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Análise | Tales of Arise é um ótimo RPG com combate intuitivo e história densa

A série Tales Of não conseguiu, mesmo com décadas de história, chegar no nível de popularidade e qualidade de outros RPGs japoneses icônicos como Final Fantasy, Persona ou Dragon Quest. Mesmo tendo um sistema de combate em tempo real, muito mais aceito no ocidente, foram raras as vezes que um jogo da série deu o que falar.

Tales of Arise veio para modificar essa situação e criar um novo ponto de partida para a franquia. Desenvolvido pela primeira vez na Unreal Engine 4, ele parece ter tido um orçamento mais robusto que seus antecessores e conta com gráficos dignos da geração atual. O conteúdo da campanha é mais caprichado também, com variação e qualidade suficiente para colocar Tales of Arise, quem diria, como uma adição quase obrigatória para fãs de RPG.

Uma história de superação do ódio

Tales of Arise começa como um RPG bem tradicional. Alphen, o protagonista, é um escravo em Caláglia, um dos reinos do planeta Dahna. É também o clássico herói sem memória, que seria apenas clichê batido não fossem dois detalhes legais. Primeiro, que ele é forçado a usar uma máscara de ferro que cobre todo o seu rosto e guarda os segredos da sua origem. Segundo, que ele é incapaz de sentir dor, o que o torna o candidato ideal para comandar uma verdadeira revolução.

Toda a jornada vai começar quando uma garota também cheia de mistérios, a Shione, fugir da sua prisão e chega na vila do Alphen. Ela é de Rehna, o planeta cheio de tecnologia que dominou e escravizou o planeta do Alphen pelos últimos 300 anos. Shione causa dor em quem a toca, por conta de uma maldição que chama de “Espinhos” e a acompanha desde o nascimento. Estava sendo levada pelos próprios compatriotas para ser estudada e também os odeia tanto quanto despreza os escravos de Dhana. É o par perfeito para começar uma aventura memorável: a menina de Rhena que causa dor em quem a toca e o garoto de Dhana que não sente dor.

Já nessas primeiras horas da aventura é possível ficar de queixo caído com um dos destaques do Tales of Arise, a direção de arte. As texturas parecem todas pintadas com um pincel em tela, com detalhes como sobrancelha e olhos contrastando as animações realistas com um estilizado de forma mesmerizante. Para os gamers veteranos, isso lembra como lidaram com as animações faciais de Vagrant Story.

Essa qualidade e polimento se estende para o mundo como um todo, que forma paisagens belíssimas que dão gosto de explorar. Momentos de dor e alegria, que se alternam constantemente durante a campanha, são apresentadas de forma convincente na tela através de cinemáticas muito bem animadas, o que ajuda a se ligar com o mundo e os personagens.

A jornada, num geral, gira em torno do preconceito e ódio entre os moradores dos dois planetas. A crueldade do ser humano e a sua capacidade de também evoluir e perdoar. No grupo vão sendo adicionados personagens de vários reinos e também do planeta Rhena. A dinâmica de relações entre eles mesmos e o mundo é intrigante e os vilões cumprem bem o papel de moldá-los e exigir mudança e crescimento. Como cada um supera o ódio e aprende a perdoar é quase sempre o desfecho, que às vezes fica caricato, mas na maior parte das vezes é bem executado.

Em cada reino a história aborda um tema diferente dentro deste tema maior da opressão, colonialismo e escravidão. De uma ideia macro, vai para o pessoal e apresenta personagens que o jogador, de alguma forma, vai se ligar e refletir. A parte de Menância é especialmente marcante, com dois personagens do grupo que representam arquétipos bem diferentes do que você espera na historinha clássica de vilão e mocinho. É legal como a moralidade é um conceito que recebe questões aqui.

Embora fique a sensação de que faltou algo para alguns desses companheiros serem memoráveis, a narrativa se desenvolve bem e é surpreendentemente densa. Em alguns pontos até se estende demais. O final tem uma barriguinha desnecessária, que leva o jogo a durar mais de 60 horas para quem está fazendo as missões secundárias. Mas compensa!

No fim das contas, a história é legal e vale bastante a pena. Quando seus momentos menos inspirados aparecem, o excelente combate e todo o bom conteúdo secundário suprem bem os defeitos. Um detalhe importante para ressaltar é que tudo isso está muito bem legendado em português brasileiro, sem excessos e com boas adaptações de gírias e momentos descontraídos.

Combate é o grande destaque

Para quem gosta de “combar” e se expressar através do combate, Tales of Arise é um prato cheio. É muito divertido lutar, mesmo que seja com aquele monstro que você já cansou de ver dentro da dungeon.

Cada personagem do grupo, sendo seis no total, possui um estilo de luta bem único. Durante o combate, eles podem exercer papéis específicos com seus ataques especiais, como quebrar armaduras ou travar um inimigo rápido para que ele seja demolido pelos outros membros. É tão importante controlar essa dinâmica, que mesmo os personagens reservas podem ser chamados só para usar seu especial e voltar para o banco.

Some isso com os combos que cada um pode gerar com suas dezenas de “Arts”, os ataques especiais e que é possível trocar o personagem que você está controlando a qualquer minuto e o que se tem em Tales of Arise é um playground de experimentação muito recompensador.

Diferente do Tales of Berseria, por exemplo, os sistemas aqui são mais intuitivos e sem toda uma complexidade desnecessária. Ao mesmo tempo, não pune o jogador que gosta de explorar tudo a fundo. Dá para preparar todos os personagens secundários do grupo para executar os ataques exatamente como você quer, em uma lista de comandos que lembra os Gambits do FF XII, o que não é também uma novidade na série Tales of.

O legal é que todo o polimento visual que vemos no mundo e nas cutscenes também está presente aqui, as animações de combate são belíssimas e algumas finalizações são de fazer pular com o controle nas mãos.

Os chefes também são destaques positivos. A variedade deles é grande e há vários que são conteúdo extra, tanto de endgame quanto de missões secundárias. Alguns são bem desafiadores e colocam à prova tudo que você aprendeu. Para quem curte progredir e continuar evoluindo em busca de equipamentos melhores e o nível 100, há material para dezenas de horas.

Conteúdo secundário farto

O conteúdo alheio ao combate e a história também é bem variado, o que era um defeito dos jogos anteriores da série, que pareciam se repetir demais. Aqui há como pescar por todo o mundo, buscando completar uma coleção de peixes e conseguir iscas e varas cada vez mais raras. Há um coliseu onde você pode testar individualmente suas habilidades ou em grupo contra inimigos poderosos.

Cada parada para descansar em uma fogueira se torna um momento divertido onde é possível cozinhar e conversar de forma descontraída com algum membro do grupo. Coletar todas as receitas pelo mundo é um desafio muito legal.

Enquanto se explora todos os cantinhos de Dhana, infelizmente com um design de nível pouco inspirado em vários mapas, dá para procurar as corujas fofinhas que são da mesma raça do Hootle, um mascote engraçadinho de um dos companheiros de grupo.

Um dos conteúdo em especial, no entanto, é bem fraquinho, que é o rancho que você ganha. Ele foi usado no marketing do jogo, mas decepciona bastante. Não há muito o que melhorar lá, nem como interagir com os animais. É só escolher qual colocar no curral, dar uma ração no momento dessa escolha e esperar ele virar carne.

Com tudo isso, em nenhum momento me cansei da aventura. Dá para parar o que está fazendo na campanha e se dedicar a esse conteúdo extra, ou mesmo perder várias horas em missões secundárias. Poucos jogos conseguem fazer isso com maestria e todos que conseguem ficam na memória.

Conclusão

Tales of Arise é um baita RPG com visuais incríveis, principalmente na nova geração. A história trata de forma surpreendentemente densa temas como escravidão e opressão. O conteúdo secundário é farto e o combate rouba o show com muita qualidade e dinâmica. Uma pena que o design dos mapas não seja tão inspirado quanto o resto e que os personagens do grupo não sejam tão legais quanto todo o resto merece.

Prós

  • Gráficos belíssimos e direção de arte bem executada
  • Combate responsivo, dinâmico e intuitivo
  • História com temas pesados tratados de forma densa
  • Conteúdo secundário farto
  • Pescar é bom demais!!

Contras

  • Design de nível não acompanha o resto
  • Personagens do grupo não são tão legais
  • Em alguns momentos, a história se estende demais

Nota: 8,5/10,0

Uma cópia do jogo para PS4/PS5 foi fornecida pela Bandai Namco para elaboração desta análise.

 

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