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Finalmente a aguardada adaptação hollywoodiana de “Ghost in the Shell” (para abreviar GitS – me recuso a usar o subtítulo em protuguês) chegou aos cinemas brasileiros, trazendo como protagonista a nossa musa geek Scarlett Johansson – escalação essa que gerou polêmica, mas que teve uma boa explicação no filme.

A expectativa, especialmente por parte dos fãs de anime/mangá e do material de origem que serviu de base para o filme é alta. Até hoje Hollywood nunca acertou a mão em adaptações desse maravilhoso mundo nipônico, mas posso afirmar a vocês que, sendo eu um próprio otaku, GitS é o primeiro passo para mudar de vez esse tabu!

O diretor Rupert Sanders, do tedioso “Branca de Neve e o Caçador”, era a maior incógnita desse projeto. “Estará ele à altura desse importante trabalho?“, perguntaram milhares de otakus apreensivos.

Felizmente, já nos primeiros minutos do filme, vemos que o cineasta fez o seu trabalho de casa e nos brinda com uma cena tirada diretamente do clássico anime de 1995 (e pode esperar por várias outras homenagens, easter eggs e fan services no decorrer do longa), quase como uma provocação para os críticos e haters que diziam que ele não conseguiria fazer um bom trabalho e pela escolha de uma atriz caucasiana.

A história, que pouco coisa mudou do original, nos apresenta Scarlett Johansson como a Major Mira Killian (Motoko Kusanagi no original), vítima de um ataque terrorista que tem o seu cérebro e sua “alma” (o Ghost do título e termo bastante usado na franquia) colocados dentro de um corpo biônico quase indestrutível – a “concha” (Shell) – que protege a sua “alma” -. Ela lidera um esquadrão de elite que investiga criminosos e extremistas mais perigosos, levando à perseguição de um misterioso hacker e posteriormente, a uma crise de consciência – mas alguém que é mais máquina do que humano pode ter uma consciência?.

Após vários anos interpretando a Viúva Negra nos filmes da Marvel, Johansson certamente está bem confortável e crível como a Major, que em certos aspectos pode ser considerada uma super-heroína chutadora de bundas, esbanjando habilidades atléticas e muita sensualidade – e sem perder o toque dramático e introspectivo que a personagem necessita (e pensar que a atriz começou a carreira com filmes bobinhos de comédia romântica).

Além dela, temos também excelentes performances do dinamarquês Pilou Asbaek como Batou, o braço direito da Major e segundo no comando do esquadrão, uma elegante (e francesa) Juliette Binoche como a cientista Ouelet, responsável pelo corpo biônico da protagonista e o sempre grande Takeshi Kitano, como o chefão do esquadrão Sector 9, que também brilha na tela – e que fala em japonês o filme inteiro. Sentiu a diversidade do elenco né?

O vilão Kuze, interpretado por Michael Pitt, não chega a ser um grande destaque, mas isso é compreensível já que o foco do filme é mostrar a jornada da Major renascida como uma ciborgue e todas as implicações dessa nova vida – o que poderia se perder com um vilão muito grandioso, como o Mestre dos Fantoches dos mangãs/animes. Mas ele também tem os seus bons momentos na tela.

No entanto, o filme não extrai todo o seu poder do excelente elenco, do roteiro ou mesmo das grandes cenas de ação, mas sim da sua incrível ambientação, que bebe da fonte do universo cyberpunk, um subgênero da ficção científica (e o mesmo dos mangás/animes), que conferem os pontos mais interessantes dessa adaptação.

Um verdadeiro espetáculo visual, o longa-metragem apresenta um futuro com alta tecnologia, mas com ambientes sujos e marginalizados, distanciado-se de produções modernas como Elysium (2013), que apostam em um futuro límpido e utópico – fãs da série de games Deus Ex certamente vão se sentir em casa com as semelhanças.

Apesar do aspecto sujo, Sanders espertamente utilizou muitas cores, luzes, hologramas e néons que dão um contraste visual muito interessante, seguindo o manual do clássico Blade Runner, para criar um universo que prende a nossa atenção em seus mínimos detalhes e com lindas fotografias. A trilha sonora, composta por temas orquestrais de Clint Mansell  e algumas músicas eletrônica retro wave dos anos 80, casam muito bem com a estética futurista e tecnológica do filme.

Infelizmente, nem tudo é perfeito. Sendo um filme de Hollywood com um polpudo orçamento de US$ 110 milhões, é possível perceber que não quiseram arriscar, especialmente no roteiro, que até tem algumas surpresas, mas nada muito ousado que pudesse gerar uma grande obra – como o fez recentemente Logan – leia nossa crítica.

Ao invés disso, temos alguns clichês, truques visuais e uma grande simplificação nas discussões filosóficas do tema orgânico vs artificial, um dos pontos altos da obra original, que poderiam ter tido um acabamento mais elaborado se o diretor fosse mais corajoso, mas que escolheu permanecer em um terreno simples e seguro.

Isso pode ser percebido principalmente na meia hora final do filme, onde uma série de informações são jogadas ao telespectador em um ritmo que não combina com o resto da produção, com um desfecho que parece ter sido feito às pressas e que poderia ser melhor trabalhado. Mas o resultado final é satisfatório, que fique claro. Eu pelo  menos saí bem satisfeito do cinema (que não tinha nem a metade da sala ocupada).

Mesmo assim, “Ghost in the Shell” certamente é um filme que vai agradar em cheio aos fãs da obra original, recheado de cenas memoráveis e homenagens aos mangás/animes, agraciado com um bom elenco, uma narrativa eficiente e um visual cyberpunk deslumbrante que eu recomendo ser apreciado em 3D em uma tela IMAX! No entanto, aqueles que gostariam de ver uma narrativa mais substancial, com uma maior abordagem na filosofia existencial, podem sair meio decepcionados. Na minha modesta opinião, pela primeira vez Hollywood está no caminho certo para as adaptações de anime/mangá.

Por fim, antes de você assistir ao filme nas telonas, faça um aquecimento e confira a nossa matéria com 10 Curiosidades de Ghost in the Shell!

NOTA: 9,0