam e muito a imersão.

Dessa vez o jogo conta com localização completa em PT-BR, o que ainda não tinha acontecido nos outros CRPGs mais famosos. Isso é obviamente um ponto muito positivo, até pela complexidade e quantidade de texto presentes no jogo, mas faltou um pouco de cuidado. Nas descrições dos personagens, os textos ficaram maiores que a interface, o que faz com que algumas vezes a fonte saia do local delimitado para ela e até mesmo atravesse outras palavras, dificultando a leitura. Algumas traduções claramente não passaram por revisão, “Craft”, por exemplo, foi traduzido para Oficio, enquanto que “Off-Hand”, que deveria ser sua mão fraca, foi traduzida para desligado(!!).