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Análise | Wonder Boy: Asha in Monster World é um jogo de plataforma datado e desafiador

A série Wonder Boy tem um passado muito maior do que aparenta. Muita gente hoje em dia nunca ouviu falar nela, mas o seu primeiro jogo foi lançado lá em abril de 1986 para arcades. Com mecânicas de plataforma, ambientação de fantasia e alguns elementos de RPG, a franquia tem o seu público mundo afora, principalmente por ter a gigante Sega por trás.

De lá para cá, Wonder Boy vive mais de remasters e remakes do que de novos lançamentos. É o caso também de Wonder Boy: Asha in Monster World, um remake de Monster World IV – lançado originalmente no Mega Drive – que já está disponível para PS4 e Switch, e em breve sairá também para PC.

Uma garota especial

Asha, a protagonista, é uma garota nada convencional. Mesmo muito nova, já desponta como um heroína para o seu vilarejo e tem um certa sensibilidade para ouvir espíritos. Após escutar o clamor dos quatro espíritos elementais de que o mundo está em perigo, decide partir para a jornada da sua vida.

O objetivo é libertar esses quatro espíritos e então enfrentar o grande vilão por traz desse plano maligno. Com o passar da jornada, que avança a medida que cada espírito é libertado, vamos vendo a cidade principal ser modificada e seus cidadãos ficando cada vez mais a mercê da escuridão.

Para ajudar nessa tarefa difícil, Asha conta com a ajuda de um bichinho bem diferente, um Pepelogoo. Esse monstrinho redondo e, no caso exclusivo do dela, azul, é capaz de uma série de ações que vão ajudar as superar os momentos mais difíceis e até combater os inimigos. Ela também faz vários amigos durante a aventura e conta até com um espirito da lâmpada, que acaba servindo como alívio cômico na narrativa e como um transporte para a cidade na jogabilidade.

Com alguns personagens até divertidos, como o mago ou a princesa da cidade, a narrativa tenta apenas cumprir o seu papel de plano de fundo para a jogabilidade. Embora não vá emocionar ninguém e às vezes pareça simples demais, pelo menos tem uma premissa mais interessante do que apenas resgatar uma princesa perdida, que era mais comum na época.

Gráficos cumprem o papel…

Quando se fala em um remake, a parte visual é uma das mais importantes. Dessa vez o jogo utilizou o 3D para criar o seu mundo e, para deixar o visual tão estilizado quanto o original, apostou na técnica de cel shading, aquela que deixa os modelos com um aspecto parecido com os de um desenho animado e é muito utilizada em jogos de anime.

Os personagens são até bem detalhados e o design de alguns inimigos é legal, mas com fundos simples demais, em vários momentos o jogo não agrada nesse aspecto. Em uma das últimas fases, onde há um fundo com naipes de cartas animado, fica até difícil ficar olhando para a tela por muito tempo.

A adição de algumas cutscenes, com ângulos de câmera bem posicionados, que rolam antes dos chefes ou momentos que tentam emocionar mais, são bem-vindas e mostram o potencial que o 3D tem para ajudar na narrativa.

O problema é que as animações são no máximo aceitáveis, e a forma como alguns movimentos são travados incomoda, principalmente no combate. No geral, não é um arte que salta aos olhos, mas também não chega a ser um ponto negativo.

…a jogabilidade não!

Se os gráficos não incomodam, a jogabilidade passa longe de ajudar a experiência. É bem verdade que o próprio Monster World IV foi criticado na época e não é considerado um dos melhores da franquia. No entanto, é justamente em um remake que se tem a oportunidade de consertar as coisas.

O uso do Pepelogoo, que é o responsável por saltos duplos e outras funções essenciais, é bem impreciso e tira muito da dinâmica do jogo. Para exemplificar, é preciso sempre chamar ele com o R1. Asha assovia e ele voa até os braços dela. Só depois disso é que você pode dar um pulo duplo. Como a animação dele é lenta, o assovio constante é chato e a necessidade de uso é a todo o momento, isso acaba virando algo que atrapalha a fluência da jogabilidade, essencial para o gênero de plataforma. Os saltos normais também não parecem bem feitos e muitos erros que cometi foram daqueles que você culpa mais o jogo do que a sua capacidade para jogar. É algo bem frustrante mesmo.

O combate também é pouco inspirado e só funciona graças a existência de muitos corações para a vida da personagem. Há poucos recursos para não sofrer dano e muitas lutas parecem meio aleatórias, mesmo contra chefes.

Melhorias de qualidade de vida também poderiam ter sido adicionadas, nem que fossem um modo à parte. Não ter como dar um continue ou salvar automaticamente é desanimador. Um deslize e você pode perder muito tempo de jogo. Pode ser nostálgico, mas é aquela nostalgia ruim, arcaica e que já não cabe mais hoje em dia. Esse ponto, inclusive, deve afastar muitos jogadores.

Mas nem tudo é negativo. Vale ressaltar o level design de algumas fases. Sem pegar muito na mão do jogador, obriga a prestar atenção e fornece um desafio legal. A primeira é bem mamão com açúcar, aquele clássico tutorial de jogo oriental que é extenso demais. A partir da segunda, o bicho pega e há algumas que podem te deixar perdido ou exigir voltar à cidade.

Aliás, fácil é algo que Asha in Monster World definitivamente não é, o que é um ponto positivo para jogadores veteranos que gostam do desafio. Isso de certa forma já é esperado de um clássico também. As lutas com chefes, especialmente, podem ser até punitivas além da conta, então é bom sempre lembrar de salvar seu progresso, caso contrário ele poderá ser perdido.

A forma como a cidade do jogo serve como um HUB, com NPCs para conversar, equipamentos para comprar e alguns segredos, também é legal e quebra um pouco o ritmo frenético das fases de uma maneira legal. Ajuda também a dar um bom senso de progressão, já que com armas melhores tudo fica bem mais fácil.

Nada nessa parte da jogabilidade é muito marcante ou merece um grande destaque nos dias atuais. É um título de plataforma datado e com alguma personalidade para a sua época, que sofre para chamar a atenção frente a outros concorrentes no mercado, especialmente com a qualidade que alcançam os jogos indie mais modernos.

Conteúdo muito limitado

O que mais derruba o jogo é o seu conteúdo. A campanha dura menos de 4 horas e não foi adicionado nenhum conteúdo adicional, como um “New Game+”, fase extra ou algo do tipo. Após terminar, só resta correr atrás dos troféus, que aliás são bem fáceis, principalmente com os itens finais disponíveis para comprar.

Se você fizer tudo certinho, deve experimentar tudo que esse jogo tem a oferecer com bem menos de 10 horas, o que é bem pouco, mesmo para o preço mais baixo que está sendo cobrado no momento.

Conclusão

Wonder Boy: Asha in Monster World é um remake de um jogo não tão legal, que não ganhou as mudanças necessárias para se fazer necessário nos dias atuais. Com uma jogabilidade imprecisa e muitos sistemas ultrapassados, perde muito para os outros jogos do mercado em todas as frentes. Os gráficos não comprometem e a história, mesmo boba, também não chega a ser negativa. Já o conteúdo é bem curto para os padrões atuais e deveria ter recebido mais cuidado.

Prós

  • Ambientação legal
  • Gráficos cel shading bem feitos
  • Bastante desafiador
  • Design de níveis das fases

Contras

  • Sistema datado de salvamento e continue
  • Muito curto e com pouco conteúdo
  • Jogabilidade de plataformas é imprecisa
  • Uso do Pepelegoo atrapalha o ritmo de jogo

Nota: 6.5/10.0

Uma cópia do jogo para PS4 foi fornecida pela ININ Games para elaboração desta análise

 

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