Um RPG legalzinho e daquele jeito que você lembrava como era nos anos 90.
Quando eu penso em RPGs, minha cabeça automaticamente volta pros anos 90, praquela época em que eu sentava no chão da sala, controle na mão, TV de tubo chiando baixinho, e passava horas perdida em mundos que cabiam dentro de um cartucho de SNES ou Mega Drive. Era tudo mais simples, mas ao mesmo tempo mágico: menus quadrados, sprites expressivos, trilhas que grudavam no cérebro e aquela sensação deliciosa de que qualquer caverna escondia um segredo importante — ou pelo menos um baú com uma espada claramente melhor que a minha. Eu não entendia metade dos sistemas, muito menos inglês direito, mas entendia a sensação de aventura, de progresso, de voltar pra cidade mais forte e orgulhosa. É desse sentimento que jogos como Philna Fantasy tentam beber, dessa memória afetiva de RPG clássico que não precisava reinventar o mundo, só te convidar a explorá-lo. E talvez por isso eu tenha sido tão gentil com ele no começo… e tão exigente depois.
Eu tenho um hábito meio suspeito: depois de terminar um RPG gigantesco, daqueles que drenam a alma, a sanidade e a memória RAM do cérebro, eu sempre procuro um joguinho indie “menor”, tipo um chá de camomila em forma de pixels. Algo que não queira mudar minha vida, só me acompanhar enquanto eu escuto podcast ou penso na existência.
E foi exatamente assim que eu cheguei em Philna Fantasy.
“Ah, um RPG de ação indie, com pixel art linda, classes diferentes, duração enxuta, vibe confortável…”
Meu cérebro imediatamente pensou: ok, isso aqui vai ser gostoso.
E… foi.
Mas também foi muito mais comum do que eu esperava.
Um começo curioso… que não vai muito longe
O jogo começa de um jeito até intrigante: você literalmente cai de uma nave espacial em um planeta desconhecido, sem memória, sem passado e sem grandes explicações. Clássico? Sim. Funciona? Funciona.
Esse começo me deu aquela esperança de que o jogo talvez fosse brincar com ficção científica misturada com fantasia, algo meio Star Ocean encontra JRPG indie fofo.
Mas não.
Muito rápido, Philna Fantasy vira aquele RPG que a gente já conhece de olhos fechados:
– cidade central
– guilda de aventureiros
– reino com problemas
– sidequests de “ajude o cidadão número 34”
– vilão genérico se formando no horizonte
E olha… não é que seja mal escrito, é só… esquecível.
Nos fóruns e nas reviews de usuários, isso aparece muito: ninguém odeia a história, mas ninguém lembra dela depois. Personagens passam, falam, usam emote fofinho… e evaporam da memória.
Teve momentos em que eu percebi que estava prestando mais atenção nos cenários do que no que estava acontecendo na narrativa… algo que outros jogadores também comentam bastante. Pequenos deslizes que, isolados, não quebram o jogo, mas juntos quebram a imersão.
E aí eu pensei:
“Ok, talvez o foco seja totalmente na jogabilidade.”
E… sim. Totalmente.
A jogabilidade: confortável como um sofá conhecido
Se você já jogou qualquer action RPG de dungeon, você sabe exatamente como Philna Fantasy funciona.
Você escolhe uma classe (são quatro), entra numa masmorra, derrota inimigos, coleta loot, volta pra cidade, vende tralha, crafta equipamento, melhora habilidades… e repete.
É quase terapêutico.
E perigosamente automático.
As classes são o ponto mais forte aqui. Berserker, Ranger, Assassino e Chrono Mage realmente jogam de formas diferentes, e isso é algo que muita gente elogia. Cada uma tem ritmo próprio, habilidades específicas, medidores e estilos de combate distintos. Não é “trocar de skin”, é trocar de mentalidade.
Eu comecei com Berserker porque… gente… machado gigante, giro louco, caos. Sempre funciona.
E funciona mesmo. Combate é responsivo, gostoso, satisfatório. Os golpes têm impacto, os inimigos reagem bem e, no geral, é divertido lutar.
Mas aí entra o primeiro problema grande que aparece em praticamente todas as discussões online sobre o jogo:
👉 nada muda.
O problema da repetição sem surpresas
As dungeons são sempre iguais.
Os inimigos estão sempre nos mesmos lugares.
Os puzzles se repetem mais do que deveriam.
E o jogo ama te mandar de volta pra áreas antigas.
Isso mata o ritmo.
Porque Philna Fantasy não é procedural, não se reinventa e não escala direito seus desafios. Então quando você volta para um lugar antigo, você não sente ameaça, nem descoberta. Você só… passa por ali de novo.
Muitos jogadores comentam que o jogo parece acreditar que tem replay infinito, mas não se estrutura pra isso. Jogar com outra classe até muda o combate, mas o mundo continua exatamente o mesmo, sem adaptação, sem novos riscos, sem surpresa.
E aí bate aquele sentimento estranho de:
“Eu estou jogando bem… mas estou entediada.”
Progressão que sabota a si mesma
Outro ponto que aparece muito nas análises da comunidade: a progressão de equipamentos é estranha.
Você passa um tempão tentando melhorar seus itens, buscando bônus melhores, encantamentos, raridades…
Até entrar numa dungeon nova e perceber que um item ruim da área seguinte é melhor do que o melhor item da área anterior.
Isso desmotiva completamente quem gosta de build, min-max, experimentação.
Vários jogadores comentam que, depois de perceber isso, simplesmente pararam de se importar com otimização e só seguiram em frente.
E eu confesso: eu fiz o mesmo.
Chefes incríveis (sério, incríveis)
Agora, deixa eu ser justa e animada aqui:
as lutas contra chefes são MARAVILHOSAS.
É aqui que Philna Fantasy acorda, toma energético e fala:
“Ok, agora eu vou tentar.”
Chefes exigem atenção, leitura de padrões, movimentação constante e aprendizado real. Eles batem forte, são visuais, caóticos e, às vezes, até meio injustos — no bom sentido. Você morre, aprende, volta melhor.
E a trilha sonora…
MEU DEUS, A TRILHA.
Enquanto o resto do jogo tem músicas agradáveis, ok, funcionais…
Os chefes entram com metal absurdo, guitarras insanas, energia de anime de luta final. É aquele momento em que você pensa:
“Por que isso não está em todos os combates?”
Esse contraste é tão grande que chega a ser engraçado.
Puzzles demais… às vezes até demais
Outro ponto que divide opiniões: os puzzles.
Eu gostei deles.
Mas eu também xinguei alguns.
Eles são criativos, usam bem as habilidades de movimentação, flertam com ideias de metroidvania e quebram o ritmo do combate — o que é ótimo.
Porém… não existe ajuste de dificuldade pra puzzles.
Então se você travar, você trava de verdade.
Ou chama alguém mais inteligente.
Ou procura guia.
Ou aceita que aquele baú vai ficar fechado pra sempre.
Isso cansa alguns jogadores, principalmente os mais casuais.
Português do Brasil-sil-sil
Outro ponto que me deixou genuinamente feliz é que o jogo está totalmente localizado em português, com menus, descrições, diálogos e sistemas acessíveis do começo ao fim. E não é aquele português “quase automático” cheio de frases tortas: dá pra sentir um cuidado real no texto, algo que faz muita diferença pra quem cresceu jogando RPG nos anos 90 sem entender direito o que estava acontecendo. Seja por possível envolvimento direto de profissionais brasileiros na localização ou simplesmente por atenção ao público latino, Philna Fantasy acerta em cheio ao não tratar o português como um extra descartável, e isso, pra mim, já soma muitos pontos de carinho.
Prós:
- Combate sólido e prazeroso
- Classes realmente diferentes entre si
- Chefes excelentes, intensos e memoráveis
- Trilha sonora absurda nas batalhas principais
- Pixel art linda e muito bem animada
Contras:
- História fraca e esquecível
- Mundo e dungeons excessivamente repetitivos
- Progressão de equipamentos mal balanceada
- Pouca variedade real para replay
- Falta de ousadia nas ideias centrais
Nota Final: 7/10
No fim das contas, Philna Fantasy é aquele jogo que eu não me arrependo de ter jogado, mas também não recomendaria com entusiasmo. Ele é bonito, confortável, competente, bem-feito… Mas nunca ousado. É um RPG que funciona, mas não marca. Que diverte, mas não surpreende. Que termina… e você simplesmente segue a vida. E talvez isso seja o maior pecado que um RPG pode cometer. Se Philna Fantasy fosse uma comida, ele seria aquele macarrão simples, bem feito, quentinho. Você come feliz… Mas não tira foto, não recomenda pro grupo e não fica pensando nele no dia seguinte 🍝💭 E às vezes, num mercado lotado de RPGs, isso simplesmente não é suficiente.