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Sob a supervisão da Kojima Productions, a MercurySteam entregou Castlevania: Lords of Shadow, considerado o primeiro bom game tridimensional da série Castlevania. Apesar de deixar de lado vários dos elementos que a série assimilou para si desde Symphony of the Night, Lords of Shadow conseguiu capturar a essência narrativa da franquia e unir isso a um gameplay mais voltado a ação ao estilo God of War, fazendo do game o Castlevania com o maior número de unidades vendidas até então.

Com Castlevania: Mirror of Fate a MercurySteam tentou criar um game que unisse algumas das características usuais dos games bidimensionais da franquia com adições a ação no gameplay. O resultado é ambíguo, na melhor das hipóteses.

Para ler as análises da GameHall de ambos os games mencionados, basta clicar AQUI para Lords of Shadow e AQUI para Mirror of Fate. Nenhuma das duas análises foi escrita por esse colaborador que vos escreve.

Para finalizar a história de Gabriel Belmont, Lords of Shadow 2 foi anunciado com toda a pompa necessária. O trailer de divulgação prometia um game narrativamente tão épico quanto o primeiro, mas com uma urgência muito maior que outrora.

Se a MercurySteam conseguiu realizar um trabalho a altura de Castlevania sem a tutela da Kojima Productions, bem como se Lords of Shadow 2 consegue ser um game que além de ser tão bom quanto o primeiro, consegue terminar a história de Gabriel de maneira tão épica quanto o prometido, é o que veremos nessa análise.

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Após um tutorial empolgante em que o jogador controla Gabriel, agora Drácula, no ápice de seu poder, enquanto enfrenta uma horda de guerreiros da irmandade a qual uma vez o próprio integrou, é apresentada de maneira bem didática a história contada em Mirror of Fate. Isso é crucial para que o jogador compreenda de onde partirá o enredo de Lords of Shadow 2.

Já nos tempos atuais, Zobek procura seu “velho amigo” Gabriel Belmont, agora claramente abatido e enfraquecido devido a seu exílio, com notícias preocupantes: o retorno de Satã era eminente.

Ciente de que somente Gabriel poderia destruir Satã, Zobet sugere uma união em prol da recuperação dos poderes plenos de Gabriel e da destruição do poderoso inimigo em comum. Apesar das desconfianças para com Zobek, que já o traíra no passado, Gabriel aceita essa proposta.

Esse é basicamente o ponto de início da história de Lords of Shadows 2, que ao longo de seu prosseguimento contará com inúmeras revelações, plots twists, retornos de personagens e afins.

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Infelizmente o desenrolar da trama do game é confuso e monótono. A primeira metade do game é de um desenvolvimento inacreditavelmente lento, se focando muito mais na recuperação dos poderes de Gabriel do que no prosseguimento da história. Ademais é recheada de retornos de personagens que são ou dispensáveis, ou forçados.

Na segunda parte do jogo o enredo é bem melhor resolvido, tratando de fornecer ao jogador as respostas devidas, bem como desenvolver verdadeiramente o plot principal da história. Além disso, aqui se encontram os melhores easter eggs voltados aos fãs de longa data da franquia.

Algumas das escolhas de plot são no mínimo questionáveis. Porque diabos a equipe desenvolvedora achou que seria uma boa ideia basear algumas das justificativas de desenvolvimento de enredo em questões tecnológicas, envolvendo uma gigante corporação da atualidade, ao invés de se focar em explicações fantasiosas como o usual, é inexplicável. Talvez seja por boa parte do game se passar nos tempos modernos, mas ainda assim a única coisa certa aqui é que isso definitivamente não funcionou muito bem.

Não somente com relação ao desenvolvimento da história fica clara a superioridade da segunda metade do game ante a primeira, mas também com relação ao gameplay isso fica evidente, como será visto adiante.

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Lords of Shadow 2 basicamente possui três principais mecânicas de jogo: O sistema de combates, a exploração de cenários e as seções de stealth.

Assim como no primeiro jogo, a exploração nos cenários se dá pela procura de itens, upgrades e colecionáveis, bem como pelos momentos de progressão vertical que se dão pelas escaladas e afins. Apesar de o básico para com seu antecessor nesse sentido ser o mesmo, LotS2 ganha uma escala muito maior devido a agora os cenários serem abertos e incentivarem a livre exploração.

Ao mesmo tempo que isso é interessante, pois dá maior liberdade para o jogador, revela um dos grandes problemas do game como um todo: o quão sem criatividade são os cenários que se passam no presente.

Baseados em locais específicos da cidade moderna chamada Castlevania City (terrível, eu sei) e em um complexo industrial, os cenários que aí se passam são absolutamente insonsos e esquecíveis. Possuem uma direção de arte tão genérica e um game design tão arcaico que remetem a games de Playstation. Isso mesmo, o “primeirão”.

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Os cenários construídos para o passado, que se passam no castelo de Drácula, são muito melhores e mostram o que de melhor a exploração do game possui. O design é mais inspirado e a direção de arte é acertada e combina muito bem com o clima que um game Castlevania demanda, fazendo com que explorar tais áreas seja mais prazeroso.

Enquanto a exploração é incentivada pelo jogo, o mapa e as indicações de onde se deve ir a seguir são absolutamente confusas, o que pode culminar em se perder temporariamente ao longo da campanha. E isso com certeza não é legal.

As mecânicas de combate de Lords of Shadow 2 com certeza são o que de melhor o gameplay pode proporcionar, expandindo com competência tudo que já se conhece do game antecessor.

O sistema de Light e Shadow de LotS foi ampliado, cada qual agora possui sua arma específica, com funções em específico. A arma com a energia Shadow ativa é a de maior impacto, conseguindo quebrar defesas inimigas e causando maior dano, mas é mais lenta e de menor alcance que as demais. A arma com a energia Light ativa é a mais ágil e recupera o life a cada hit, mas é a que causa menor dano nos inimigos.

Cada arma possui seus usos específicos e situacionais ao longo da campanha, assim como cada qual possui seu sistema de evolução e upgrades próprios, o que incentiva o regular uso de todas. É claro que o clássico chicote está de volta, mesmo que não um chicote Belmont. O chicote é o que se pode chamar da arma neutra do game, possuindo também seus usos específicos ao longo do jogo, bem como evolução e upgrades próprios.

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Os combates são tão fluídos quanto no game anterior. É intuitivo trocar de arma, mesmo que no meio de combos. Os inimigos proporcionam um bom desafio, obrigando o jogador a sair do básico e descerebrado “mash button” e saber devidamente o que fazer em cada situação de perigo que lhe é apresentado.

A terceira das principais mecânicas de jogo é o stealth, também conhecido em Lords of Shadow 2 como tendão de aquiles. Essas seções conseguem ser além de muito mal executadas, narrativamente deslocadas.

Lineares e monótonas com certeza não são adjetivos que devam ser relacionados com stealth, em especial o primeiro deles. Infelizmente é exatamente isso que temos aqui. Todas as seções de Stealth em LotS2 são extremamente lineares, possuindo somente um modo de serem sobrepujadas. Além disso, em uma péssima escolha de design, os movimentos de Gabriel nessas seções são lentos e limitados, aumentando ainda mais a sensação de monotonia.

Durante o começo do game é até compreensível Gabriel se esgueirar pelas sombras, afinal ele está fraco e apático, entretanto a partir do momento em que o príncipe das trevas já possui boa parte de seus poderes recuperados, o fato de ele precisar se esconder de inimigos claramente mais fracos é narrativamente inexplicável.

Fica claro que a equipe de produção criou as seções de stealth para quebrar um pouco a ação dos combates, que é o foco do game. Entretanto a pobreza na execução disso, bem como a terrível dissonância ludonarrativa que elas causam, não possuem desculpas.

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Quase irretocável é o pacote audiovisual de Castlevania: Lords of Shadow 2. Quanto a isso há pouquíssimo do que reclamar.

A trilha sonora é incrível, mantendo a alta qualidade que a franquia está acostumada a oferecer. As músicas que dão o tom do período temporal do passado é o que já se viu em LotS, com trilhas clássicas impactantes, mesmo que não haja repaginações de trilhas de games anteriores. Destaque para as que se utilizam de pontuais vocais líricos. Para representar o período temporal moderno, trilhas com toques mais eletrônicos, ainda que belíssimas, dão o tom.

A dublagem é tão boa quanto o apresentado no primeiro game, com a mesma carga dramática pesada, que se à primeira vista parece forçada, é necessária para compor o clima que Castlevania sempre demandou.

Apesar de não haver dublagem em português, todos os menus do game foram localizados, bem como todas as falas ao longo da companha foram devidamente legendadas em nosso idioma.

Tecnicamente o visual de Lords of Shadow 2 é soberbo. Por certo um dos games mais belos da sétima geração de consoles. Artisticamente há ressalvas.

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Enquanto tudo o que envolve o período temporal do passado é de uma beleza artística inquestionável, trazendo de volta todo o estilo visual gótico que todo bom Castlevania deve trazer, o período temporal moderno não consegue se destacar, sendo mais do mesmo. Esse problema não se limita aos cenários, se estendendo ao design de personagens de inimigos próprios desse período temporal. Tudo muito genérico.

Quanto aos personagens principais, o design mantém o ótimo nível do game antecessor. Observe bem os detalhes do sobretudo de Gabriel e compreenda o quanto a equipe se dedicou em cada detalhe. É magnífico!

Destaque também para os menus do game, todos absolutamente belíssimos. O artwork dos profiles dos personagens apresentados no livro de Gabriel, que também serve como menu básico ao longo de todo o game, são lindíssimos.

O storytelling é conturbado. Em especial na primeira metade do game a história pouco avança e causa mais perguntas não intencionais do que resolve situações necessárias. Na verdade, muitas questões ficam sem resolução ou explicação, mas isso não influência em nada na compreensão do plot principal como um todo. Isso significa que tais questões não eram necessárias e somente lá estão para “encher linguiça”.

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A partir da metade do jogo a história começa a se desenrolar e cria interessantes resoluções para as situações principais do plot, encerrando o arco de Gabriel Belmont de maneira muito satisfatória.

É evidente também o quanto a segunda metade do game é melhor resolvida no que cerne a gameplay. A primeira metade possui muito mais seções de stealth e de explorações desnecessárias do cenário do que o restante do jogo e isso por si só já é um ponto negativo na comparação. Ademais a segunda parte do jogo possui os mais interessantes inimigos e chefes de toda a campanha, o que faz dela muito mais excitante ao jogador.

Fica claro que as aproximadas dezesseis horas de jogo de Lords of Shadow 2 não são equilibradas e uma vez que o plot realmente se desenvolve a contento somente na segunda metade, fica evidente que o game poderia ser menor e mais equilibrado tanto em gameplay quanto no desenvolvimento da história. Isso com certeza faria de LotS2 um game mais agradável.

É possível retornar ao jogo após se finalizar a campanha regular para coletar todos os colecionáveis, finalizar os upgrades de todas as armas e de status de Belmont e afins. Isso incentiva o replay, entretanto ao longo da exploração para tal poderá ser necessário enfrentar novamente boa parte das seções de stealth, o que é particularmente doloroso.

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