ROUTINE — quando o horror espacial encontra orçamento de garagem (mas com muita vontade de assustar)!
Vocês lembram daquele jeitão old school de filme sci-fi barato, sabe? Luz fluorescente tremendo, áudio de televisão aberta, metal rangendo, corredores apertados que te fazem pensar “quem projetou esse lugar tava chapado”? Pois bem — esse é o vibe de ROUTINE, da misteriosa (e provavelmente de baixo orçamento) Lunar Software.
Eu coloquei a roupa espacial — de forma meio simbólica, mais mental do que real — respirei o ar rarefeito da base lunar (na fantasia mesmo), e fui encarar esse maluco que mistura Alien com SCP de ferro velho. Descobri que o horror ali não é desespero de gráfico AAA: é horror de gambiarra com amor. E funciona — até quando não quebra feio.
🧱 Estética de garagem, terror do subsolo
ROUTINE não tenta te enganar com gráficos de última geração. Ele joga na cara: “meu orçamento foi baixo, meu design tem trauma, e o que não cabe em luz vem em som.” E o som, meu amigo… esse sim te dói. Portas rangendo, cabos caindo, passos ecoando no metal, luz fluorescente piscando igual coração de tubarão prestes a atacar. Cada cantinho da estação lunar parece gritar: “corre, mané, que aqui não é lugar pra herói”.
A estética suja — metal enferrujado, rachaduras, telas CRT, fios expostos — dá a sensação de estar jogando um filme de terror dos anos 80, gravado em VHS, com filtro de sujeira e chiado no áudio. Essa vibe “futuro pós-falha” me lembrou os melhores (ou piores?) momentos de Event Horizon e os corredores claustrofóbicos de Alien: Isolation. A diferença? Aqui a IA de monstros às vezes parece preguiçosa demais pra assustar de verdade, mas a atmosfera… ah, a atmosfera — essa sim bate pesado.
Se o jogo fosse um carro, seria aquele Fusca velho que você acha num ferro-velho: enferrujado, rangendo, mas com alma de sobrevivente. E por incrível que pareça: a alma às vezes sustenta — até uma peça soltar.
🎮 Jogar ROUTINE é ser um técnico espacial com medo de ferrugem letal
Aqui não tem laser, nem armas top de linha, nem poderes de sci-fi. A ferramenta principal é a CAT — Cosmonaut Assistance Tool. É tipo teu canivete suíço espacial: abre portas, ativa terminais, mexe nos fusíveis, liga geradores, desbloqueia áreas.
Mas… ela NÃO te protege. Se um robô assassino decidir que hoje é seu dia de sorte — bom, a CAT só vai mostrar quantos fios você errou. A diversão real é científica: puzzle + stealth + barulho de metal no escuro.
Em muitos momentos, o jogo te obriga a parar, escutar, planejar. É como se dissessem: “esquece ação, esquece bala — você vai sobreviver com raciocínio e respiração pesada.” Isso dá uns momentos de tensão dignos: você suando enquanto ouve o rangido de uma porta que não deveria estar abrindo sozinha, vendo luz piscando, esperando o pior…
Esses momentos lembram jogos como SOMA, em que a ameaça é mais existencial e absurda do que monstruosa. A diferença é que em SOMA a ficção tinha orçamento razoável; em ROUTINE, cada sala parece construída com restos de sucata espacial.
E sabe uma coisa estranha? Isso até ajuda. No sentido “eu tô vulnerável, eu tô sozinho, eu tô fudido” — e esse medo barato, massificado em luz trêmula e som metálico, às vezes é mais eficiente do que qualquer gráfico de última geração.
⚠️ Mas quando a gambi se rompe — bugs, IA preguiçosa e ritmo de maratona mental
Acontece que nem sempre o charme barato segura a queda. A IA dos inimigos às vezes parece estar no modo “escoteiro dormindo de guarda”: lenta, previsível, mais atrapalhada do que assustadora. Há momentos em que dá vontade de mandar um recado: “acorda, maluco, olha pra mim!”.
Além disso, a jogabilidade, por apostar em investigação e stealth, arrasta o ritmo. Você se pega andando longos corredores, apertando terminais, voltando, pesquisando, numa dança de “vá-e-volta” que, em vez de aumentar o medo, dá sono. O suspense desmancha nas sessões de “vá apertar botão, espera resposta, desliga luz, espera barulho, corre pro escuro, acende luz, repete”. Depois de umas 2 horas, meu cérebro já pedia pizza, ou pelo menos um atalho pra sair da estação.
E, por fim, a promessa dos 13 anos de espera: ela pesa. Quando o hype é alto, esperar anos para finalmente jogar um título faz a expectativa virar mar de trevas. E se a base não for sólida — se a IA falhar, se o ritmo dropar — o jogo cai de paraquedas diretamente no limbo da decepção.
ROUTINE tenta equilibrar tensão, horror e puzzle. Quando acerta, você sente frio na espinha. Quando erra, você sente cansaço nos dedos.
🔪 Comparações de boteco: ROUTINE, Alien, SOMA e o horror do ferro-velho espacial
Se ROUTINE fosse personagem de filme, ele seria aquele coitado que tenta sobreviver numa estação espacial velhíssima, com filtro de VHS e zero chances de upgrade. Um misto de Ash (do Alien) com trabalhador de manutenção de estação abandonada — sujo, tenso, desacreditado, mas tentando consertar o que quebraram.
Enquanto Alien: Isolation te dá adversário implacável, SOMA te dá dúvida existencial, ROUTINE te dá… metal, silêncio e um desespero barato. Você não corre — você tenta sobreviver. Você não luta — você espera.
E a CAT? É tua lanterna, teu martelo, tua oração silenciosa. Só que é de plástico. E com fio desencapado.
🧠 Minha experiência — medo barato, risada nervosa e vontade de largar o controle
Teve momentos em que eu realmente me senti preso na estação: luz piscando, som metálico, corredor escuro, respiração pesada — e a sensação de que qualquer porta errada podia te engolir. Coração acelerado, suor frio, aquela vontade de olhar por cima do ombro.
Mas também teve momentos em que o jogo me fez questionar por que eu estava ali: andando, apertando botões, esperando nada acontecer. Quando a IA dormia, quando os puzzles viravam repetição de teclado, quando o ritmo tornava o horror num trabalho de escritório chato.
Achei que ia sair assustado. Saí… exausto. Com vontade de tomar banho, desligar o PC, ligar Netflix e ver algo com cor e sol.
Mas se eu ligar ROUTINE outra vez? Talvez. Quando estiver com coragem. Quando quiser sentir que tecnologia, barulho e abandono podem ser mais aterrorizantes do que alienígenas grandões com dentes afiados.
Porque o medo real nem sempre é grito ou dril — às vezes é eco no metal, luz falhando e silêncio mortal.
Prós:
- Atmosfera suja, claustrofóbica e retro-futurista
- Uso criativo da escassez (ferrugem, metal velho, luz fraca)
- Mecânica da CAT promove tensão
- Momentos de horror psicológico real
- Baixa expectativa gráfica = estilo coerente de “barato e assustador”
Contras:
- IA inconsistente ou bisonha
- Ritmo lento, repetitivo, caminhadas intermináveis
- Horror barato vira tédio
- Dependência de paciência e disposição
- Após hype de 13 anos, o resultado é mediano
Nota Final: 7/10
ROUTINE é aquele terror espacial honesto — sujo, apertado e desconfortável — que acerta em cheio na atmosfera, mas tropeça nos próprios cabos soltos quando tenta manter o ritmo. Ele te assusta com o básico (luz tremendo, metal rangendo, silêncio irritante), mas falha quando depende de IA preguiçosa, puzzles repetidos e corredores que parecem castigo escolar. Não é o novo Alien: Isolation, não reinventa o horror sci-fi, nem chega perto de justificar o hype de mais de uma década, mas tem alma, estilo e alguns momentos realmente tensos que valem a viagem à Lua. No fim, ROUTINE é recomendável para quem curte terror psicológico retrô e está disposto a aceitar que, às vezes, o medo vem junto com uma boa dose de frustração — e muita ferrugem espacial.