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Hayao Miyazaki – ídolo japonês da animação não curtia tanto assim o Ocidente

Se você gosta de animes (animação japonesa), certamente já deve ter ouvido o nome de Hayao Miyazaki, uma das maiores autoridades sobre o assunto e que já nos presenteou com diversas obras-primas como “Meu Amigo Totoro“, “Princesa Mononoke“, “A Viagem de Chihiro“, “O Castelo Animado” e mais recentemente “As Asas do Vento“.

Como todo gênio, Miyazaki tem suas excentricidades como a de nunca assistir televisão (não tem nem aparelho DVD), não usar computador (nem para mandar emails, ele manda carta escrita à mão mesmo) ou de falar o que pensa, como a vez em que disse que usar um iPad é como uma masturbação (?!) ou a outra em que disse que odiava usar carros porque eles eram americanos. Mas como assim?

Uma imagem (abaixo) recentemente veio à tona na internet (via Kotaku) que apresenta parte de um ensaio escrito à mão por Miyazaki, que aparentemente tinha como tema automóveis e auto-escolas, e que parece explicar um pouco o seu ressentimento em relação ao Ocidente/EUA.

Miyazaki solta os cachorros contra os EUA

Confira abaixo uma tradução da escrita:

Eu não gosto dos Estados Unidos, que retirou as bombas nucleares e não se arrepende, eu sou contra o Conselho de Segurança das Nações Unidas, contra aliança neutra e contra a americanização, então, obviamente, eu não tenho interesse em dirigir um automóvel.

Eu odeio as pessoas que estão orgulhosas dos carros japoneses baratos que são populares nos Estados Unidos, e eu olho para pessoas que vestem estampas do Exército e da Força Aérea dos Estados Unidos, que encheu o Vietnã com dioxinas, então eu sou contra a motorização. Então, por que um homem como esse deve andar em um automóvel?

Quando a barriga da minha esposa começou a crescer o meu eu jovem acreditou que, como um marido, era meu dever de carregar o mesmo peso. Então eu decidi que, mesmo não sabendo se era um menino ou uma menina (uma vez que não tinha nascido ainda), para levar o meu filho para a escola maternal, eu iria para a auto-escola, um lugar que ainda me dá arrepios de lembrar. Todas as escolas de condução devem queimar até o chão!

Minha esposa passou por uma provação com um parto difícil, mas foi um parto igualmente difícil para mim …” (a imagem corta aqui).

Esse ensaio é um relato de como Miyazaki aprendeu a dirigir, mas sua configuração, escrito no tempo presente (na época) parece mostrar um pouco de ressentimento em relação ao Ocidente, especialmente aos EUA.

Enquanto uma conexão clara está faltando no texto, a implicação é que Miyazaki odiava carros porque eles eram uma invenção americana. Ele também descreve com raiva de sua versão mais jovem por ter feito a auto-escola, que pelo jeito deve ter sido uma experiência infernal.

“anti-qualquer-coisa-dos-eua”

Em seu desenho, no canto superior direito, há várias frases anti-ocidentais como “anti-jeans”, “anti-bourbon”, “anti-hambúrgueres”, “viva o suteteko [vestimenta masculina japonesa], foda-se as cuecas”, “anti-frango frito, anti-coca-cola, anti- café americano”, “anti-nova york”, “anti-west coast, Disneylândia e voltar para a América”. A imagem no canto inferior esquerdo apresenta um jovem e irritado Miyazaki na auto-escola discutindo com seu instrutor quando aprendia a dirigir.

“porra, dirige direito aí Miyazaki!”

Mas pera aí, o cara detonou até a Disney, que é a distribuidora das suas animações no ocidente (desde 1996). Bom, nota-se que o ensaio é antigo e foi escrito por um Miyazaki mais jovem do que esse contemporâneo que parece conviver muito bem com a Disney. Essa imagem, aparentemente faz parte do livro “Hayao Miayazi Image Board Collection” (informação não confirmada já que o livro é bastante raro), que foi publicado em 1983 (no caso ele teria 36 anos, hoje ele tem 74).

Obviamente, muita coisa aconteceu nesses mais de 30 anos e Miyazaki ou mudou a sua posição desde então, ou aprendeu a conviver como as coisas são e ir com o fluxo – ou o seu Studio Ghibli, fundado em 1985, não teria a relação com a Disney que tem hoje.

Princess Mononoke foi o primeiro longa-metragem de Miyazaki distribuído internacionalmente pela Disney em 1999 (no Japão estreou em 1997)

Esse “desabafo” de Miyazaki é bem interessante, pois nos revela um lado seu que certamente muitos dos seus fãs desconhecem. Vale lembrar que esse rancor vem desde a sua conturbada infância pós Segunda Guerra Mundial, em que os EUA bombardearam o Japão, e com sua mãe sofrendo de uma grave doença, que a deixou de cama por nove anos (seu pai trabalhava em uma fábrica de aviões, o que explica os vários tipos de aeronaves presentes em suas animações). Nos anos 70, já trabalhando como animador para a Toei, Miyazaki fez muitas viagens ao exterior, mas foi apenas em 1984 que conquistaria a fama (ao menos no Japão) com o clássico “Nausicaä do Vale do Vento“.

Nausicaä foi o primeiro sucesso de Miyazaki que permitu abrir o seu próprio estúdio de animação, em 1984

Até esse momento, Miyazaki teve um vida difícil, já casado com dois filhos, uma mãe doente (que faleceu em 1983) e ganhando uma miséria. O seu ensaio enraivecido desse ser justamente dessa época, quando seu Studio Ghibli ainda estava dando os seus primeiros passos e tinha um futuro incerto.

Mas não importa se ele odeia os EUA/Ocidente ou suas excentricidades como pessoa, o que importa é que o cara faz animações espetaculares, com temas da relação da humanidade com a natureza e a tecnologia (que ele parece odiar), sempre com fortes críticas morais e lições de vida éticas e pacifistas, que encantam não apenas crianças, mas também adultos no mundo todo. E é esse legado que ele deixará para a história.

Além disso, Miyazaki possui um carro hoje em dia, um Citroen C4. Um carro francês…

Márcio Pacheco

Márcio Alexsandro Pacheco - Jornalista de games, cultura pop e nerdices em geral. Me add nas redes sociais (links abaixo):

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