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Dia especial no reino de Guardia. Num cenário projetado com gráficos cheios de detalhes e esmerado com bastante empenho pelos designers da Square, balões e fogos de artifício recobriam a paisagem da Millennial Fair. O voo de pequenas gaivotas embelezava o ambiente, ornado também pelo movimento tranquilo das nuvens transparentes sobre o singelo mapa do game. Uma perfeita trilha sonora sugeria o clima de tranqüilidade no qual se encontrava o reino de Guardia do ano de 1000 A.D. Tudo começa quando a mãe vai ao quarto de Crono na tentativa de tirar-lhe da cama.

Tem início a história de um dos maiores RPGs dos videogames de 16 bit.

A SquareSoft queria caprichar de verdade. A ideia era criar um RPG no tradicional padrão japonês, mas que fosse a obra máxima da Square no console da Nintendo. Dito e feito. Em pouco tempo, a empresa que era famosa por seus grandes RPGs reuniu um time de craques na criação de jogos. O desenvolvimento de Chrono Trigger foi supervisionado por um grupo de profissionais que conferiu ao jogo a alcunha de “The Dream Team” (era esse o nome do Chrono Trigger durante seu desenvolvimento).

O game foi supervisionado por Hironobu Sakaguchi (famoso produtor da série Final Fantasy), Yuji Horii (diretor da série Dragon Quest), o character designer Akira Toriyama (de Dragon Ball e Dragon Quest), e Kazuhiko Aoki e Nobuo Uematsu (Final Fantasy). Outros profissionais dignos de menção que deram sua colaboração para a gênese deste grande game foram o compositor musical Yasunori Mitsuda, e o roteirista Masato Kato — ambos desconhecidos na época, mas que seriam consagrados futuramente com a criação dos famosos Xenogears e Xenosaga.

O resultado disso tudo? O sucesso foi grande. Milhões de unidades vendidas somente no Japão e uma legião de fãs leais em todo o mundo. Como em todo RPG japonês que se preza, o forte do jogo era o desenvolvimento dos personagens, mas era coberto também por um enredo interessantíssimo e de proporções épicas. Excelentes controles, sistema de batalha sólido (semelhante ao dos Final Fantasy’s da época), trilha sonora emocionante, personagens carismáticos e bem desenvolvidos, gráficos irretocáveis… Tudo colaborava para engrandecer a fama do game. Em face das excelentes vendas, a Square estava feliz da vida… E os jogadores também.

Aventuras no Espaço-Tempo

Os primeiros RPGs do Super Nintendo (e também alguns do Mega Drive) principiaram o estilo característico dos RPGs japoneses: situações engraçadas, personagens desenvolvidos de forma peculiar e de perfis exagerados… Esse tipo de coisa que faz tanto sucesso nas terras nipônicas. De lá pra cá, para evitar repetições do gênero (algumas um tanto inevitáveis) muitos RPGs tentaram estrear aspectos diferenciados. A verdade é que nem todos se sobressaíram nesse tipo de obrigação. Porém, no caso particular de Chrono Trigger, é possível dizer que o encargo foi mais do que bem cumprido.

O próprio enredo adicionava aspectos inéditos ao gameplay, como o fato de o jogador poder viajar no tempo por diferentes períodos e eras para mudar o curso do game. O jogador era convidado a viajar por um total de seis diferentes eras, no passado, presente e futuro.

No futuro, o mundo já havia sido devastado por Lavos, e os únicos humanos que restaram estavam famintos, fracos, feridos e sem esperanças (o futuro da humanidade depende de seu sucesso no game); no Presente, os cenários emanam uma atmosfera de paz e sossego, mas os habitantes de Guardia (celebrando na Millenial Fair) ignoram a proximidade do perigo; No passado (600 A.D.), os humanos enfrentam uma guerra contra monstros controlados pelo maligno “Prince of Darkness” — para ajudá-los, você deverá voltar ainda mais no tempo, para 65 milhões de anos B.C., na época dos dinossauros e homens das cavernas.

O game contava com um elenco sensacional. Além do protagonista de cabelos espetados, a história apresentava heróis célebres: Marle, a bela e radiante princesa do castelo de Guardia; o gênio científico Lucca, que acidentalmente manda a princesa de Guardia para o passado com sua nova invenção; o lendário cavaleiro Frog, amaldiçoado com a forma física de um sapo, mas um verdadeiro modelo para qualquer tipo de herói; Robô, aparentemente uma máquina velha e arruinada, mas com uma índole mais pura que a de muitos humanos; Ayla, uma exuberante guerreira do tempo das cavernas; e o terrível Magus, um dos chefes mais poderosos que você enfrentará no jogo, mas que curiosamente não permanece tão poderoso assim quando entra para a sua equipe.

Crono foi o jovem escolhido para salvar o mundo de sua devastação final, viajando pelo espaço-tempo na tentativa de parar os planos do terrível Lavos. No decorrer de sua jornada, você encontrará muitos personagens divertidos e marcantes. Alguns se tornarão aliados poderosos e leais, e outros apenas lhe darão pistas e dicas para prosseguir com o game. Fique atento para aquilo que eles têm a lhe dizer, e boa sorte na sua aventura.

Obra-Prima?

O que é necessário para que um jogo ganhe verdadeiramente o status de obra-prima? Uma história divertida e bem elaborada? Qualidade gráfica excepcional? Uma trilha sonora que amplia qualquer emoção transmitida pela história? Mecânica de jogo eficiente? Então acreditem: Chrono Trigger foi desenvolvido para ser tudo isso — e o resultado final da Square foi realmente afortunado.

O sistema de batalha de Chrono Trigger é muito parecido com o de jogos anteriores da série Final Fantasy. Durante a luta, seus personagens podem atacar ou usar magias alternadamente, além de usar “medicines” para recuperar a saúde e “ether” para reaver pontos de magia. A grande vantagem da mecânica de jogo é que não existem aqueles aborrecíveis combates aleatórios no mapa, de modo que você pode explorar o cenário confortavelmente, sem qualquer interrupção chata. Como não pudesse faltar, o jogo também tem um ótimo número de Mini-Games e Side Quests. Alguns exemplos podem ser vistos na Millennial Fair, ou naquela corrida contra “Jet Bike” no futuro.

Outra sacada divertida era o sistema de magias. Cada personagem (com exceção de Robo e Ayla) era especializado em magias de algum tipo de elemento. Crono usava “techs” de Relâmpago; Marle, de Água (além de também ser muito boa como healer); Lucca usava magias de Fogo; Frog era especializado em Água; e Magus (que geralmente tinha as magias mais legais) usava “Techs” do elemento “Shadow”. À medida que a sua equipe vai adquirindo novas “Techs”, alguns personagens poderão combinar suas magias, criando “Dual Techs” ou “Triple Techs”.

Após fechar o game, estará disponível um modo chamado “New Game +”. Com ele você pode recomeçar o game mantendo o mesmo nível e todo o equipamento que havia adquirido até o final do jogo. Experimente. Quem sabe assim você consegue chegar até o nível 100 e adquirir a última magia de Crono: “Lumarine”…

Os gráficos e as músicas eram simplesmente da melhor qualidade que o Super Nintendo era capaz de oferecer. O soundtrack do jogo, com toda a sinceridade, é um dos mais aprimorados que eu já ouvi em jogos de qualquer geração de consoles. O tema do Frog, por exemplo, tem uma qualidade musical das mais apuradas em termos de trilhas sonoras de jogos.

Aproveito para retomar agora a pergunta do início: “o que é necessário para que um jogo ganhe o status de obra-prima?”. Se Chrono Trigger não for um caso, então eu realmente não sei a resposta.