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Estamos chegando ao final de mais uma geração de videogames. Como passou rápido, né? O bom dessa época é que como as grandes desenvolvedoras já obtiveram bastante intimidade com as plataformas, conseguem finalmente extrair o máximo daquilo que elas podem oferecer. No PlayStation 4, uma das especialistas em fazer uso do console da Sony é a Naughty Dog, com os exemplos para isso sendo Uncharted 4: A Thief’s End e Uncharted: The Lost Legacy, dois dos jogos mais impressionantes da geração.

Agora chegou a vez dos competentes funcionários dela fecharem sua participação no console, com The Last of Us: Part II. Mas ficou bom? Olha, dizer apenas que “ficou bom” é até um desserviço para o que esse estúdio conseguiu produzir com este jogo. Já adianto, sem qualquer receio, que trata-se do título mais impressionante produzido para PS4, e lhe explicarei todos os motivos a seguir, sem qualquer spoiler.

A história em The Last of Us Part II começa algum tempo após o final do primeiro jogo. Ellie, agora mais velha, continua nos Estados Unidos, morando na pacata cidade de Jackson, em Wyoming. Joel também está lá, assim como alguns personagens novos, como Dina, que já foi introduzida nos trailers e fotos de divulgação da Naughty Dog. Existe sim uma relação amorosa entre ela e Ellie, como você já deve ter notado, mas isso não é o foco.

Em um dado momento, algo acontece na vida de Ellie, que a faz ir em uma jornada até Seattle, em Washington, em busca de respostas. No caminho, ela encontra três tipos de inimigos, que possuem comportamentos diferentes uns dos outros. O primeiro você já conhece, que são os infectados, mais astutos e perigosos do que antes. O outro é um grupo paramilitar chamado Washington na Luta pelo Futuro, ou Lobos, muito organizados, usando armas de fogo e cães para te caçar. O último, cujo nome é Serafitas, ou Cicatrizes, é um culto de fanáticos que faz uso de armas mais rudimentares, como arcos e flechas, mas nem por isso deixa de atacar com armamentos modernos caso seja necessário.

Você precisará enfrentar estes e muitos outros obstáculos para alcançar seu objetivo na história, que é repleta de surpresas, com algumas que te deixarão espantado quando derem as caras. O que mais chama a atenção na história é que ela claramente não tem medo de arriscar coisas novas e muitas vezes inesperadas, fugindo de clichês, para tentar impedir que você, em algum momento, pense: “Sabia que isso ia acontecer”. Ao mesmo tempo, ela te fisga graças a uma narrativa impecável, a ponto de você sempre querer saber o que vai vir a seguir.

Eu joguei a maior parte do tempo em inglês, por preferência pessoal mesmo, já que os atores que interpretam os personagens estão entre os melhores do ramo, mas a dublagem em português brasileiro está excelente e é ideal para quem não quer perder absolutamente nada da história por não ter muita intimidade com o idioma original do jogo.

Dar maiores detalhes a respeito da história sem soltar algum spoiler, por menos comprometedor que seja, é uma tarefa ingrata. Devido ao embargo, que é bem pesado nesse sentido, fico impossibilitado de contar muito mais sobre isso antes do lançamento, algo que vale até mesmo para determinados aspectos da jogabilidade. No entanto, posso falar com convicção que a Naughty Dog conseguiu produzir uma trama que supera e muito aquela do jogo original. Quando você finalmente chegar ao fim da longa aventura, sentirá um vazio tremendo, pois a vontade de permanecer jogando continuará presente.

Bastante foco na exploração

Durante a jornada, você passará por diversos ambientes, tanto fechados quanto abertos. Apesar de não ser um jogo de mundo aberto, The Last of Us Part II possui alguns cenários de tamanho considerável, com muitos segredos a serem encontrados. Vemos muita influência dos últimos Uncharted neste aspecto do game. Certos locais são tão vastos que é necessário utilizar o cavalo para poder chegar mais rapidamente onde você deseja ir. Até mesmo um barco a motor lhe é concedido depois de algumas horas de jogo.

Você terá de explorar cada canto por onde passar, abrindo gavetas, fuçando em armários, banheiros, quartos, becos e assim por diante, para conseguir encontrar recursos valiosos, como armas, munição, coldres e ingredientes para criar acessórios, melhorar seus equipamentos e obter novas habilidades. Está diante de uma loja e a porta está trancada? Quebre a janela e entre. Achou uma casa, mas as janelas estão barradas? Procure por alguma fresta por onde você consiga passar e ganhar acesso ao local.

Cada estabelecimento ou casa parece diferente um do outro, nunca passando aquela sensação de repetição, que você sente ao perceber que um determinado lugar parece com outro que você já visitou. Tudo é único, o que ajuda muito na hora de se localizar. O melhor aspecto disso é que torna a exploração orgânica, impedindo que ela fique cansativa e se torne algo chato de ser realizado.

Além dos já mencionados cavalos e barcos, você também conta com o uso de cordas para conseguir acessar determinados lugares, sendo às vezes necessário utilizá-las de formas mais criativas, como jogando-as por cima de uma barra de metal para que você consiga se pendurar e se balançar até outra extremidade. Outro detalhe curioso é que você não anda com uma corda consigo, mas ela sempre estará por perto quando houver necessidade de uma.

Além dos itens que você precisa achar para sobreviver, há muitos easter eggs a serem descobertos, alguns bastante curiosos. Coletáveis também estão presentes, como, por exemplo, cartões de super-herói, relíquias e documentos, que são os mais comuns de todos e servem para te contar algumas histórias de pessoas que passaram por onde você está, mas que às vezes te fornecem dicas na forma da combinação de um cofre recheado de itens que esteja por perto, ou pistas sobre qual seria essa combinação.

Para não dizer que tudo são maravilhas, em alguns momentos a linearidade de The Last of Us Part II atrapalha, já que você precisa ter cuidado na hora de avançar para certos locais, pois se tiver esquecido de explorar algum deles com coletáveis em potencial, não poderá mais voltar para fazer isso naquele momento. Felizmente há a possibilidade revisitar estes lugares no Novo Jogo+ e também por meio do menu de escolha de capítulos, para pegar qualquer coisa que você tenha esquecido. A Naughty Dog também poderia ter colocado um maior número de áreas abertas, que são as melhores do jogo, deixando aquelas mais lineares e fechadas em segundo plano.

Jogabilidade digna de aplausos

São tantos elementos incríveis na jogabilidade de The Last of Us Part II que fica até difícil saber por onde começar, então vamos pelo básico. Você encontra várias armas ao longo do jogo e cada uma é mais útil para uma determinada situação. É possível melhorá-las em mesas de reparo, por meio de peças que você encontra espalhadas em todos os lugares. As melhorias englobam aumento no alcance, na estabilidade, no dano, na quantidade de munição suportada, e assim por diante. O manuseio delas é fantástico, sendo uma evolução se compararmos com jogos da série Uncharted. O barulho das armas é ensurdecedor, como deve ser, e acredite, isso aumenta o entusiasmo ao dispará-las.

A customização dos armamentos, por sinal, é uma das pequenas coisas mais gratificantes de se fazer no game. O modo como Ellie mexe nas armas, limpa elas, lubrifica, incrementa. É algo tão minunciosamente detalhado e mostra que a Naughty Dog deu muita atenção até mesmo em um aspecto que, em diversos jogos, se resume a apenas um clique no menu para deixar a arma melhor.

Apesar de não possuir um sistema de cobertura como outros jogos de tiro em terceira pessoa, o modo como The Last of Us Part II permite que você ande agachado, se arrastando, se esgueirando, se colocando atrás dos objetos e mirando por cima deles ou pelos lados, trocando o posicionamento da mira, é tão inacreditavelmente bem feito que você, em momento algum, sentirá falta de um sistema de cobertura. Ele passa perfeitamente a sensação de que você está jogando algo onde precisa focar na sobrevivência, mas sem descuidar dos elementos que também o transformam em um jogo de ação.

Além de você poder partir para cima dos inimigos, num confronto direto, o jogo, assim como o antecessor, lhe permite usar uma abordagem furtiva, havendo inclusive habilidades que você pode destrancar e que irão aumentar sua destreza com esse tipo de jogabilidade. Ellie possui uma faca consigo, lhe permitindo matar facilmente oponentes, bastando chegar por trás deles sem que eles percebam. Dá também para criar um silenciador para a pistola, como até mesmo usar um arco e flecha (desbloqueado após algumas horas jogando), para abordar os oponentes com cautela.

Ao apertar e segurar R1, você consegue “escutar” os inimigos, que aparecem em seu campo de visão como vultos de cor branca. Quanto mais perto estiverem de você, mais nítido será esse vulto. Você deve usar essa habilidade gratuita com frequência, caso opte por jogar furtivamente. Outra funcionalidade fundamental é poder desviar dos ataques apertando L1, essencial na hora de enfrentar adversários no combate corpo a corpo.

Por Ellie ser uma pessoa menor e mais ágil do que Joel, há mais opções para furtividade aqui do que no jogo anterior. Elementos dos cenários, como a grama alta, foram incluídos em The Last of Us Part II e são úteis em lugares com muitos inimigos. No caso da grama, ela te camufla e permite que você passe desapercebido. No entanto, caso um adversário te veja, você deve ser rápido e correr na direção dele para agarrá-lo e matá-lo, antes que ele peça ajuda. Se não conseguir isso à tempo, pode usá-lo como escudo humano por alguns segundos. Você também consegue se aproximar desapercebido em certas situações nadando debaixo d’água.

Objetos como garrafas e tijolos são fundamentais, pois podem ser arremessados nos inimigos, deixando-os desnorteados e sem defesa, abertos para um golpe fatal. Também são usados para distraí-los ou até mesmo atraí-los para uma armadilha que você planejou. Duas estratégias que usei muito foi fazer com que um determinado oponente fosse de encontro a uma das minas terrestres caseiras que eu plantei, ou até mesmo provocar com que dois ou mais inimigos ficassem próximos, para serem incinerados com um coquetel molotov. Armas como essas, aliás, você pode fazer com os ingredientes achados pelo jogo e são extremamente úteis para diversas situações.

É preciso, no entanto, tomar cuidado na hora de encarar grupos numerosos. No caso dos infectados, é sempre bom verificar quais tipos você está enfrentando, pois alguns deles podem te matar num piscar de olhos. Os Corredores são rápidos, porém morrem fácil. Os Estaladores continuam perigosos, pois embora sejam cegos, tem uma audição sensível ao menor dos ruídos, então você precisa se aproximar deles em silêncio, seja agachado, se arrastando ou até mesmo mirando a arma, o que também faz você andar silenciosamente. Os Espreitadores só atacam quando você menos espera, e por não fazerem barulho são bem difíceis de serem encontrados. Isso só para citar alguns dos infectados, pois há outros ainda mais ameaçadores e que vou deixar para que você descubra por conta própria.

Já no caso dos grupos humanos, eles também não são bobos. Um novo elemento inserido em The Last of Us Part II são os cachorros, que se perceberem sua presença conseguirão ir até você pelo cheiro, ficando impossível de despistá-los. Sua alternativa, nesse caso, é arremessar um objeto para fazer com que o cachorro pare de focar em você, ou então matá-lo. Caso opte pela segunda opção, o dono irá perceber que tem algo errado, ficará em alerta e avisará quem estiver por perto de que há um invasor nas redondezas. Se estiver em um local com humanos e infectados, você pode fazer barulho para que os infectados ataquem os inimigos humanos, enquanto assiste aos dois lados se matando.

Aliás, uma das coisas que muito foi dita sobre The Last of Us Part II durante sua divulgação é o modo como os inimigos se comportam. Quando você mata um deles (humanos, no caso), e um dos companheiros encontra o corpo, ele grita o nome da pessoa que morreu e fala para todos ficarem atentos. O tipo de sentimento com a morte do aliado é aleatório, podendo ser de raiva, surpresa ou até mesmo preocupação. Ah, se você mata o dono do cachorro, o pobre animal fica triste e meio que sem rumo, já que seu dono foi abatido, e acaba se tornando um alvo fácil. Isso tudo muda conforme a maneira com a qual você age. Essas expressões implementadas na inteligência artificial foram maneiras interessantes de aumentar o realismo e deixar a experiência ainda mais imersiva.

Dito tudo isso sobre seus adversários, você pode, se assim desejar, passar por todos eles sem matá-los, isto é, se tiver a paciência e destreza necessários para conseguir fazer isso, já que o comportamento deles muda às vezes após você recarregar o último ponto de checkpoint.

Falando mais da IA, ela também é bem útil na hora de dar uma mão ao jogador, pois em muitas situações você estará junto de um companheiro controlado por ela. Várias vezes me vi abordando um inimigo e quase que ao mesmo tempo, o personagem controlado pela IA decidiu, por conta própria, atacar outro que estava próximo. Ela se adapta muito bem ao seu estilo de jogo e ajuda de verdade em diversas ocasiões.

Não para por aí, ela também te auxilia quando você se sente perdido e sem saber onde deve ir. Em alguns momentos, se você estiver com outro personagem ao seu lado, ele poderá te indicar o que você precisa fazer. Nos casos onde você estiver sozinho, o próprio jogo te oferece a dica, que você pode aceitar ou não. Apenas aceitando ela aparece.

Ambientação fora de série

Outra das muitas coisas que mais me chamaram a atenção em The Last of Us Part II foi o cuidado com que a Naughty Dog teve na hora de criar o clima certo para cada situação com a qual você se depara ou local que visita. Você realmente se sente num mundo em ruínas, tamanha a quantidade de detalhes presentes nos cenários.

Na hora de encarar os inimigos, a música muda de intensidade quando um deles está desconfiado de sua presença, servindo como alerta, voltando a se acalmar quando você consegue novamente se camuflar, ou ficando frenética caso você seja descoberto, dando o tom ideal para a agitada troca de tiros que virá a seguir.

As partes de terror, em locais escuros e repletos de infectados, conseguem te passar a impressão de que você está jogando um survival horror. Sem exagero, eu fiquei até com vontade de que a Naughty Dog considere fazer um jogo de terror no futuro, pois as seções que focam nesse aspecto em The Last of Us Part II são fenomenais e vão deixar alguns jogadores com receio de jogar com as luzes apagadas.

Tirando leite de pedra

Os visuais de The Last of Us Part II são facilmente os mais bonitos da atual geração de videogames, mostrando, mais uma vez, que um hardware poderoso ajuda sim, mas não chega aos pés da importância de uma exímia direção de arte.

O gráfico presente aqui, especialmente nos cenários, é tão incrivelmente bem feito que por muitas vezes eu fiquei de queixo caído com tamanho detalhismo e cuidado com as texturas, iluminação e animação. E isso jogando no PS4 Slim. O sol batendo nas árvores, a água caindo no riacho, o gelo fino quebrando debaixo das patas do cavalo, a neblina cobrindo parcialmente seu campo visual, o orvalho nas plantas, o sangue dos inimigos em cima da grama (não no chão, nas folhas da grama mesmo) após tomarem um tiro, a neve caindo do galho da árvore quando você encosta nela, o modo natural como o sangue escorre da ferida do inimigo no chão quando ele morre, é tudo tão bem feito que você muitas vezes se pergunta: “Como raios a Naughty Dog conseguiu algo assim com um PS4?”

Os personagens também são extremamente bem detalhados e parecem vivos graças ao fantástico trabalho de animação aplicado neles. Até as mais simples expressões faciais conseguiram ser retratadas perfeitamente. As animações nos objetos presentes nos cenários, especialmente na grama e nas plantas, também ficaram excepcionais, deixando ainda maior o impacto causado pelos visuais.

A qualidade gráfica e de animação também está presente na violência que o jogo fornece. Ao explodir um inimigo, o corpo dele se estraçalha de forma bem realista. Você pode até mesmo arrancar braços e pernas dele usando armas de fogo, deixando-o agonizando no chão até a morte, com ele berrando de dor. Ao atirar na cabeça, é possível ver um jato quase transparente de sangue espirrando da extremidade de onde a bala sai, não se limitando apenas ao sangue sendo jorrado na parede. São muitos detalhes visuais em tudo que o jogo apresenta.

Sinceramente não me recordo de ter visto gráficos tão maravilhosos em um jogo como os presentes neste game. Na minha opinião, os que chegam mais perto de apresentar algo desse nível são Gears 5, Horizon: Zero Dawn e Red Dead Redemption 2, mas a parte artística de The Last of Us Part II consegue fazê-lo ficar um degrau acima dos três.

Você fica por muito tempo apenas contemplando a qualidade gráfica do game e ainda por cima pode registrar tudo por meio do modo fotografia que está presente nele. Fico imaginando como esse jogo ficará visualmente caso rode de forma ainda mais bonita no PS5, pois já foi confirmado que o console, em algum momento, poderá ser utilizado para jogá-lo.

Conclusão

Eu acho muito difícil alguém que gosta de videogames terminar The Last of Us Part II e ficar desapontado. É, sem nenhuma dúvida, a maior obra-prima da produtora Naughty Dog, um dos mais incríveis jogos da geração e um dos melhores jogos de PlayStation 4 já feitos. Ele acerta em absolutamente todos os aspectos e fornece uma experiência inesquecível, que ficará para sempre na memória daqueles que jogarem.

PRÓS

  • Gráficos que beiram à perfeição
  • Muita exploração, mas sem ficar cansativo ou repetitivo
  • Ambientação fenomenal
  • Uma das melhores jogabilidades do gênero
  • Animações extremamente bem-feitas
  • História complexa e profunda, conduzida por uma narrativa impecável

CONTRAS

  • Ausência de um número maior de áreas abertas

NOTA – 10

Uma cópia do jogo foi fornecida pela Sony para elaboração desta análise