Custo Brasil, Karl Marx, Joãozinho Trinta e o samba do P$4k doido

por The Eye of Providence

Desde que a Sony anunciou o PlayStation 4 pelo preço de R$ 3.999 aqui no Brasil, diversas especulações surgiram para explicar o motivo de um valor tão alto. Alguns dizem que é uma forma de protesto da empresa japonesa contra o Governo Federal, que não teria concedido uma isenção de impostos ao seu produto. Outros dizem que é apenas uma estratégia de publicidade, que visa monopolizar as atenções ao novo console em detrimento do Xbox One.

Porém, o Sr. Leonardo Rossatto nos apresenta uma tese um tanto quanto estapafúrdia. Segundo ele, o preço de R$ 4.000 é “graças à desigualdade social” (ahn?). Isso mesmo leitor, você não leu errado. Para poupar os leitores do GameHall, não linkarei esse texto aqui (digitem “desigualdade social” e “PlayStation 4” no Google que vocês acham), mas listarei vários trechos (no mínimo ingênuos):

“É simples: embora as multinacionais tentem justificar seus preços abusivos com a falácia do Custo Brasil (sim, ele realmente atrapalha, mas não é tão determinante assim), a questão é que no Brasil a maioria das empresas internacionais cobra preços abusivos por seus produtos, mesmo que eles tenham sido fabricados aqui. E essa tentativa de maximização de lucros dá certo por um único motivo: há um público específico que compra esses produtos, mesmo que eles custem preços abusivos”.

Mas é claro, 60% a 70% do preço da maioria dos aparelhos eletrônicos serem impostos realmente não é algo relevante. Quanto à segunda parte deste parágrafo, existe esse mesmo público específico nos EUA, mas lá eles pagarão US$ 400 no console. Próximo argumento, por que este não colou.

“Culturalmente a ideia de ascensão social no Brasil não se baseia na criação de uma poupança interna ou na qualidade de vida das famílias, mas na noção de consumo.”

Então quer dizer que se eu tiver R$ 10 milhões na poupança e não gastar um tostão, eu terei qualidade de vida? Ora, é claro que não é assim que funciona. Ter dinheiro na poupança é importante, mas as famílias só terão qualidade de vida a partir do momento em que usarem esta grana para consumirem produtos e serviços que aumentem seu bem-estar. Se tem gente que gasta dinheiro em futilidades e coisas inúteis (como livros do Karl Marx, por exemplo), é problema delas.

“As empresas sabem disso, e fazem produtos voltados a esse público que quer diferenciação. É o videogame de R$ 4 mil, o carro de R$ 100 mil, e é a eclosão de estabelecimentos “gourmet”, que oferecem produtos bem mais caros apenas porque o público que vai comprar não quer apenas o produto, e sim o status diferenciado que o consumo daquele produto confere. Karl Marx já falava disso há 150 anos atrás (quer imitar o Raul Seixas), com o nome de ‘fetiche da mercadoria’.”

Repito o que eu disse anteriormente. Há pessoas com condições e vontade de pagar mais por produtos e serviços mais caros (mesmo que eles sejam idênticos a outros mais baratos), e isto é problema delas. Aliás, não sei se o senhor sabe, mas grandes empresas fazem produtos para um público mais abastado como forma de obter mais recursos e investir na produção de mercadorias para pessoas com menos dinheiro (como estes capitalistas são malvadões, hein).

Calma que agora temos um estudo profundo, com riqueza de detalhes e números (o autor diz que esta é uma “conta tosca”. Concordo com ele):

“Suponhamos que 25% dos potenciais compradores de um PS4 compraria ele por qualquer preço, pelos fatores já elencados. E suponhamos que o custo para a Sony de um PS4 no Brasil seja de R$ 1500,00, já incluindo impostos, custo de transporte e pós-venda.
Se a Sony colocar o preço do PS4 a R$ 2000,00, por exemplo, quantos consoles ela precisaria vender para lucrar R$ 1 milhão?

A resposta é simples: R$ 1 milhão / R$ 500 de lucro por console = 2000 consoles.

Colocando o preço do PS4 a R$ 4000,00, a Sony precisaria vender quantos consoles para lucrar R$ 1 milhão?

Resposta: R$ 1 milhão / R$ 2500 de lucro por console = 400 consoles.

Se você dividir 400 por 2000, vai perceber que a Sony, quando pratica um preço abusivo, precisa vender APENAS 20% dos videogames para ter o mesmo lucro que teria se vendesse o console a um preço justo. E se a empresa sabe que 25% dos potenciais consumidores são fãs, tem dinheiro e vão comprar o Playstation 4 de qualquer jeito, ela prefere praticar o preço abusivo, porque isso vai resultar na maximização dos lucros da empresa, apesar da corrosão da sua imagem.”

Primeiro, de onde você tirou estes 25%? Está trabalhando na Sony? Se estiver, se importaria de comprar um PS4 com desconto para mim?

Você esqueceu um simples detalhe. A Sony pode até lucrar mais se vender menos consoles a um preço elevado, porém, ela perderá mais na frente. Com menos consoles no mercado, a empresa japonesa vai faturar menos com os games que ela mesma produz, seja em mídia física ou via PlayStation Network. É o que se chama em marketing de “produto cativo ou complementar”. Fácil de entender, não?

“Ou seja: a desigualdade social e a existência desse grupo privilegiado faz com que seja justificável, para a Sony, praticar preços abusivos no Brasil. Assim como é justificável para a Apple, para as montadoras ou para as incorporadoras imobiliárias. Nos EUA e na Europa, em que a massa de consumidores médios é maior e tem mais noção do custo e da margem de lucro embutida nos produtos, a tentativa de maximização dos lucros pelo aumento dos preços, minimizando a massa consumidora, é um enorme tiro no pé.”

Está errado de novo. Nos EUA e na Europa, existe uma coisa chamada “livre mercado”. Graças a ele, existe concorrência, que obriga as empresas a reduzirem custos e oferecerem produtos mais baratos para terem sucesso. Só que aqui no Brasil, o livre mercado é praticamente impossível graças, a burocracia e altos impostos (fator que você julga irrelevante), que limitam o surgimento de novas empresas e restringem o mercado a um número limitado de corporações.

“No Brasil, por ainda existir uma elite bastante representativa em relação ao universo de potenciais consumidores desse tipo de produto, as empresas praticam preços abusivos. É lógico que outros fatores também contribuem negativamente, como a infraestrutura de transportes do país, predominantemente rodoviária, e a alta carga de impostos. Mas nem de longe explicam a viabilidade de empresas como a Sony praticarem preços abusivos no Brasil e ainda assim lucrarem. O que explica isso, além do fetiche da mercadoria, é a desigualdade social.”

Falar em “fetiche da mercadoria” e “desigualdade social” é apenas um palpite, assim como os que foram apontados no primeiro parágrafo deste artigo. Até penso que pode ser uma estratégia de marketing para deixar o PS4 em evidência na mídia, mas é só um palpite. Pode ser apenas uma estratégia errada adotada pelos dirigentes da Sony, algo que pode ser mudado em breve diante do feedback negativo. No entanto, ninguém é obrigado a comprar um PS4 por R$ 4 mil. E a Sony também não é obrigada a vendê-lo por um preço baixo. O mercado vai responder quem está certo nesta história.

Falar que as pessoas comprarão o PlayStation 4 por este preço por conta de “fanatismo e status social” é um grande preconceito, pois pressupõe que o brasileiro não tem condição de administrar seu próprio dinheiro. Leonardo Rossatto, não seja ingênuo. Todos nós queremos ter bons produtos em casa. Como dizia o saudoso Joãozinho Trinta, “quem gosta de pobre é intelectual. Pobre gosta de luxo”.

Redação

Fundador do GameHall e produtor do programa Versus.

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