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Delic: o Survival Horror brasileiro que quer redefinir o terror nacional

Brasil também desponta em jogos de Terror

O cenário brasileiro de jogos eletrônicos está vivendo um momento de virada. E entre tantos títulos independentes surgindo na cena, poucos têm provocado tanto burburinho quanto Delic, o novo survival horror em terceira pessoa da Nuncnox Studios, publicado pela Cyberpunk Works. O jogo ainda não tem data de lançamento, mas a demo disponível no Steam já deixou claro que estamos diante de um projeto ambicioso, culturalmente profundo e tecnicamente impressionante, ambientado no coração do interior do Piauí.

Delic não quer ser “mais um jogo de terror”. Ele quer ser o jogo que finalmente mostra o Brasil real, com suas paisagens, crenças, contradições e sua história — inclusive a parte que muitos preferem não revisitar. Em vez de cidades góticas, mansões vitorianas ou pequenas cidades americanas, aqui o horror nasce de um Brasil que poucos fora dali conhecem, mas que muitos reconhecerão pelo cheiro de chão quente, pela poeira do sertão e pelo silêncio pesado das noites do Nordeste.

A Neblina que Engole Ibaparé em Delic

A premissa de Delic já começa com o pé no acelerador. Uma estranha neblina invade a cidade de Ibaparé — uma cidade fictícia, mas inspirada fielmente nas localidades do interior do Piauí — e, a partir daí, acontecimentos inexplicáveis começam a se multiplicar. A população muda. Os olhares ficam vazios. As ações tornam-se imprevisíveis. Algo profundamente errado desperta no lugar.

É nesse cenário que surge Helena, estudante que retorna à sua terra natal sem imaginar que encontrará um verdadeiro pesadelo. A protagonista, longe de ser uma heroína treinada, precisa enfrentar moradores transformados, entender o que está acontecendo e, principalmente, descobrir por que as autoridades não demonstram qualquer interesse em intervir na situação.

O jogo reforça que alguns legados históricos, especialmente aqueles que remontam aos períodos pré-colonial e colonial do Brasil, podem ser perigosos demais para continuar existindo. E talvez essa neblina não seja apenas um fenômeno atmosférico — mas um eco de algo mais antigo, mais profundo e mais esquecido do que qualquer um imagina.

Uma das grandes forças de Delic é o compromisso da Nuncnox em representar o interior do Brasil da forma mais fiel possível. A estética é totalmente 3D, com cenários detalhados, modelagem consistente e uma iluminação que captura o clima seco, quente e silencioso das cidades do sertão. Não há caricatura nem exagero: existe um respeito profundo pela cultura local.

A equipe afirma ter tratado o roteiro e o embasamento histórico “com muito carinho”, respeitando o delineamento temporal, as referências reais e a forma como a cultura nordestina se manifesta no cotidiano. É uma mistura de realidade com imaginação, mas sempre com um olhar cuidadoso para não transformar as raízes culturais em mero pano de fundo.

Esse compromisso vai desde a arquitetura das casas até objetos icônicos, passando pelo comportamento dos moradores e a geografia das pequenas cidades. O programador-chefe, que cresceu na Bahia e viajou por todo o Nordeste, ajudou a trazer autenticidade e sensibilidade à construção do mundo.

Jogabilidade: Arcade, Realismo e Sobrevivência na Medida Certa

Delic começa com uma pegada arcade, mas a Nuncnox tem deixado claro que o objetivo é construir uma experiência cada vez mais realista, sem sacrificar o ritmo do jogo. A ideia é unir mecânicas diretas com sistemas que reforçam o desespero e a vulnerabilidade — elementos essenciais em um bom survival horror.

A versão beta apresentou:

• Combate ágil
• Inimigos variados
• Mapas bem balanceados
• Armas de fogo e combate melee
• Elementos de stealth
• Ritmo de tensão crescente

A equipe enfatiza que não pretende lotar o mapa com inimigos fracos, nem deixá-lo vazio demais. O objetivo é um equilíbrio inteligente, onde cada encontro seja significativo. Outro ponto importante é que o excesso de munição visto na demo foi proposital — apenas para teste. A versão final terá uma escassez pensada para reforçar o clima de desespero.

Eis o tipo de filosofia que mostra que Delic não quer apenas assustar: quer pressionar o jogador psicologicamente, como os grandes nomes do gênero sempre fizeram.

A história de Delic promete ser um dos seus grandes diferenciais. O estúdio não quer fazer plot twists malucos nem exageros cinematográficos. O foco é na profundidade emocional, na construção de um mundo coerente e na abordagem de temas extremamente atuais — assuntos sociais, históricos e culturais que conversam com o Brasil de 2025.

A equipe deixa claro: não é uma história trivial. E o silêncio dos desenvolvedores quanto aos detalhes não é medo de revelar spoilers. É confiança de que a experiência completa será recompensadora para o jogador que gosta de imersão, contexto e significado.

Nuncnox Studios: Uma Equipe que Respira Criatividade

A Nuncnox se apresenta como um estúdio formado por apaixonados por narrativas e pela vontade de criar jogos sem limitações criativas. Mesmo reconhecendo as dificuldades de produzir games no Brasil, eles deixam claro que possuem um compromisso forte com a comunidade e com a transparência.

Hoje, o estúdio conta com aproximadamente 10 desenvolvedores, com planos de expansão. A logo, que carrega elementos como o luar e um céu estrelado, representa o espírito da equipe: criatividade noturna, dedicação e um olhar atento ao que o Brasil tem de mais simbólico.

O time também reforça como é importante manter canais de comunicação abertos para feedback da comunidade, algo essencial para um projeto indie desse porte.

O que torna Delic especial não é apenas sua estética, sua ambientação ou sua jogabilidade. É o fato de ser um jogo que abraça o Brasil, sem medo, sem vergonha e sem estereótipos. É uma obra que quer representar a cultura, a história e o horror que nasce das nossas próprias raízes. Não tenta copiar, tenta existir.

Se cumprir tudo o que promete, Delic tem potencial para entrar para a história como um dos maiores survivals brasileiros já produzidos — e talvez um dos jogos nacionais mais importantes da década.

Victor Miller

Jornalista formado pela PUC-Rio e pós-graduado em Planejamento Estratégico de Mídias Sociais pelo SENAC Copacabana. Apaixonado por videogames desde a infância, ganhou destaque na internet com o Planeta Sonic e hoje é reconhecido como o “Rei dos Sonictubers” — título que abraça com gratidão, ainda que se considere apenas um mero mortal.
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