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Uma das franquias mais memoráveis da Sega, Streets of Rage fez muito sucesso no Mega Drive nos anos 90, com o primeiro título saindo em 1991 e as sequências chegando respectivamente em 93 e 94. Devido não apenas à sua jogabilidade, que ficou melhor a cada nova iteração, mas também aos personagens, gráficos, história e a maravilhosa trilha sonora de Yuzo Koshiro, a trilogia nunca foi esquecida, se tornando inclusive atemporal, sendo prazerosa de ser jogada mesmo nos dias de hoje.

Os jogadores, especialmente aqueles que cresceram jogando Streets of Rage, se perguntavam por diversas vezes: Por qual motivo a Sega não lançava outro game? Dizem que ela até tentou retornar com a franquia no Saturn e Dreamcast, mas os projetos acabaram não indo para frente.

Hoje, 26 anos depois do lançamento do terceiro game, a gigante japonesa, em parceria com a publisher Dotemu e a desenvolvedora Lizardcube, que já haviam trabalhado no remake de Wonder Boy III: The Dragon’s Trap, outro jogo da Sega, sugeriram para ela a ideia de uma sequência para sua famosa série de briga de rua, que acabou recebendo sinal verde. Com a ajuda de outra produtora, Guard Crush Games, nasceu então Streets of Rage 4, e digo para você sem qualquer receio, que o trabalho realizado aqui foi excepcional.

Velhos amigos reunidos para salvar a cidade

Streets of Rage 4 ocorre dez anos após os eventos do antecessor e traz de volta os personagens clássicos Axel Stone, Blaze Fielding e (finalmente!) Adam Hunter, este último fazendo sua primeira aparição jogável desde o jogo original. Junto com eles estão dois novos companheiros: Cherry Hunter, filha de Adam, e Floyd Iraia, um pupilo de Dr. Zan, o mesmo cientista ciborgue de Streets of Rage 3.

Desta vez o inimigo não é o temível Mr. X, antagonista dos jogos anteriores, mas sim seus filhos, conhecidos como os gêmeos Y, que criaram uma nova organização criminosa chamada Sindicato Y, para ganhar poder ao mesmo tempo que corrompem a cidade.

Assim como nos outros jogos da série, em Streets of Rage 4 você precisa percorrer várias fases enquanto derrota os adversários na porrada. No final de cada uma delas, existe um chefe que você tem de vencer para conclui-la. À medida que você progride na história, ela vai se desenrolando por meio de cenas, similar ao que ocorria no jogo anterior, só que de maneira bem mais detalhada, com artes desenhadas à mão e diálogos de texto totalmente em português.

As fases são muito variadas, não se prendendo a apenas um tipo de cenário. Uma hora você está trocando socos numa rua e de repente se vê dentro do metrô, isso na mesma fase, só para citar um exemplo. Nota-se o empenho dos desenvolvedores nelas, que não pouparam esforços para fazer o jogador se sentir jogando uma verdadeira sequência de Streets of Rage. Em momento algum você fica com aquela sensação de estar diante de algo genérico ou feito nas coxas. Muito pelo contrário. Os responsáveis claramente colocaram suas almas e corações nesse projeto.

Vale ressaltar que as fases também agradam bastante nos visuais, que são incríveis, trazendo Streets of Rage para os dias atuais e fazendo isso sem tirar a identidade da franquia. Os gráficos pixelados de outrora dão lugar a belíssimas artes desenhadas à mão. Além disso, é possível notar certos efeitos adicionais, como reflexos dos personagens e objetos nas poças de água e em certas superfícies, pontos de iluminação alterando a intensidade das cores e sombras nos cenários e personagens, tudo feito de maneira primorosa, graças a uma direção de arte de se tirar o chapéu. As animações também são muito caprichadas, todas apresentadas com bastante fluidez.

Te pego lá fora na rua!

Sim, Streets of Rage 4 é lindo, mas seu ponto mais forte é a jogabilidade. Ela tem tantas coisas novas e melhores em relação aos jogos anteriores que fica difícil não considerá-la a mais completa da série inteira, havendo até mesmo tutoriais no começo da jogatina para te ensinar, tim-tim por tim-tim, como tirar melhor proveito dela.

Cada personagem tem seus pontos fortes e fracos. Axel e Blaze são balanceados, Cherry é muito rápida (é a única que corre), e Floyd, embora lento, bate com muita força. Adam, que você libera apenas depois que avança um pouco no jogo, também possui boa simetria entre força e velocidade, e ainda tem a vantagem de conseguir dar pequenas arrancadas graças ao seu estilo de luta. Caso tenha começado a jogar e queira experimentar outro personagem, uma boa notícia: o game te deixa trocá-lo assim que completar a fase, não sendo necessário começar tudo de novo para fazer isso.

Os inimigos agora rebatem nas paredes (as laterais da tela) depois que são arremessados, permitindo a você poder continuar batendo neles no ar, aumentando a quantidade de dano infringido e número de acertos no seu combo. O golpe forte tradicional, chamado de “ataque blitz”, acionado apertando para frente duas vezes e soco está de volta, assim como os especiais, executados com o botão próprio para isso.

O ataque blitz continua exatamente da maneira como existia no segundo jogo da série, mas os especiais, estes mudaram bastante. Ao invés de duas variações (defensiva e ofensiva), agora existe uma terceira (aérea), que você executa no ar depois de pular. Sempre que esse tipo de golpe é usado, parte de sua barra de vida é drenada e fica verde, sendo restaurada depois que você bate em alguns adversários. Contudo, se receber uma pancada antes disso, aquele pedaço que ficou verde some, lhe causando ainda mais danos. É necessário utilizar bem esses especiais, caso contrário eles podem mais te atrapalhar do que ajudar.

Outro aspecto chamativo da jogabilidade é o “golpe estrela”, que você executa obtendo itens em forma de estrela que estão espalhados pelas fases. São ataques poderosíssimos, que servem para te tirar de alguma enrascada ou situação de aperto, excelentes para quando você está cercado por muitos inimigos ou até mesmo colocar o ponto final no combate com um dos chefes. A essência desse ataque lembra um pouco, inclusive, o especial do primeiro game, no qual aparece a polícia, que ataca os inimigos com um lança-foguetes ou uma metralhadora giratória.

Há mais coisas legais no gameplay. As armas, que não são poucas, tem sua maneira de uso alterada de acordo com qual personagem estiver com ela, aspecto este visto no antecessor e que foi mantido aqui. Blaze, por exemplo, faz melhor uso de facas, enquanto que Axel tira melhor proveito de bastões. Uma das novidades com as armas é que elas começam a piscar na cor vermelha quando estão a ponto de quebrar assim que você bate em um inimigo com elas, te indicando que é hora de trocar de arma ou se desfazer dela. A outra, mais interessante, é que quando você arremessa uma arma no oponente, ela rebate de volta ao atingi-lo, e se você acertar o timing na hora de apertar o botão, consegue recuperá-la no ar, o que auxilia na hora de realizar combos.

Ah, é importantíssimo dizer que em Streets of Rage 4, ao invés de você utilizar o botão de ataque para arremessar ou pegar itens como ocorria nos jogos anteriores, aqui existe um específico para isso. Por um lado, é uma mudança muito bem-vinda, mas por diversas vezes eu me vi arremessando uma arma que tinha em punho na hora que ia pegar um item que via no chão, como, por exemplo, comida para recuperar a vida ou dinheiro para ganhar pontos.

Bons de briga

Streets of Rage 4 fornece um desafio muito maior do que os antecessores, não apenas por ser mais longo, mas também pela quantidade e variedade de inimigos. Mesmo jogando no nível “normal”, você vai suar as mãos quando estiver nos estágios mais avançados, com o surgimento de oponentes cada vez mais astutos e com golpes que podem fazer você beijar a lona.

É preciso ter cuidado especialmente com os chefes. O primeiro foi até fácil, mas no segundo, a situação já mudou completamente de figura. É necessário estudar todos os ataques para não ser surpreendido, observar sinais como o inimigo piscando em vermelho ou branco para saber o tipo de golpe que ele utilizará. Você verá o retorno de velhos conhecidos nessas lutas, assim como a presença de combatentes inéditos, dispostos a acabarem com a sua raça em nome do Sindicato Y.

Quando você perde todas as vidas e aparece o “Game Over”, o jogo lhe oferece ajuda em forma de vidas e estrelas extras em troca de uma pontuação reduzida, sendo de grande auxílio para quem estiver tendo dificuldade em passar de uma determinada fase. No entanto, se você terminar o jogo e quiser um desafio maior, além de poder tentar terminá-lo de novo nas dificuldades mais elevadas, é liberado um modo Arcade, que te oferece uma experiência igual à dos jogos de Mega Drive, ou seja, se ficar sem vidas, já era.

Caindo na porrada com estilo

Um dos maiores desafios dos responsáveis por Streets of Rage 4 era criar uma trilha sonora que fosse tão boa quanto a presente na trilogia dos anos 90. Afinal de contas, bater de frente com o mestre Yuzo Koshiro, criador de algumas das melhores músicas da geração 16-bits, não é uma tarefa fácil.

A maioria das faixas foi composta e produzida por Olivier Derivière, que trabalhou em outros jogos, como Vampyr, A Plague Tale: Innocence e Remember Me. O trabalho, não apenas dele, mas também de outros compositores que deram sua contribuição ao game, ficou muito bom, com as músicas ajudando a ditar o ritmo das lutas. Ouvidos mais aguçados perceberão que algumas delas, inclusive, parecem versões remixadas daquelas de outrora.

A cereja no bolo é que até mesmo Yuzo Koshiro fez algumas músicas, sendo possível jogar, de imediato, ouvindo a trilha sonora dos jogos originais feita por ele, ao invés da nova, se você assim preferir. Particularmente, no entanto, recomendo que você ouça as músicas novas na primeira vez que for zerar o game. Acredite, não irá se arrepender. A única coisa que me incomodou na trilha nova é a música que toca ao terminar a fase que poderia ser um pouco mais animada.

A pancadaria não acaba quando ela termina

Embora o modo história de Streets of Rage 4 seja curto, onde jogadores mais habilidosos certamente conseguirão terminá-lo em no máximo duas ou três horas se jogarem na dificuldade padrão, ainda há muito a ser aproveitado depois disso.

Além do modo Arcade, já citado anteriormente nesta análise, há também um modo Seleção de Fases, que te permite escolher jogar um determinado estágio, voltado para aqueles que quiserem aumentar seu ranking nela ou caçar um determinado troféu; um modo Desafio dos Chefões, onde você enfrenta, sem vidas extras, todos os chefes do jogo, um atrás do outro, sendo uma tarefa difícil de ser completada até mesmo pelos jogadores mais hardcore; e também o modo Batalha, que está de volta e coloca os jogadores para lutarem entre si no melhor estilo briga de rua.

Também há o multiplayer, como não poderia deixar de ser. Zerar Streets of Rage 4 sozinho é ótimo, mas fazê-lo com outras pessoas, de preferência amigos, é ainda melhor. O modo local funciona maravilhosamente bem, como era de se imaginar, havendo suporte para até quatro jogadores simultâneos, o dobro dos jogos originais.

Um aspecto interessante de jogar com outras pessoas é que quando você acerta uma delas por acidente com um golpe, ela não perde energia imediatamente, ficando apenas com a barra de vida verde, igual quando ocorre ao utilizar um ataque especial, bastando que o jogador atingido bata em algum adversário para recobrar a energia. Felizmente o golpe estrela foge dessa regra e ele acerta exclusivamente os inimigos. Ainda assim, se preferir, dá para desligar completamente o dano de todos os ataques dos jogadores uns nos outros, garantindo uma experiência mais tranquila.

Falando do multiplayer online, ele é um pouco mais limitado, com suporte para apenas dois jogadores, mas funcionou bem nos momentos em que pude testá-lo. Jogando no PC via Steam, não obtive a mesma resposta nos controles que aquela existente no co-op off-line, já que há um pouquinho de input lag, mas não foi algo que chegou a me atrapalhar. Mas claro, isso pode mudar para pior e para melhor, dependendo da qualidade e estabilidade da sua conexão com a internet.

Conclusão

Streets of Rage 4 é algo feito pensando-se não apenas nos fãs dos originais de Mega Drive, como eu, mas também para qualquer um que nunca tenha apreciado a série, servindo tranquilamente como porta de entrada para ela. É uma sequência digna da franquia da Sega e que a traz para o século XXI mantendo seu legado intacto. Um dos melhores jogos deste gênero, que está voltando a ser mais explorado pelas desenvolvedoras.

PRÓS

  • Gráficos maravilhosos desenhados à mão
  • Direção de arte impecável
  • A melhor jogabilidade da franquia
  • Chefes legais e que fornecem um bom desafio
  • Trilha sonora que acompanha perfeitamente o ritmo das lutas
  • Conteúdos extras e multiplayer que aumentam muito a durabilidade do jogo

CONTRAS

  • Multiplayer online para apenas dois jogadores, enquanto que offline suporta quatro

NOTA – 9.5

Uma cópia do jogo para PC (Steam) foi fornecida pela Sega para elaboração desta análise