E funciona melhor do que muita promessa AAA por aí!
Se você tá cansado de survival builder igual a miojo (três minutos e já perdeu a graça), The Wandering Village é um alívio.
Um jogo onde você constrói sua vila no lombo de uma criatura mitológica gigante chamada Onbu, tentando sobreviver num mundo pós-apocalíptico cheio de esporos tóxicos, biomas extremos e — acredite — decisões que envolvem cocô, catapulta e cogumelos.
Parece loucura? É. Mas é uma das experiências mais únicas que joguei nos últimos tempos. E olha que já montei cidade em planeta gelado, no fundo do oceano e até em cima de um trem steampunk. Faltava mesmo era um bicho gigantesco de estimação.
Cidade nas costas do bicho. Literalmente.
A jogabilidade gira em torno de três camadas principais:
-
A vila, construída sobre as costas do Onbu. Espaço limitado, mas rola tudo ali: moradia, fazenda, pesquisa, coleta de recurso e, claro, o “banheiro” do Onbu.
-
O corpo do Onbu, onde você interage diretamente com a criatura — dando comida, remédio, fazendo carinho… ou arrancando sangue e espinho se for mais do tipo parasita.
-
O mapa do mundo, onde você envia batedores pra achar recursos e escolher caminhos, meio estilo Frostpunk com mais musgo.
O que dá o charme aqui é justamente essa relação entre vila e criatura. Onbu não é só cenário. Ele é um personagem vivo, que sente, dorme, cansa, faz cocô em horário marcado (com notificação na tela!) e pode te obedecer — ou não — dependendo de como você cuida dele.
Microgerenciamento com cheirinho de apocalipse biológico
O grande inimigo aqui não são zumbis, orcs ou o capitalismo. É o mundo contaminado, com esporos tóxicos que tentam se instalar na sua vila toda vez que o Onbu resolve deitar no matagal errado.
Você precisa plantar comida, tratar doenças, filtrar água do ar e, claro, usar bosta de bicho gigante como recurso. A cada 100 km percorridos, você tá mais próximo do colapso — ou da glória. O mapa muda, o clima muda, e plantar beterraba no deserto é tão inteligente quanto tentar correr Dark Souls pelado.
No meio disso tudo, a interface é limpa, os sistemas são acessíveis e o jogo te guia sem segurar sua mão o tempo todo. Só que…
…na reta final, parece que você virou estagiário da vila
Depois de um tempo jogando, principalmente no modo mais acelerado, a coisa descamba pro microgerenciamento exagerado. O ritmo, que era estratégico e contemplativo, vira um malabarismo de planilhas: “coloca gente na plantação”, “tira do poço”, “manda pra torre de pesquisa”, “liga a sirene”, “ativa o trebushe” — tudo num ciclo infinito de tarefas que te desconectam do prazer de ver a vila crescer.
É como começar um jogo de tabuleiro relaxante e terminar digitando código-fonte da torre de observação. Não que seja ruim, mas exige paciência.
Visual lindo, mas sem profundidade… literalmente
O gráfico é lindo, carismático, com aquela vibe de livro infantil pós-fim do mundo. Mas a escolha de manter tudo numa perspectiva fixa (com os prédios sempre virados pra baixo) limita MUITO a liberdade criativa de construção.
Quer girar o prédio pra encaixar melhor? Esquece. Quer uma base de layout personalizada com simetria? Só se for simetria ao estilo “encaixa onde der”.
Mas ó: visualmente, o jogo é redondinho. E mesmo quando o Onbu tá sofrendo, dá vontade de tirar print pra pôr de papel de parede. É fofo até no desespero.
Campanha: um bônus que virou castigo
Aqui é onde o caldo entorna.
A campanha tenta criar um enredo com personagens e diálogos, mas parece que saiu direto de uma redação escolar. Conversas infantis, personagens sem carisma e um tom que tenta ser profundo, mas tropeça feio.
Quer um exemplo? De repente, do nada, surge uma conversa sobre eutanásia. Sim, do nada. Num momento você tá colhendo cogumelo, no outro tá discutindo dilemas éticos numa vila pixelada com cara de Animal Crossing gótico.
Pra mim, a campanha tira o mistério do universo e enfraquece a jornada com Onbu, que no modo livre é muito mais envolvente. Se você vai jogar, deixa a campanha pra depois, só pega o modo história quando quiser destravar a skin rosa do Onbu (que vale a pena, confesso — porque nada grita “apocalipse” como um bichão fofo cor-de-rosa com cara de Totoro mutante).
Destaques técnicos, tretas e… um trebushe!
Agora, o ápice da genialidade dos devs: pra alimentar o Onbu, você constrói um TREBUSHE. Sim, aquela catapulta medieval gigante.
Você colhe cogumelos, cozinha numa máquina industrial, transforma em bolotas gigantes e atira no bicho com um trebushe, torcendo pra ele abrir a boca na hora certa.
Não é só engraçado — é um sistema que mistura estratégia, logística e puro carisma, e mostra como o jogo acerta em transformar recursos em mecânicas criativas.
Ah, e sim, você pode também:
-
Tirar sangue e bile do bicho (pra recursos avançados);
-
Raspar os espinhos das costas dele (e ver a confiança dele cair);
-
Controlar o intestino do bicho com medicamentos para soltar ou prender o intestino. Porque até o cocô aqui é gameplay.
Prós:
- Árvore tecnológica robusta com foco na simbiose
- Sistema de biomas variados que realmente afetam o gameplay
- Várias formas criativas de interagir com o Onbu (inclusive absurdas, tipo trebushe de comida)
- Visual charmoso e bem trabalhado
- Construir uma vila nas costas de um monstro é genial
Contras:
- Campanha fraca, diálogos sem alma e tom inconsistente
- Perspectiva fixa limita muito a liberdade de construção
- Microgerenciamento cansativo em estágios avançados
Nota Final: 7/10
Um survival builder que vale a viagem, especialmente se você souber dosar o ritmo e pular a campanha. Onbu pode ser um bichão lento, mas te carrega longe — se você souber cuidar bem dele. The Wandering Village é aquele tipo de jogo que entrega mais do que parece, com uma ideia original e um sistema de gestão envolvente — mesmo que às vezes exagere na microgestão. O visual é lindo, a trilha embala bem e o conceito de simbiose com um ser mitológico é algo que nenhum outro builder teve coragem de tentar. Pena que a campanha é uma queda de braço sem braço. Mas no fim, se você curte jogos de sobrevivência com aquele toque excêntrico e poético, pode embarcar nessa jornada sem medo.
E funciona melhor do que muita promessa AAA por aí!