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Escrever essa análise foi um desafio enorme, já nos primeiros parágrafos. Isso porque este é um jogo sobre morrer e a morte, esse acontecimento inevitável para qualquer um de nós, que foi uma companheira indesejada deste que vos escreve nos últimos dois anos. Não a morte do próprio corpo, que todos vamos eventualmente enfrentar, mas a daqueles que estão ao nosso redor e que, junto com os nossos próprios feitos, formam o que deixaremos de importante neste mundo: um legado.

Spiritfarer foi desenvolvido pela Thunder Lotus, que ficou conhecida pelo belíssimo Jotun, e coloca o jogador na pele da carismática Stella. Seu papel no jogo é substituir nada mais nada menos que o Caronte, aquele mesmo das lendas, o barqueiro de Hades que leva os espíritos dos mortos para o outro mundo.  Em um mar celestial, na companhia do seu gatinho chamado Daffodil, seu objetivo será encontrar espíritos espalhados pelo mundo e ajudá-los na travessia para o além.

Um barco para todos

Para ser um “barqueiro do além” que se prese, a pequena Estella precisa do seu próprio barco. Nada de canoas melancólicas e com espaço para apenas um passageiro, mas um barco belo e cheio de espaço. É nesta embarcação, vendida por um tubarão que conta piadas de “tiozão”, que ela vai abrigar os espíritos e construir diversas melhorias que ajudam a satisfazer as suas vontades.

Sua movimentação é feita através de um mapa na cabine. No início ele é repleto de névoa e vai se completando a medida que você explora. Escolha um ponto e pronto, com a mágica de luz que você recebeu do próprio Caronte, o barco vai te conduzir até o destino.

Durante a viagem o tempo continua passando, com um sistema bem legal de dia e noite. A Stella, durante esse tempo, não precisa ficar parada, já que há muito o que fazer. Com o tempo você irá construir hortas e jardins que precisam ser cuidados, cozinha para fazer refeições com esses ingredientes e muito mais. É possível até mesmo pescar na popa do barco enquanto o tempo passa.

Ao fundo, a paisagem vai sempre se modificando, exibindo a qualidade artística da Thunder Lotus a cada novo cenário ou mudança de clima. Aliás, todas as animações 2D utilizadas aqui foram feitas à mão, de maneira clássica e são para lá de fluidas e divertidas.

O jogo recompensa e incentiva a exploração. Não há uma ordem definida de onde você precisa ir, mas algumas barreiras, que você vai superar ao aprender habilidades ou melhorar o seu barco, impedem que sua embarcação avance para certas áreas.

Cada novo local que você visita é uma surpresa. É possível encontrar vendedores com mais suprimentos e materiais, cortar árvores, colher frutos, minerar e interagir com uma porção de espíritos que vivem ali. Entre uma cidade e outra, você poderá encontrar os espíritos que tanto procura. Em troca de algum favor, eles se juntarão à sua tripulação. Assim que chegarem no seu barco, se transformarão em um animal, que longe de serem irracionais, vão te ensinar lições inesquecíveis e emocionantes.

Para quem quiser explorar tudo isso na companhia de um amigo, é possível aproveitar o modo cooperativo local. O companheiro vai jogar com o gato Daffodil, que possui os mesmos poderes da Stella. A câmera se comporta bem, já que o cenário é sempre em duas dimensões, mas pode atrapalhar um pouco se um dos jogadores correr demais na direção oposta do outro. Gerenciar o barco e executar as tarefas diárias fica mais fácil junto de um amigo.

Após a primeira metade do jogo, a quantidade de construções para serem feitas no seu barco não são mais tão grandes e nem tão interessantes. Como é preciso obter algumas coisas bem específicas para conseguir prosseguir para os próximos mapas, o ritmo fica mais lento e pode incomodar quem não tem tanto tempo a perder. Para quem perseverar, o último terço do jogo compensa esses problemas, ganha um fôlego interessante e tem um final marcante.

O valor de um abraço

Cada espírito que vai passar um tempo no seu barco tem suas próprias exigências. Eles querem uma casa ou quarto só deles, com mobilhas específicas. Gostam de um tipo de comida e odeiam outras. Pedem favores, te contam histórias e também te recompensam. Quanto mais feliz a Stella deixa os seus novos amigos, mais habilidades deles vai liberando, como minerar, interagir com eventos únicos do mundo ou até mesmo utilizar o maquinário que você constrói no seu barco para criar novos materiais.

Com o passar do tempo, você vai entendendo a história de cada um deles, que são alegorias para pessoas próximas da Stella e o seu próprio passado. Cada missão concluída, cada descoberta, vai te deixando cada vez mais próximo desses companheiros, que você começa a tratar como amigos e realmente se importar com o bem estar deles.

Sem medo de abordar temas polêmicos, mas raramente fazendo de forma expositiva e clichê, o jogo vai te emocionar ao tratar da velhice, perda de amigos e parentes, sua própria mudança no decorrer da vida. Ao completar os desejos desses companheiros, eles finalmente estarão prontos para ir para o além e você terá cumprido a sua tarefa.

Na hora dessa despedida, Stella sempre abraça o companheiro que está prestes a partir, um ato que é uma mecânica do jogo e que tem um impacto emocional muito forte. Dia sim, dia não, você pode abraçar os espíritos que te acompanham, o que aumenta a felicidade deles. A cada frase de agradecimento por esse simples gesto, você que perdeu alguém vai sentir aquele vazio da saudade, da vontade de abraçar quem a gente não pode mais tocar.

Eu perdi recentemente o meu irmão de forma inesperada e o meu maior arrependimento foi não ter conseguido me despedir, dar o último abraço. Um dos espíritos do barco me fez relembrar das memórias boas e da falta que ele me faz. Na boca do portal para o além, eu não queria que esse personagem se fosse, mas era inevitável. O destino de quem vive é, infelizmente, morrer. Poder dar o último abraço e me despedir, conversar uma última vez durante aquele curto caminho sobre o que ele me ensinou e queria que eu levasse para a continuidade da aventura, foi quase terapêutico e me marcou de forma que nenhum outro jogo jamais fez.

Chega a ser irônico que em uma mídia onde a morte é parte da maioria das obras, onde a gente manda para o além centenas de inimigos e chefões do mal, nenhum nunca tivesse me feito pensar tanto sobre esse tema tão presente no nosso cotidiano. Foi justamente um jogo sem combate, com foco em exploração e gerenciamento, que trouxe a reflexão que eu precisava.

Após mais de quarenta horas de jogo, o mundo todo explorado e todos os espíritos possíveis mandados para o além, finalmente finalizei a história da Stella, que se misturou de certa forma com a minha. Lembro de discursar na missa de sétimo dia do meu irmão sobre legado, sobre como continuamos vivos naqueles que cruzaram os nossos caminhos. Ao ver a dedicatória dos créditos para os entes queridos que os desenvolvedores perderam, me dei conta que a obra deles, feita da memória desses parentes e amigos, agora também faz parte de mim e do legado que vou deixar, como esse próprio texto.

Se você perdeu alguém querido, esse jogo é para você. Uma linda ode ao que construímos com nossos próximos em vida, um lembrete de que o tempo é insaciável e chega para todos. Uma obra emocionante e divertida, se é que é possível, sobre a inevitabilidade de morrer e o que nos faz vivos.

Conclusão

Spiritfarer é um jogo sobre morrer e que mescla muito bem suas metáforas com uma prazerosa jogabilidade de gerenciamento. Navegar e explorar o mundo é divertido e recompensador. Satisfazer a vontade dos espíritos e ajudar na sua passagem para o além é emocionante e marcante. Alguns probleminhas de ritmo deixam o jogo um pouco cansativo, mas a experiência, como um todo, é das mais relevantes no ano.

Prós

  • Arte 2D bela e muito bem animada
  • História cativante e emocionante
  • Personagens bem desenvolvidos
  • Exploração recompensadora

Contras

  • O gameplay fica repetitivo após a primeira metade do jogo
  • O ritmo às vezes deixa a desejar

Nota: 8,5

Uma cópia do jogo nos foi fornecida pela Thunder Lotus Games para elaboração desta análise