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Clair Obscure: Expedition 33 é a prova de que RPGs em turnos são atemporais?

Se te disseram que o gênero estava em declínio, pense de novo!

Se alguém te disse que os RPGs com batalhas em turnos tinham perdido a relevância, pense novamente! Afinal, o Clair Obscur: Expedition 33 veio “arregaçando” tudo e está com nada mais e nada menos que 12 nomeações para o prestigiado The Game Awards 2025, sendo a maior de toda a história da premiação.

Entre elas estão Jogo do Ano (GOTY), Melhor Direção de Jogo, Melhor Narrativa, Melhor Trilha Sonora e Música, Melhor Design de Áudio, Melhor Jogo Independente, Melhor Estreia Indie, Melhor RPG, Melhor Performance (para Charlie Cox, Jennifer English e Ben Starr).

Sucesso de público e crítica, o game já vendeu mais de 5 milhões de cópias, revitalizou o gênero JRPG (apesar de ser Francês), colocando-o de volta ao mainstream, já que agora ele era mais de nicho. A pergunta que fica é: por que este game é tão bem-sucedido? Isso que nós, do Gamehall, debateremos.

O “declínio” dos RPGs com batalhas em turnos

O gênero surgiu ainda nos anos 1980 e rapidamente chamou a atenção do público asiático, em especial o japonês. Durante a era dos videogames de 8 e 16 bits, o público ocidental não abraçava tanto o gênero, provavelmente fruto das diferenças culturais.

Afinal, os JRPGs tinham uma câmera “vista de cima”, os gráficos eram mais simples quando comparados a outros tipos de jogos, como os de plataforma ou beat’em ups, além de apresentarem histórias contadas por textos e batalhas com menus interativos. Muitos jogadores “do lado de cá” achavam o estilo monótono e até mesmo chato, já que as pessoas não tinham paciência para ficar treinando até avançar de nível.

Já o pessoal “do lado de lá” tinha uma visão diferente: esses games têm ênfase na narrativa, no desenvolvimento dos personagens, duração significativamente maior quando comparada à de outros títulos e funcionavam bem como uma “história interativa”, na qual embarcamos em uma aventura épica cheia de reviravoltas.

Por isso que games como Final Fantasy IV do Super Nintendo chegaram à impressionante marca de 500 mil cópias vendidas em um único dia no Japão, enquanto nos Estados Unidos não alcançaram o sucesso esperado, provavelmente não chegando a esse número ao longo dos anos.

Foi só com o lançamento de Pokémon no Game Boy em 1996 e também de Final Fantasy VII para PlayStation no ano seguinte que começamos a valorizar mais o gênero. Durante boa parte da década de 2000, ele se tornou um dos maiores sucessos comerciais. Afinal, com a evolução da tecnologia, era possível desenvolver títulos cada vez mais cinematográficos, e as cenas em CGI de Final Fantasy impressionavam a todos na época.

Com a ascensão de outros tipos de games, como mundo aberto, FPS e jogos cada vez mais interativos, o sistema tradicional acabou perdendo espaço, tornando-se mais um mercado de nicho. Ele nunca “morreu”, e todos os anos são lançados RPGs com batalhas em turnos — mas sem a mesma força de outrora. Muitos jogadores acreditaram que esse era o destino natural do gênero, mas Clair Obscur: Expedition 33 veio, deu uma “repaginada” em tudo e provou que esse estilo tão antigo de game ainda tem muito o que mostrar.

Clair Obscur Expedition 33 “mistura tudo” e cria algo novo!

O charme começa pelo próprio nome. “Clair Obscur”, pegada francesa, faz referência ao tal do chiaroscuro — aquele lance artístico de contraste entre luz e sombra que até quem não manja de pintura já viu em algum livro de escola.

E parece que os caras da Sandfall Interactive tomaram isso como filosofia: tudo no jogo vive nesse equilíbrio entre o belo e o sombrio. Cenários de Belle Époque com um toque dark, personagens cheios de dramas internos, escolhas difíceis… é aquele clima que deixa o jogador vidrado, igual quando a gente via um CG absurdo no PlayStation e pensava: “Mano… isso é um jogo MESMO?”.

Mas o ponto que mais fez a galera cair de queixo é o sistema de batalha. Sabe o combate clássico por turnos? Tá lá. Sabe a responsividade de ação moderna? Também tá lá. O jogo mistura as duas coisas como se fosse a coisa mais natural do mundo: você pensa, calcula, age e ainda precisa ter reflexo pra esquivar, aparar e mirar ataques especiais na hora exata. É como se pegassem o melhor do passado e dessem um turbo do futuro — e funciona tão bem que é impossível não lembrar da primeira vez que testamos um RPG que realmente tentava sair do padrão.

Fora que Clair Obscur: Expedition 33 é um título visivelmente feito para o sucesso, e sendo uma verdadeira “aula” de como fazer isso, sendo absolutamente bom em todos os pontos.

Direção de arte de cair o queixo, trilha sonora que arrepia, vozes intensas e aquela postura cinematográfica que faz a gente querer jogar “só mais dez minutinhos”. Resultado? Explosão total. Vendeu mais de cinco milhões de cópias, virou o maior lançamento de uma publicadora parceira no Game Pass em 2025 e acumulou elogios da imprensa do mundo inteiro. Crítico amou, fã amou, e até quem nem jogava RPG direito resolveu dar uma chance.

“O que é bom não sai de moda”

Esta é uma frase atribuída ao ator Ruben Aguirre, o professor Girafales do seriado “Chaves”, e essa é a maior lição que podemos aprender com o Clair Obscur: Expedition 33. No fim das contas, o objetivo de qualquer game é entreter o jogador, e isso é feito com maestria aqui.

O segredo de tanto sucesso está nesse equilíbrio de “respeitar o passado” do gênero, mas se recusando a viver nele. Os RPGs em turnos não são um sistema  “datado” como uma parcela dos jogadores defendiam até então, mas sim se ele repetisse, na íntegra, como eles eram nos anos 90 e 2000.

Ao mostrar que o velho e o novo podem coexistir de forma elegante, o jogo reacendeu o interesse do público e, de quebra, abriu as portas para uma nova onda de RPGs que entendem que tradição e inovação não precisam brigar. O sucesso estrondoso, as indicações históricas e o impacto cultural que causou mostram que existe, sim, espaço para jogos assim — desde que sejam feitos com visão, coragem e qualidade.

No fim, Clair Obscur: Expedition 33 revitaliza o gênero porque lembra todo mundo — desenvolvedores e jogadores — de uma verdade simples, mas poderosa: quando um game é bom de verdade, quando entrega emoção, desafio, identidade e personalidade, ele nunca perde relevância. Só estava esperando alguém trazê-lo de volta aos holofotes com o brilho que merece.

Victor Miller

Jornalista formado pela PUC-Rio e pós-graduado em Planejamento Estratégico de Mídias Sociais pelo SENAC Copacabana. Apaixonado por videogames desde a infância, ganhou destaque na internet com o Planeta Sonic e hoje é reconhecido como o “Rei dos Sonictubers” — título que abraça com gratidão, ainda que se considere apenas um mero mortal.
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