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Análise | Remake de Demon’s Souls é a porta de entrada perfeita para o gênero

O remake de Demon’s Souls pelas mãos da Bluepoint carregou uma pressão enorme. Primeiramente pela própria comunidade. Quem já se deparou com a trupe “Git Gud” da web sabe do que estou falando. Era necessário agradar uma das bases de fãs mais exigentes do mercado. Segundo, que esse é praticamente o único título realmente next-gen do mercado, exclusivo para PS5. Portanto, precisava mostrar a que veio.

Com tudo isso em mente, fui sem saber o que esperar, com medo de uma decepção logo na entrada da nova geração. Minha caminhada com os chamados “Souls Like” só começou no primeiro Dark Souls. Nunca tinha jogado a obra original e revolucionária do Miyasaki no PS3, então foi uma experiência inédita desde o primeiro momento. E que experiência!

Gráficos e performance de nova geração

Assim que abri o jogo e começou a clássica introdução, agora refeita com gráficos modernos, percebi que estava diante de um trabalho refinado e digno do estúdio que criou um dos melhores remakes da geração passada: Shadow of the Colossus.

Graças à liberdade para focar apenas no hardware do PS5, a Bluepoint conseguiu um nível de qualidade que não existe na geração anterior. Os gráficos realmente impressionam. Tanto o ambiente quanto os personagens – sim, esse é um Souls com personagens bonitos – foram feitos com muito cuidado, mesmo nos mínimos detalhes. Apesar de não utilizar a tecnologia do momento, o Ray Tracing, Demon’s Souls conta uma iluminação de cair o queixo. Os espaços fechados pelas masmorras de Boletaria e até ambientes mais deslumbrantes, como a visão perturbadora das Torres de Latria, são todos de encher os olhos. Uma ambientação que poucos jogos modernos conseguiram atingir.

Para completar o deleite visual, as animações estão impecáveis. Dos movimentos da gordura corpórea de um dos chefes, até a animação de finalização do protagonista, é um show que mostra que mesmo no primeiro dia de uma nova geração é possível fazer algo que chama a atenção em um jogo que é mais do que uma demonstração de motor gráfico, como vimos muito na última geração.

Só que há mais na nova geração. Mais do que gráficos, a promessa é de muita performance e nesse ponto Demon’s Souls dá uma verdadeira aula, que esperamos ficar de lição para qualquer título futuro. Com dois modos, um de performance e outro voltado para a resolução, em ambos os quadros por segundo são extremamente estáveis, dando uma sensação de fluidez que a própria From Software nunca conseguiu, nem mesmo com seus lançamentos no PC. Isso ocorre especialmente no modo performance, onde o jogo roda com 60 quadros por segundo cravados o tempo todo, fazendo a experiência ficar ímpar, principalmente para quem jogou apenas em consoles nas últimas gerações.

Outro ponto que impressiona é o uso do SSD, que acaba com uma das partes mais frustrantes dos Souls, que é a espera pelo loading após a morte. Em questão de dois ou três segundos a ação já está de volta na telinha. Isso vale também para viajar entre mundos usando as Arquipedras. Tudo é muito rápido, dinâmico e prazeroso.

Como o cuidado com a parte técnica foi primoroso em todas as frentes, não dá para deixar o áudio de fora também. Usando a Tempest Engine do PS5, o jogo foi todo pensado para reproduzir som espacial de qualidade, com emissão vinda de objetos em todos os pontos do cenário. Para quem usa fones de qualidade, com um bom palco sonoro, a experiência fica ainda mais imersiva, desde parar e escutar gotas caindo ou chamas exaladas por um dragão que passa voando por cima do personagem.

A única decepção aqui é o uso do DualSense. Tanto a parte de vibração quanto os gatilhos poderia ter sido mais polida. O uso do arco e flecha é o maior destaque, já que o gatilho tem diferentes pontos de pressão enquanto o personagem puxa a corda, mas no fim acaba sendo mais um obstáculo que um ponto extra de imersão. Bom, nem tudo é perfeito.

A origem da revolução

Dark Souls é um marco cultural, praticamente virou seu próprio gênero e é, talvez, o jogo mais influente das duas últimas gerações dentro da indústria de games. Essa revolução, no entanto, começou no Demon’s Souls, que chegou de surpresa e fez a cabeça de um número razoável de jogadores naquela época.

Enquanto se joga o remake, é impossível não se pegar pensando na reação da crítica e jogadores quando esse clássico foi lançado. São muitas coisas que para a época devem ter sido chocantes no que diz respeito a design, principalmente na forma como lida com combate. Nada é extremamente novo quando se pega um ingrediente sozinho para analisar, mas a forma como eles são misturados gera algo muito autoral, como já sabemos após vários jogos em sequência na mesma pegada.

A quantidade de armas disponíveis que modificam totalmente o estilo de jogo, a forma como alguns níveis se conectam, o jeito misterioso de contar a história utilizando mais o visual do que o textual. É o embrião de algo grandioso, que a Bluepoint conseguiu trazer com muitos méritos, mantendo inclusive os pontos baixos da aventura. Fica claro como a inteligência artificial dos chefes do Miyazaki tiveram que evoluir para trazer o desafio que ele esperava. Em Demon’s Souls, com um pouco de cuidado na sua build, o jogo fica incrivelmente fácil antes mesmo da metade da aventura. Quem fizer mago de forma correta, por exemplo, vai acabar com a maioria dos chefes finais em questão de segundos. Até por conta disso, é uma porta de entrada ideal para quem vai tentar iniciar nos Souls e tem medo de morrer demais. Dá para pegar a ideia das mecânicas e construção de builds sem a decepção tomar conta ao se deparar com a parte desafiadora

O multiplayer de sempre, com invasões de outros jogadores e a cooperação disponível para enfrentar chefes, também está presente e bem refinada com a melhor qualidade de rede que existe hoje em dia. Para os mais fominhas, dá para tentar ranquear nas listas globais. O fator replay característico da série também está presente e cada “new game +” é uma nova aventura repleta de possibilidades. No ponto central do que fez esse jogo revolucionário, a Bluepoint acertou e respeitou a obra, entretanto…

Algumas coisas, claro, foram modificadas. A nível de gameplay, a principal diferença que deve chamar a atenção dos veteranos é a rolagem em oito direções, ao invés da original travada em apenas quatro direções. Por mais purista que você possa ser, não dá para criticar essa mudança que fez muito bem para o gameplay, trazendo feedbacks mais responsivos para o controle do personagem, mesmo que tenha facilitado um pouco o jogo. Outras, no entanto, são passivas de crítica.

Como eu não joguei o Demon’s Souls original, não fui tão impactado por elas, mas a mudança estética na paleta de cores e a alteração de alguns personagens vai desagradar vários jogadores das antigas e a reclamação de até desfigurar o intuito original da obra é valido aqui. Para quem se incomodar demais, dá para utilizar alguns filtros do jogo para deixar mais próximo do Demon’s Souls do PS3.

Acho que as impressões sobre ser um bom remake, no ponto de vista de respeito a obra, vão ser divididas na comunidade. A pior parte, a meu ver, é o que nem tem a ver com a Bluepoint, mas sim com a própria Sony. Ter armas exclusivas da versão deluxe, com início cheios de almas para quem pagar a mais pela edição Deluxe, vai totalmente na contra-mão do que o Miyazaki sempre defendeu, que era uma experiência igual de superação de desafios para todos. Esse é, inclusive, o motivo por traz dele nunca ter colocado um modo fácil nos seus jogos. Há um anel raro, por exemplo, que nem é tão bom mas conta para o troféu mais difícil da platina, que também está disponível de cara na versão Deluxe. É algo condenável e que os jogadores tem todo o direito de reclamar.

Para fechar com algo positivo, já que o jogo é fenomenal e essencial neste início lento de nova geração, há um modo foto que vai fazer você gastar horas tirando imagens das diversas áreas do jogo. Com opções de diversos filtros, poses, troca de armaduras e muito mais, é certamente um ponto positivo e bem vindo na lista de adições que não estavam presentes no jogo original.

Conclusão

Demon’s Souls foi uma revolução no seu tempo e a Bluepoint tinha a difícil tarefa de trazê-lo como introdução da nova geração no PlayStation. O resultado é deslumbrante e do ponto vista técnico, impecável. Fluido, com uso exemplar do hardware e belíssimo. Uma aquisição quase obrigatória para quem optar por um PS5 agora. Dito isso, há diferenças em relação ao original que podem ser debatidas, mas nada que tire o brilho e qualidade atingidos aqui. Se você vai começar no gênero, é uma porta de entrada perfeita. Se você é um veterano, vai se encantar novamente com a semente da revolução que Miyazaki plantou há mais de uma década.

Prós

  • Gráficos de nova geração, verdadeiramente deslumbrantes
  • Uso impecável do SSD, acabando com o problema dos loadings demorados
  • Performance invejável, 60 fps cravados o tempo todo
  • Animações de encher os olhos
  • Áudio que usa a Tempest Engine de forma imersiva para quem tem fones de ouvido
  • Jogabilidade refinada com sistema de build clássico da franquia

Contras

  • DualSense poderia ter sido melhor utilizado
  • Conteúdo extra e exclusivo para quem comprar a versão Deluxe
  • Algumas mudanças estéticas, principalmente em inimigos, pode desagradar

Nota: 9.0

Uma cópia do jogo foi fornecida pela Sony para elaboração desta análise

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