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De geração em geração, a sociedade se divide entre climas de completo otimismo quanto ao futuro, e o exato oposto por meio de um pessimismo incurável. Esses fatores acabam por sem dúvida alguma influenciar a produção de mídia desses grupos, que adicionam às histórias o tempero do clima em que eles se envolvem.

A década de 1980 viveu fortemente esse tipo de “briga”. De um lado, a volta do pensamento econômico com foco totalmente voltado ao mercado levava jovens e adultos a construir fortunas por meio de novos empregos e investimentos financeiros que iam de ações a construção de bairros inteiros. E do lado oposto, estavam os “desgarrados” que se sentiam esquecidos por essas bonanças, e que por meio da história viam que as fundações desse otimismo imbatível eram tão frágeis quanto um castelo de areia em um dia de maré cheia.

Deste lado mais pessimista da história é que o gênero cyberpunk foi desenvolvido. O mesmo tem origem nas décadas anteriores, de 1960 e 1970, durante o new age onde alguns dos hippies se mostravam preocupados com as tendências globais em questões sociais, econômicas e até mesmo ambientais.

Fonte: “The Last Night is a Pixel Art Cyberpunk Adventure” por BagoGames (CC BY 2.0)

Já ali, as ressalvas quanto à hiper-mercantilização da vida e de tudo aquilo que ela envolve eram levantadas. Essa tradição foi carregada para as histórias vindouras, uma vez que o clima político da década de 1980 simplesmente confirmou os temores dos pessimistas de tempos anteriores.

A temática que surgiu inicialmente em livros e revistas, respingou também no mundo de jogos. Elementos visuais podem ser encontrados em recentes jogos caça-níqueis, como os slots das franquias Matrix e Terminator Genisys, e em videogames das séries Shadowrun e System Shock. Estes dois últimos também se inserem na temática de roteiros do gênero cyberpunk, mostrando futuros distópicos em suas tramas.

O mesmo se seguiu no RPG. O sistema GURPS conta com um suplemento cyberpunk desde 1990, que é também uma das versões mais famosas da marca. Mas ainda assim, a grande referência é o sistema Cyberpunk, criado já na década de 1980 por Mike Pondsmith.

Fonte: “Cyberpunk 2077 Won’t Ship With Multiplayer” por BagoGames (CC BY 2.0)

À época, Mike imaginou que o cenário de pós-apocalipse econômico seria vivido já em 2013, o que mostra o pessimismo dos seguidores do movimento nas décadas passadas. Neste mundo, a queda das nações deixou o poder nas mãos de mega-corporações que transformaram mercados consumidores em verdadeiros campos de batalha. Um mundo sem regulação acaba levando também à ruína social, onde fome e miséria são a norma.

Essa história ganhará uma nova roupagem em breve por meio do estúdio de The Witcher, a CD PROJEKT RED, que está a passos de produzir e lançar Cyberpunk 2077. A trama do jogo contra com o auxílio do criador do sistema de RPG, e por isso podemos contar com mais pessimismo pós-apocalíptico que inevitavelmente nos fará pensar no que pode ser feito para que tais projeções não sejam cumpridas.

E esse tipo de questão sendo levantada por meio de jogos é de fato algo positivo. Ainda que se veem muitas reclamações sobre a mistura entre política e mídia nos últimos tempos, isso é apenas sinal de como estamos mais atentos a isso uma vez que esses elementos sempre se misturaram. Logo, ao invés de simplesmente rejeitar o que está em nossa frente, por que não ser receptivo à reflexão?