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Diego Matheus/Tumulto Comunicação

Inaugurado na última terça-feira (7), em Vigário Geral, o AfroGames é o primeiro centro de treinamento de games e esports sediado em uma favela. O projeto foi idealizado pelo grupo AfroReggae e tem como principal objetivo formar profissionais para trabalhar não só com League of Legends, mas também com programação e produção musical em games. Fechando o pacote, os alunos também terão aulas de inglês, tudo de forma gratuita. O projeto conta com uma estrutura de ponta e localiza-se no Centro Cultural Wally Salomão.

Empresário do mundo da música e um dos principais nomes envolvidos no AfroGames, Ricardo Chantilly concedeu uma entrevista exclusiva ao GameHall, onde revelou detalhes sobre a sua chegada nos esportes eletrônicos, os planos de expansão do AfroGames para outras favelas ao redor do país, as dificuldades que lidou durante a fase de desenvolvimento do projeto e a possibilidade de formar um time com as “crias da base”.

AfroGames é o primeiro centro de treinamento de esports na favela (Diego Matheus/Tumulto Comunicação)

Como você conheceu o esporte eletrônico e como surgiu a ideia de fazer um projeto para que o esport se tornasse próximo dos menos favorecidos?

Ricardo Chantilly: Tudo começou quando a Bruna Alvarenga veio trabalhar com a gente aqui no escritório (da Kappamakki) e nos apresentou o universo dos games. Na época, ela mostrou a equipe de Dota, da SG, que tinha se classificado para disputar um campeonato Major, em Kiev. Eu sou do mercado da música a muitos anos e aqui no escritório já trabalhamos com inúmeros artistas brasileiros (O Rappa, Jota Quest, Los Hermanos, Tribalistas, Gabi Amarantos, entre outros). Quando ela apresentou esse universo, nós entendemos que os games fazem parte do entretenimento e da cultura jovem, e que precisávamos nos atualizar e explorar esse mercado. Porém, não queríamos fazer o que todo mundo faz, que é criar um campeonato ou montar uma organização, entendemos que não seria esse o caminho e com isso precisaríamos pesquisar mais.

Pouco tempo depois, eu e o Simon, meu sócio, viajamos para Seattle, como convidados da Valve, e assistimos o The Internacional. Foi então que me veio à cabeça o seguinte questionamento: “Como se forma um jogador? Não existe escolinha né? Como você “peneira” esses caras?”. Para você ver como são as coincidências da vida, quando eu retornei de viagem, recebi uma ligação do José Junior, com uma proposta para que eu assumisse a parte musical do AfroReggae e ficasse responsável pelos estúdios e tudo mais. Foi então que eu falei para ele: “Junior, que música o “caçamba”, vamos para os games agora”. Fiz uma apresentação para ele, mostrei campeonatos, números, todo o mercado, e quando terminou, ele me olhou e questionou: “Chantilly, eu não vi um negro jogando em todos esses vídeos aí, nem mesmo na plateia direito”. Eu consenti, talvez existisse um ou dois, mas era um número ínfimo, e então, partindo dessa discussão, surgiu a ideia do AfroGames.

Chantilly (esquerda) e José Junior (direita) na inauguração do AfroGames (Diego Matheus/Tumulto Comunicação)

O projeto de vocês foi bem abraçado pela comunidade e surgiu um questionamento entre os mais engajados: vocês pretendem expandir o AfroGames para outras partes do país?

Sim, nós temos a pretensão de expandir o projeto, inclusive, já abrimos uma conversa com um grupo de São Paulo. Inicialmente, o primeiro centro de treinamento seria em SP, estava mais adiantado, mas preferimos demorar mais um pouco e inaugurar primeiramente na sede do AfroReggae, em Vigário Geral. Pretendemos levar o projeto para várias favelas de outros estados.

Qual a maior dificuldade de desenvolver uma iniciativa do tamanho do AfroGames?

A maior dificuldade foi a não-compreensão dos patrocinadores e da comunidade como um todo, que não compreenderam o tamanho do que queríamos fazer. Eu fui na BGS no ano passado e conversei com representantes de várias empresas, mas ninguém me apoiou, por alguns eu até fui maltratado (risos), todos meio que desdenharam do projeto. Somente a HyperX se mostrou parceira, veio e apoiou. Eles estão dando um apoio muito forte, não só com os equipamentos, mas com orientação, realmente se jogaram de cabeça no projeto. A maior dificuldade foi por ser inédito, mas acredito que não exista mais isso hoje e todos têm ideia do tamanho do nosso projeto.

Parceira de diversas equipes ao redor do mundo, a HyperX equipou todo o centro de treinamento do AfroGames (Diego Matheus/Tumulto Comunicação)

Existe a possibilidade de futuramente vocês se jogarem no cenário com um time profissional formado da própria base?

Sim (existe a possibilidade). Esse é um dos três objetivos que colocamos em pauta quando montamos o projeto. O primeiro era entregar um centro de inclusão digital, que foi o que inauguramos na última terça. O segundo passo é montar um time profissional no final desse ano ou no início do ano que vem, juntando cinco ou mais jogadores, quem sabe. O terceiro passo é firmar o AfroGames como um grande “celeiro” de jogadores para o Brasil e o mundo, queremos que o AfroGames tenha o primeiro time formado dentro de uma favela no mundo.

É muito legal toda essa iniciativa e estamos todos muito felizes porque fizemos um projeto de games e esports inédito no mundo, não existe nada igual. Pode ser que existam pequenas salas, mas um centro de treinamento a nível do nosso, com todo o cuidado e qualidade, é o primeiro no mundo, e dentro de uma favela real, não é aquelas que passam na “novela das oito” não (risos), ela está lá com todos os problemas e dificuldades que todas as favelas possuem. Como eu citei no início, o nosso objetivo é chegar nas mais variadas favelas e dar cada vez mais oportunidades aos jovens, que podem vir a ser, ou já são, grandes jogadores, mas não teriam oportunidades por não ter acesso a esse nível de equipamento. Em breve, se Deus quiser, o “AfroGames time” estará arrebentando pelo Brasil e pelo mundo.

Dando oportunidade aos jovens da favela, AfroGames tem o objetivo de formar novos atletas para o cenário (Diego Matheus/Tumulto Comunicação)