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por Victor Frascarelli

A E3 2018 está cada vez mais próxima e o trem do hype novamente carrega suas energias para partir com força total. Inclusive, parece que não sabemos mais falar sobre videogames sem pensar em hype e seus resultados – no caso, se determinado jogo foi um sucesso ou um fracasso. Parece até mesmo que a indústria tem vivido menos de games e mais de hype.

Por que os departamentos de marketing têm forçado tanto esse fenômeno? Uma boa hipótese é que é por medo. Com as comunidades de gamers na internet, os gameplays no YouTube e no Twitch e os reviews e scores de sites renomados, ficou mais fácil vender as promessas do que vender o produto em si. Assim, a pré-venda torna-se um porto seguro, porque vai ser arriscado esperar que compradores menos hypados ainda invistam seu dinheiro em algo que tenha passado por comentários negativos ou que eles já tenham visto em algum lugar.

E mais do que isso, as reações tão extremas que a comunidade gamer expressa são um argumento a mais para justificar esse medo. Curtir um game ou não já passou a definir se o tom do feedback é de amor ou ódio. É, sim, uma minoria de pessoas que se expressa assim, mas é uma minoria que faz barulho e influencia outros a decidirem por comprar ou não um game.

O resultado é um grande número de developers competindo não exatamente por conquistar o gamer, mas sim para ver quem consegue prometer mais ou gritar mais alto. É até compreensível, porque não existe bem uma fórmula para saber se algo vai agradar ou não. O limiar entre “é sempre a mesma coisa” e “essa não é a franquia que eu conheço” é estreitíssimo, tornando a reação da comunidade imprevisível. Então, basicamente, o hype pode servir até como um termômetro.

Ainda não foi possível ver exatamente se isso é bom ou não. Temos exemplos positivos como The Witcher 3 e negativos como No Man’s Sky. A certeza é que o hype hoje é um elemento-chave para absolutamente toda a indústria. As produtoras e os varejistas confiam nele para vender cópias enquanto a mídia também confia para garantir audiência. É só ver como todos se “esquecem” dos games após suas semanas de lançamento e apenas concentram-se no que está por vir. Falamos por uma semana sobre como o novo God Of War é bom para depois praticamente não tocarmos mais no assunto. Não existe satisfação. Estamos engolindo pratos enquanto já pensamos na próxima refeição. E perceba quanto tempo ficamos nessa expectativa: em 2014 vimos na E3 o anúncio de que um novo Kingdom Hearts estava em produção. Quatro anos depois, ainda estamos no aguardo.

Tem tanta informação chegando tão rapidamente até nós que parece que não temos tempo para respirar e apreciar o perfume das flores. Estamos sempre mais preocupados em antecipar o que está por vir. Esse efeito já está sendo refletido em outros departamentos da nossa vida (veja o crescente problema com a questão da ansiedade), então é fato que precisamos observá-lo com bastante atenção.

E qual o futuro disso? Provavelmente, um dia o hype vai se tornar tão normal que ele não deve mais fazer diferença. Os departamentos de marketing vão ter que encontrar um outro jeito de chamar a atenção e garantir suas pré-vendas. O que é certo é que ninguém gostaria de ver a indústria dos games se transformar de vez na indústria do hype. Mas também não podemos prometer nada.

Victor é formado em Relações Públicas pela UNESP e pós-graduado em Marketing pela USP. Atua há anos no mercado nacional e internacional de games, tendo experiência tanto em mídia quanto no varejo da área.