Quando o jogo te odeia de volta… e você entende o motivo…
Tem jogo que te pega pela mão. Tem jogo que te explica tudo com setinhas, tutoriais fofos e mensagens do tipo “não se preocupe, você consegue!”. I Hate This Place faz o exato oposto: ele te empurra num mato estranho, olha nos seus olhos e diz, com toda a sinceridade do mundo: “se vira.”
E olha… o título não mente. Nem um pouco.
Baseado na graphic novel homônima publicada pela Skybound, I Hate This Place não quer ser confortável, não quer ser amigável e definitivamente não quer ser amado por todo mundo. Ele quer ser coerente. Hostil. Desagradável. E, dentro dessa proposta, ele acerta mais do que erra — mesmo tropeçando feio em alguns momentos.
Um lugar que não quer você ali (e faz questão de mostrar)
Desde os primeiros minutos, eu percebi que esse não seria um survival horror comum. Nada de introdução cinematográfica mastigada, nada de explicação didática sobre o mundo. Você está ali, em um lugar errado, fazendo coisas erradas, no momento errado. E o jogo não tem nenhuma pressa em te explicar por quê.
A protagonista, Elena, não é uma heroína. Ela não tem treinamento especial, não tem frases de efeito e não corre como se estivesse num jogo de ação. Ela anda como alguém que sabe que qualquer passo em falso pode ser o último. Isso cria uma identificação quase imediata: você não se sente poderoso, se sente exposto.
A narrativa é toda fragmentada. O jogo não te conta a história — ele sugere, cochicha, deixa rastros. Um bilhete aqui, um diálogo estranho ali, uma visão que parece sonho, mas não é. É o tipo de narrativa que confia no jogador, mas também testa sua paciência. Quem espera respostas claras vai sair frustrado. Quem gosta de montar quebra-cabeça narrativo vai sair inquieto — no bom sentido.
Horror que não grita, mas incomoda
Aqui vai um elogio grande: I Hate This Place entende que o verdadeiro horror é o desconforto constante, não o susto barato. Não é um jogo de jumpscare a cada esquina. Ele prefere o silêncio. Prefere o barulho de algo que você não vê. Prefere aquela sensação horrível de estar sendo observado sem nunca confirmar.
O mundo é estranho de um jeito quase “errado”. Não é só perigoso — ele parece rejeitar a sua presença. A sensação é muito parecida com alguns momentos de Silent Hill, mas sem a teatralidade explícita. Aqui tudo é mais seco, mais sujo, mais cru. É horror psicológico com estética de quadrinhos, e essa mistura funciona melhor do que eu esperava.
Explorar aqui não é prazer, é sobrevivência
A exploração é o coração do jogo, mas não espere prazer nisso. Mapas amplos, interconectados, cheios de caminhos que parecem iguais e referências visuais mínimas. O jogo faz questão de te deixar perdido.
E aqui entra um ponto polêmico: o mapa é propositalmente pouco amigável. Não há waypoint, não há setinha salvadora, não há “vá até aqui”. Você aprende na marra. Memoriza caminhos. Erra. Volta. Morre. Repete.
Isso é genial do ponto de vista temático, mas também é onde muita gente vai desistir. Em vários momentos eu pensei: “ok, entendi a proposta, mas precisava ser tão punitivo assim?” É aquele tipo de design que divide jogadores em dois grupos muito claros: os que acham isso imersivo e os que acham só irritante.
Eu? Fiquei no meio termo. Admirei a coragem, mas xinguei o jogo em voz alta algumas vezes.
Combate: último recurso, nunca solução
Se você entrou aqui esperando combate satisfatório, esquece. Lutar é quase sempre a pior decisão possível. Armas são poucas, munição é escassa e os inimigos não estão ali para te dar sensação de poder. Eles estão ali para te lembrar que você é frágil.
O movimento da protagonista é propositalmente mais pesado, menos responsivo. Em teoria, isso reforça a vulnerabilidade. Na prática, às vezes gera frustração desnecessária, principalmente em situações onde a fuga exige precisão. Há momentos em que você morre não porque tomou uma decisão errada, mas porque o controle não respondeu do jeito que você precisava.
Não chega a quebrar o jogo, mas deixa claro que a dificuldade nem sempre vem do desafio — às vezes vem da interface.
Dia e noite: quando o jogo muda de humor
O ciclo de dia e noite é, sem exagero, um dos melhores elementos do jogo. Durante o dia, o mundo já é hostil. À noite, ele vira outra coisa. A visibilidade cai, os perigos aumentam e a tensão sobe de um jeito quase físico.
A noite não é só estética — ela muda o comportamento do mundo. Planejar o que fazer antes do sol se pôr vira uma necessidade real. Ficar exposto no escuro é praticamente um convite para o desastre. Isso cria uma dinâmica de planejamento muito interessante, que reforça o sentimento de sobrevivência pura.
Aqui o jogo brilha. Ele não te diz “a noite é perigosa”. Ele faz você sentir isso.
Estilo visual: um quadrinho que quer te machucar
Visualmente, I Hate This Place é muito coerente. O estilo inspirado em quadrinhos, com traços fortes e cores contrastantes, não está ali só para ser bonito — ele serve à narrativa. Tudo parece desenhado à mão, mas com uma intenção clara de desconforto.
As sombras são agressivas. A iluminação é limitada. Fontes de luz se tornam quase itens de luxo emocional. Você começa a se sentir seguro perto da luz, e isso não é coincidência — é design inteligente.
Os inimigos também seguem essa lógica: são estranhos, perturbadores, mas não apelam para gore exagerado. O horror vem mais da forma e do comportamento do que da violência explícita.
Som: o verdadeiro vilão invisível
Se eu tivesse que escolher o maior acerto técnico do jogo, seria o design de som. Muitas vezes não há música alguma. Só vento, galhos, passos distantes, algo se movendo fora do seu campo de visão.
O silêncio aqui é usado como arma. E funciona. Cada som vira informação. Cada ruído pode significar perigo. Isso cria uma tensão constante, mesmo quando nada acontece.
É aquele tipo de jogo que te faz jogar de fone, porque sem isso você perde metade da experiência — e talvez metade do medo.
Um jogo que escolhe não agradar
I Hate This Place não quer ser acessível. Não quer ser confortável. Não quer te explicar tudo. E isso é, ao mesmo tempo, sua maior virtude e seu maior problema.
A ausência total de tutorial vai encantar jogadores mais hardcore, mas vai afastar muita gente. A interface confusa em alguns momentos aumenta a sensação de desorientação, mas nem sempre de forma positiva. O movimento da protagonista reforça a narrativa, mas às vezes atrapalha a jogabilidade.
É um jogo imperfeito por escolha, não por descuido. E isso merece respeito, mesmo quando incomoda.
Prós:
- Atmosfera opressiva extremamente bem construída
- Estilo visual coerente e marcante
- Uso inteligente do som e do silêncio
- Narrativa fragmentada que respeita o jogador
- Ciclo dia/noite que realmente impacta a jogabilidade
Contras:
- Controles e interações pouco intuitivos
- Ausência total de tutorial pode afastar muitos jogadores
- Mapa e navegação excessivamente punitivos
- Movimento da protagonista pode frustrar em momentos críticos
- Alguns bugs e problemas técnicos pontuais
Nota Final: 7/10
I Hate This Place é um survival horror que entende profundamente o que quer ser. Ele constrói uma experiência opressiva, desconfortável e coerente do início ao fim. Não é divertido no sentido tradicional — é impactante. Ele vai frustrar. Vai confundir. Vai fazer você se sentir perdido. Mas tudo isso faz parte da proposta. Se você aceita as regras, ele entrega uma experiência memorável, dessas que ficam na cabeça mesmo depois de desligar o jogo. Não é para todos. E tudo bem. Alguns jogos não precisam ser. Um horror forte em identidade e atmosfera, mas que perde pontos por escolhas de design que, em certos momentos, punem mais do que desafiam.