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O ano de 2016 começou bem para os fãs de quadrinhos e super-heróis, primeiramente com a estreia de “Batman vs Superman” e mais recentemente “Capitão América: Guerra Civil“. Dois filmes de editora rivais (Marvel e DC Comics), a rivalidade também está presente entre os fãs, cada um defendendo o seu filme com unhas e dentes.

É o sonho de qualquer fã de quadrinhos, independente da editora, ver um filme que reúna heróis tão mundialmente emblemáticos como Batman, Superman e Mulher Maravilha ou o Capitão América, Homem de Ferro e Homem-Aranha – só um acéfalo pensaria de maneira diferente. Mas então, porque tivemos dois filmes onde um agradou a grande maioria, e o outro dividiu opiniões?

Pensando nisso, resolvi fazer um artigo opinativo, onde convido a todos concordarem ou não, das minhas comparações entre os dois blockbusters. Mas, primeiramente, quero deixar claro que sou um leitor de quadrinhos, tanto Marvel como DC, desde quando era criança nos anos 80 e que já assisti a todos os filmes e séries de super-heróis já lançados, antigos ou recentes, portanto não sou nenhum “noob” nesse universo. Inclusive, confiram minhas críticas dos dois filmes AQUI e AQUI.

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Vamos lá então. Ambas as produções possuem quase que o mesmo roteiro: mostrar uma batalha épica entre heróis, manipulados secretamente por um vilão com desejos obscuros. Se nesse ponto os filmes são iguais, sua execução foi completamente diferente, assim como o seu resultado final.

Começando com “Batman vs Superman” (BvS), o principal problema, em minha opinião, foi a direção de Zack Snyder, que nos apresentou os bacanas “Madrugada dos Mortos” e “300”, mas os duvidosos “Sucker Punch” e “O Homem de Aço”. Se tem um coisa que ele sabe fazer é a fotografia, sem dúvida nenhuma, todos os seus filmes possuem um visual belíssimo, e assim é também BvS. O problema foi todo o resto.

Snyder fez uma apresentação do Superman em “O Homem de Aço“, filme que também dividiu opiniões. Apesar de um ritmo meio enrolado e uma falta de desenvolvimento dos personagens, eu achei um filme bacana (aquela luta final…), mesmo com aquele final polêmico (que eu não curti) com o Superman matando seu inimigo (seria como ver o Homem-Aranha matando o assassino do Tio Ben, em comparação).

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Mas em BvS nós não vemos um desenvolvimento do herói para alguém virtuoso. Do jeito que ele começa, ele termina o filme. Pior que isso, ele é retratado de maneira superficial, e até mesmo meio egoísta, que se preocupa mais com a Lois Lane do que o resto do mundo (Jimmy Olsen que o diga, um importante personagem das HQs que sequer é nomeado no filme e acaba morto).

Esse não é o Superman que eu cresci lendo na infância, ele não é apenas um cara com os poderes de um deus, mas sim um herói que representa o que há de mais nobre nos seres humanos, um símbolo da bondade e da esperança. O cara que faz escolhas que pessoas normais não fariam e por isso ele é um “Super-Homem”, mais do que os seus superpoderes. Os dois primeiros filmes clássicos com Christopher Reeve, e até mesmo a série Smallville, trabalham muito mais esses conceitos de nobreza do que os dois filmes de Snyder, e olha que eles já quase têm 40 anos.

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Já o Batman é apresentado como um cara amargurado e até meio lunático, uma máquina assassina que dirige um Batmóvel disparando sua metralhadora e derrubando o que encontra pela frente. Novamente, não foi o herói que eu conheci na infância, que acima de tudo representa a superação humana, um cara sem superpoder que vai até os seus limites do corpo e inteligência (e dinheiro), com valores morais que o fazem abdicar de seus medos, ódio e do desejo de vingança, ou de matar bandidos, para lutar por uma causa maior: a justiça.

Auto-controle e auto-disciplina, são duas palavras que definem o Homem Morcego e que nem chegam perto da versão mostrada por Zack Snyder (e bastante trabalhada nos filmes de Christopher Nolan), um herói que em mais de 40 anos de suposta experiência enfrentando a escória humana, não superou o trauma da morte da mãe, resultando em uma das cenas mais ridículas que eu já vi na vida (sim Martha, estou olhando para você!). A segunda coisa mais ridícula foi aquele Lex Luthor com jeitão de Coringa, uma criança mimada que merece levar umas palmadas, uma versão caricata que destoa de todo o tom sério e sombrio do filme, ou mesmo das suas versões dos quadrinhos (como um cientista ou como um industrial poderoso).

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Mas, além dessa adaptação atrapalhada das HQs para cinema que frustrou muitos fãs em todo o mundo, a execução do filme como um todo também é problemática, ele é longo, enrolado e massante. Mesmo a batalha final contra o Apocalipse (que mais parece essas novas Tartarugas Ninjas CGI bombadas, totalmente sem expressão) não empolga, com cenas caóticas, onde não entendemos nada do que e stá acontecendo na tela, retiradas do manual de Michael Bay e de Transformers.

No entanto, apesar das minhas críticas acima, teve algumas coisas que eu gostei em BvS, como o início do filme, que deu uma perspectiva humana para a destruição de Metropolis (me lembrou a série de quadrinhos Marvels, que mostra vários eventos de super-heróis a partir do ponto de vista de um fotógrafo). Não gostei de Gal Gadot como Mulher Maravilha (muito magrela na minha opinião), mas a personagem teve uma boa introdução no filme e se destaca mais do que os dois protagonistas. Por fim a trilha sonora maravilhosa de Hans Zimmer, em especial o tema da Mulher Maravilha.

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Agora vamos analisar “Capitão América: Guerra Civil“, que nos mostrou um Visão que deveria ser o Superman em BvS: um herói que tenta ser nobre, que não quer abusar dos seus poderes para não machucar os outros (se ele realmente quisesse, poderia detonar todos os heróis do filme com uma mão nas costas), que não deixa as emoções interferirem (apesar do notável sentimento pela Wanda) e realmente salva as pessoas, como naquela cena do ônibus (além de Lois Lane, o Superman salvou mais alguém?).

O Capitão América, que também personifica a nobreza do ser humano (o supersoldado, o ‘homem perfeito’) é muito mais idealista e convincente do que o Superman. Ele é tão puro e correto que chega a ser “chato” e “antiquado” (como o Superman também era conhecido antigamente). Apesar do herói ser um símbolo do patriotismo norte-americano, é ele quem mais critica e se opõe ao governo dos EUA, como mostrado em todos os seus filme.

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O Homem de Ferro, desde o seu primeiro filme, recebeu uma personificação perfeita dos quadrinhos para o cinema, tanto no visual como na personalidade (com sua arrogância peculiar). Robert Downey Jr nasceu para esse papel, e ele também consegue ser um Batman muito melhor do que o do Snyder. Um órfão traumatizado que se esforça para se superar, que também luta para trazer justiça ao mundo.

Um cara que reconhece suas fraquezas e que se sente culpado e atormentado pela criação de Ultron, que matou milhares de pessoas, que se sente abalado ao ter uma mãe culpando-o pela morte do filho. Temos até um “Martha” ao contrário aqui, quando ele descobre que Bucky é o responsável pela morte dos pais e perde o controle, rendendo confrontos épicos de tirar o fôlego. Tony Stark é até um melhor detetive do que o Batman, já que descobriu a identidade do Homem-Aranha e quem está por trás da confusão toda.

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Isso sem falar da participação dos outros heróis, que não vou me prolongar em detalhes, com destaques para o Homem-Aranha, Homem Formiga e Pantera, simplesmente perfeitos em sua adaptação HQs/cinema – enquanto Zack Snyder derrapou bonito com apenas três personagens (nem vou citar Aquaman, Flash e Cyborg com suas aparições relâmpago). Até o vilão, que pouco aparece na tela, tem um contexto e motivações mais complexos e bem trabalhados do que o Lex Luthor de BvS.

O filme tem a mesma duração que BvS e consegue manter um ritmo dinâmico, com um roteiro e direção bem estruturados que conseguem equilibrar tensão, drama e diversão do começo ao fim, sem cansar o telespectador e sem doses exageradas. As cenas de ação são espetaculares (aquela do aeroporto é um dos melhores momentos da história do cinema), e diferente do rival, conseguimos acompanhar toda a ação e todos os personagens em movimentos, e de certa forma, quase estar ali, vivenciando aquelas lutas brutais e quebrando o pau pra valer, ao ponto de chegar no meio do Homem de Ferro e Capitão América e dizer “chega gente, já deu, vamos conversar“. Isso é emotivo, isso é humano, isso é o que melhor representa os heróis da Marvel nos quadrinhos e é isso que vemos no filme. Não tem como sair do filme sem um sorriso largo de satisfação do rosto.

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Conclusão

No final das contas, o que podemos aprender com essas duas super-produções é que há duas maneiras de se tratar um mesmo tema de filmes de super-heróis: relaxada ou realmente se esforçar para ser fiel ao material de origem. BvS tinha tudo para ser um dos filmes mais épicos e aclamados dos últimos tempos, mas ao invés disso temos um produto que dividiu opiniões e que não adaptou os maiores ícones da DC Comics como realmente mereciam. Já a Marvel tem a desculpa de estar mais tarimbada no negócio, afinal foram 12 filmes desde 2008 para chegar em “Guerra Civil”, com alguns erros e acertos, mas que valeram a pena e resultou em uma aula de adaptação e execução de como deve ser feito um filme de super-herói.

Gostaria muito de dizer que gostei de BvS, mas na realidade eu saí bem frustrado do cinema, porém como eu disse em minha análise, o filme tem seus pontos positivos, e não chega a ser aquela bomba atômica que muitos falam, tampouco é aquela maravilha que os fanboys pregam. Eu acho até que quem não acompanha o Batman e o Superman nos quadrinhos, vai gostar bastante do filme, mas sinceramente, gostaria que outro cara estivesse no comando do universo cinematográfica da DC, e não Zack Snyder.