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O vandalismo nunca pareceu tão “cool””

É com essa frase de um amigo meu que não conhecia, mas que conheceu hoje, esse dito jogo, que dou início a análise de um dos games mais interessantes, inovadores e únicos de todos os tempos. Lançado em Novembro de 2000 nos Estados Unidos, Jet Grind Radio chamou a atenção logo de cara por dois motivos distintos: seu visual único e sua jogabilidade inovadora.

É um desenho ou é um jogo?

Logo de cara, o que mais chamou atenção em Jet Grind Radio foi o seu visual, isso desde o seu primeiro anúncio oficial ocorrido na Tokyo Game Show de 1999. Isso por um simples motivo: Jet Grind Radio foi o primeiro game a se utilizar da técnica Cel-Shading. Para quem ainda não sabe, a grosso modo Cel-Shading é a técnica utilizada para dar ao visual de um game o aspecto “cartoon”, deixando dessa forma o game com cara de desenho animado.

Lembro-me de ver pela primeira vez uma imagem do game em uma antiga revista dedicada a games, a Super Game Power, e fiquei louco quando vi. Fiquei fascinado ao ver um game que parecia um desenho animado, todo colorido e cheio de vida. A técnica foi muito bem utilizada pela AM6 (antiga divisão de criação da Sega), impressionando até hoje pelo primor técnico na utilização do Cel-Shading.


Mas não somente por um belo Cel-Shading brilha Jet Grind Radio. O game apresenta um belo hall de personagens, um mais criativo do que o outro, além de fases muito bem concebidas, se adequando ao estilo do game como uma luva.

A movimentação do game é caricata, assim como as situações em que o game apresenta ao jogador. A taxa de frames por segundo é fixa em 60 (60 fps), o que garante uma fluidez fabulosa ao game. Aliás, uma pena que a maioria dos games para PS2 não rodam em 60 fps por limitações de hardware do mesmo, pois isso faz uma diferença em um game sem tamanho. Deixo claro que não sou “anti-Sony” antes que comecem a buzinar no meu ouvido.


Uma “grafitada” na monotonia.

Como se trata de um game em que os personagens principais usam rolers, mesmo que rolers não convencionais, é comum algumas pessoas terem o taxado de “mais um Tony Hawk”, já que o game era muito popular na época e clones vinham inevitavelmente. Que bom que essas pessoas estavam completamente enganadas. Jet Grind Radio não é um game de rolers, não é um “game Tony Hawk” e muito menos um game esportivo. Classificaria esse game em algo como “Action Grafiti”.

A jogabilidade do game é uma loucura só. O jogador deve grafitar os símbolos da sua gangue em cima do símbolo das gangues rivais para impor a moral e ter para si aquela região. Para isso vale tudo, até mesmo grafitar um membro de uma gangue rival para fazê-lo ir embora, ou mesmo se sentir derrotado e não lhe importunar mais. É possível fazer grinds onde menos se espera, como em fios de alta tensão por exemplo, e até mesmo derrubar helicópteros apaches grafitando o símbolo da gangue no cockpit do mesmo, fazendo-o perder o controle, cair e explodir.


Todo o game se passa em ambientes urbanos, meticulosamente criados para que a loucura e as acrobacias sejam enaltecidas, a fim de o jogador alcançar os locais mais impossíveis para grafitar seu símbolo em todo e qualquer local que exista um símbolo de uma gangue rival. Os locais são os mais inusitados. Topos de arranha céus, locais altos em demasia, onde é preciso “andar” nas paredes para ter acesso, entre outros. Existem missões em que temos até mesmo de grafitar todos os membros de uma gangue rival a fim de desmoralizá-los.

Como as fases se passam em ambientes urbanos e você, perverso jogador, está praticando vandalismo e perturbando a paz alheia, uma conseqüência óbvia de tal ato é ter de responder a lei. Ou pelo menos a lei tentar fazer você pagar por seus atos. Sim meus amigos, a polícia está na área!

Ao longo da fase, após um certo número de grafitis realizados, a policia entra na área para tentar lhe dar uma lição. No começo do game ela é bem tranquila, se limitando a policiais correndo a pé atrás do jogador e também lhe atirando projéteis mortais, ou mesmo bombas de gás. É isso mesmo, tiros aqui são a parte leve. Mais ao longo do jogo é que a coisa fica feia e imensamente divertida.

Com o tempo, o capitão da policia fica revoltado com essas gangues e parte para a ignorância. É a SWAT, Tanques de Guerra, Tropa de Choque, e até mesmo Helicópteros de Guerra perseguem o jogador. Não demora muito para a ignorância começar não, é logo na segunda ou terceira fase. Tais tanques e Helicópteros não são somente de enfeite e vão tentar acabar com você de todas as formas. Os Helicópteros atiram mísseis teleguiados no jogador. Mísseis!!


Nunca um Grafiteiro foi tão perseguido na história do mundo moderno. No meio disso tudo o jogador terá de, com acrobacias meticulosas mas completamente simples em sua execução, escapar de toda essa perseguição e grafitar onde precisa para a conclusão da fase. Os grafites menores são realizados simplesmente pressionando o gatilho “R” do controle, no entanto os maiores demandam que se façam movimentos adequados do analógico para que o gratifi seja realizado corretamente.

Uma outra preocupação a se ter é a de sempre carregar seu estoque de tinta, recolhendo as latas ao decorrer da fase. Cada personagem tem seus pontos fortes e fracos, resumidos em três principais instâncias: Velocidade, resistência física e habilidade para grafitar. Os dois primeiros são explícitos, não precisando de explicações.

A habilidade de grafite consiste na dificuldade e na quantidade de movimentos a ser feitos com o analógico para que o grafite se desenvolva até o seu fim. Quanto maior a habilidade do personagem em grafitar, mais simples e com menos movimentos o grafite é finalizado e vice e versa.

Detalhe: todas as fases tem um tempo limite para ser finalizadas, ou seja, toda essa balburdia de coisas a se fazer tem de ser feitas o mais rápido possível Ainda bem que tudo é divertido por demais e que as respostas do controle são perfeitas, caso contrário, levar um míssil na cara seria inevitável. Esse é um típico game “levanta defunto”, diversão arcade absoluta!


Radio Pirata na veia!

Dentro da história de Jet Grind Radio, que é tão caricata quanto seu visual e quanto aos acontecimentos “in-stage” que ocorrem no game, existe uma rádio pirata que passa as notícias podres da cidade do game, inicialmente a fictícia Shibuya-sho e posteriormente a também fictícia Tokyo-to.

Essa rádio, a Jet Set Radio (a rádio dá nome ao game japonês, rebatizado nos EUA) é a porta voz de grande parte dos acontecimentos do game e é a responsável inicialmente por introduzir o jogador no ambiente e no clima do game. O radialista da Jet Set Radio, Professor K, é uma piada só. Um dos melhores personagens secundários já criados e um negão “mó piada”.

É ele quem conta ao jogador o básico da história, que envolve a treta entre as gangues em Tokyo-to e também sobre acontecimentos que vão, em teoria, além da briga entre as gangues da cidade. A gangue ao qual o jogador defenderá é a gangue GG´s, composta inicialmente por somente três integrantes, Beat, Gum e Tab. Gum e Tab são recrutados por Beat, fundador da GG logo no início do game. O processo de recrutamento serve também como um bem vindo tutorial de Jet Grind Radio.


Sobe o som!

Não somente no visual e na jogabilidade brilha Jet Grind Radio. A sonoplastia do game como um todo também é de primeira. Os efeitos sonoros são muito competentes no que se propõem. Nenhum dos efeitos sonoros do game parece destoante de todo o resto. Nenhum tipo de destaque encontramos por aqui, mas particularmente acredito que efeito sonoro é igual uma boa arbitragem em um jogo de futebol: quando é competente ninguém se lembra que esta lá.

As músicas dão um show a parte. São de variados estilos musicais e misturam melodias licenciadas com melodias criadas exclusivamente para o próprio game. Encontramos, dado o meu limitado conhecimento sobre gêneros musicais, ao longo do jogo: Hip Hop; Jazz; Metal; Música eletrônica e J-Pop. Caso algum outro estilo musical seja encontrado no game, por favor, complete ai.

As dublagens são muito boas e casam com o clima cartunesco do game. Uma curiosidade aqui: A dublagem americana em Jet Grind Radio é melhor do que a dublagem japonesa, algo extremamente rara de acontecer. Ponto para a Sega of America!


Nem tudo é Grafiti de qualidade.

Como quase nada na vida é perfeito, Jet Grind Radio sofre de pequeninos problemas. O maior dos problemas é a falta de um pouco de raciocínio da equipe de criação do game no layout de botões do controle.

O botão de grafitar é utilizado também para centralizar a câmera na tela. Em certos momentos é possível que o jogador pressione o dito cujo botão um pouco atrasado ou adiantado, acarretando a centralização da câmera. Isso pode ser perturbador, pois é possível se perder por alguns instantes ou mesmo o personagem virar para um local não desejado devido ao posicionamento da câmera.

Esse é um problema que pode sim atrapalhar o jogador efetivamente na realização de sua tarefa no game e isso não deixa Jet Grind Radio ser considerado um game impecável. Para alguns um outro problema do game é ser em certos pontos muito difícil, mas não considero isso um defeito, mas sim falta de habilidade de quem disso reclama.

Um outro problema de Jet Grind Radio é o vício. Conheci o game a quase 10 anos e ainda não consigo ficar muito tempo sem dar uma jogada, ou mesmo ouvir um pouco das músicas do game. Mas esse não é um contra ruim.

Expansões

O universo iniciado por Jet Grind Radio foi continuado por mais dois games. O primeiro foi Jet Grind Radio Future para X-Box, que é um game tão bom quanto o original e ainda mais belo. O segundo foi Jet Grind Radio para Game Boy Advance, que é nada mais do que um game regular.