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A série do Demolidor, um dos heróis clássicos da editora Marvel mas que nunca teve um alto status na cultura pop como outros personagens como Homem-Aranha, Batman ou Super-Homem, parece ter conquistado o público e a crítica especializada, com um bom nível de aceitação com os seus 13 episódios já disponível no Netflix (leia aqui nossas impressões iniciais da série). Esqueçam o filme do Affleck!

E aproveitando essa repercussão toda que o personagem vem recebendo, o Gamehall traz para os seus leitores uma retrospectiva da melhor fase do “diabo vermelho” nos quadrinhos: a era Frank Miller, que culminou num dos maiores clássicos da história das HQs: “A Queda de Murdock” (Born Again, no original), que certamente receberá uma adaptação na série.

O nascimento

Mas antes, uma breve releitura do herói para situar o leitor que não o acompanha nos quadrinhos. O Demolidor teve dois nascimentos, o primeiro em 1964, pelas mão de Stan Lee e Bill Everett e foi um dos últimos alicerces/heróis principais criados pela Marvel Comics, sendo que durantes os anos 60 suas histórias vendiam razoavelmente bem. Como já era de praxe, Stan Lee criou um personagem o mais realista possível, com quem as pessoas podiam se identificar ao ler, ao contrário dos heróis alienígenas e super-poderosos que vinham da DC Comics.

gibi #1 do Demolidor, que originalmente tinha o uniforme amarelo e vermelho (durou poucas edições)

Matt Murdock é um advogado que teve uma infância pobre e sofrida, abandonado pela mãe e sendo cuidado pelo pai, um boxeador em decadência que foi morto ao recusar “entregar” uma luta. Matt ficou cego na adolescência devido a um acidente com um caminhão que carregava lixo tóxico.

Em compensação, descobriu que seus outros sentidos haviam sido ampliados várias vezes (bem mais do um cego “normal”), graças aos produtos químicos radioativos. Ele pode ler as letras sem ser em braile, identificar pessoas e odores distintos pelo olfato, seu paladar consegue analisar produtos em alto nível, como dizer exatamente quantos grãos de açúcar existem em uma rosquinha, sua audição consegue ouvir um mosquito a quilômetros de distância ou ouvir os batimentos cardíacos de uma pessoa, sabendo dizer se ela está mentindo ou não, entre outras coisas relacionadas aos seus sentidos.

o jovem diabinho e seu pai Jack “Batalhador” Murdock

E apesar de não possuir a visão, ele conta com uma espécie de radar (como a dos morcegos), e com seus outros sentidos ele consegue “sentir” o mundo a sua volta, o que lhe permite uma movimentação ousada e acrobática no cenário urbano, apesar de apenas “enxergar” vultos e formas, o que lhe valeu o apelido de “O Homem Sem Medo“. Nada de super-força, sua agilidade e técnicas de luta são frutos de um árduo treinamento.

Durante os anos 70 o personagem passou por uma queda brusca no interesse dos leitores, com diversas mudanças na sua equipe criativa e com histórias fracas. As coisas só começaram a melhorar no final dos anos 70 com o roteirista Roger McKenzie, que levou o herói para um lado mais sério, sombrio e pesado – inclusive teve sua identidade secreta descoberta pelo jornalista Ben Ulrich (personagem criado por McKenzie).

Foggy, Karen e Matt nos dramas humanos (triângulo amoroso) de Stan Lee

Isso ia servir de embrião para o seu segundo nascimento pelas mãos do agora renomado Frank Miller, que assumiu a revista que estava prestes a ser cancelada por causa das baixas vendas. Assim, um jovem Miller de apenas 23 anos de idade teve a grande chance de sua vida e resolveu apostar tudo reformulando o Demolidor, numa tentativa de torná-lo atraente aos leitores novamente. Missão cumprida!

O Renascimento

Miller deu novo gás às histórias do herói, ambientadas no submundo de Nova York (no bairro Cozinha do Inferno), em que Murdock e seu alter-ego conviviam com mendigos, bandidos, drogados, psicopatas, mafiosos, assassinos e prostitutas, num universo bem realista e assustador – fórmula que ele viria a repetir anos depois em “Batman: Cavaleiro das Trevas“.

Miller reestruturou a origem do Demolidor e inseriu o misterioso treinador Stick

Miller modificou as origens do Demolidor, transformando-o em um habilidoso ninja que foi treinado por Stick, um velho também cego. O Mercenário, arqui-inimigo do herói, passou a ser um louco homicida, surge a ninja Elektra como um antigo amor de Murdock (e que teve uma das mortes mais chocantes na história dos quadrinhos), o Rei do Crime, clássico vilão do Homem-Aranha, é colocado como principal nemesis de Matt Murdock/Demolidor (que ficou mais inteligente, estrategista e sombrio). E assim, Miller reescreveu completamente o herói, que já tinha 17 anos de existência, formando a base do Demolidor que conhecemos hoje em dia.

também introduziu a personagem Elektra, que assassinou sem dó em um dos momentos icônicos das HQs

Em 1983 Miller larga o Demolidor para fazer outros trabalhos (a minissérie de sucesso Ronin), voltando apenas em 1986 para o que é considerado por muitos fãs a melhor história do Demolidor até hoje: A Queda de Murdock.

Junto com David Mazzucchelli nos desenhos, Miller voltou para mais uma vez virar de cabeça para baixo o mundo de Murdock. Nesta memorável série, Karen Page, uma ex-namorada de Murdock, retorna como uma ex-atriz pornô e viciada em drogas, que vende a identidade secreta do Demolidor a um traficante por uma dose de heroína, e a informação, é claro, acaba caindo nas mãos de Wilson Fisk, o Rei do Crime.

Miller deixou Demolidor psicótico

Provavelmente depois da traumática morte de Gwen Stacy (namorada do Homem-Aranha) nos anos 70, essa é uma das narrativas mais sombrias que um herói de grande destaque de uma editora teve que passar, até então. A vida de Murdock é destruída, ele mergulha de cabeça no submundo da Cozinha do Inferno e ele precisa enfrentar seus demônios interiores para reencontrar suas próprias forças para se reerguer.

A ironia é que, apesar de Miller levar o personagem para o fundo do poço, o herói desfrutava do seu ponto mais alto da sua carreira editorial. Magnificamente desenhada por David Mazzuchelli, com traços realistas e roteirizada de forma genial e revolucionária por Miller, esta saga ficou marcada na memória dos admiradores de quadrinhos, tendo seus conceitos copiados por outros personagens conhecidos, como Batman e Justiceiro.

Demolidor: A Queda de Murdock – um dos maiores clássicos dos quadrinhos que definiu o personagem

Após essa saga, Miller mais uma vez deixou o Demolidor para fazer outros trabalhos e o personagem passou pelas mãos de vários autores, que continuaram o seu trabalho, porém sem o mesmo brilhantismo, o que resultou no cancelamento da sua revista pouco depois de atingir a marca de 300 edições, e relançado com um novo número 1, pelo selo Marvel Knights, voltando a obter sucesso.

Frank Miller ainda voltou a trabalhar com o personagem em 1993, desta vez ao lado de John Romita Jr (ou Romitinha para os íntimos) para recontar a origem do Demolidor em uma minissérie de cinco edições batizada simplesmente de “Demolidor: O Homem Sem Medo“, que é considerada a história definitiva de origem do herói.

Demolidor: O Homem Sem Medo – a origem definitiva

E com isso chegamos ao fim do nosso especial Demolidor – A Era Frank Miller, que redefiniu o herói como o “Batman da Marvel” (ou seria o morcegão o “Demolidor da DC”?), fase essa a principal abordada pela série da Netflix, que se seguir a cartilha de Frank Miller, ainda nos promete momentos inesquecíveis em frente da televisão.

Se você curtiu assistir o herói cego no Netflix, nós mais do que recomendamos que leia a fase Frank Miller nos quadrinhos acima citada, você não vai se arrepender!