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Apesar de seu pequeno ciclo de vida, o Sega Dreamcast por certo foi um console com uma rica biblioteca de jogos. Variedade, qualidade e inovação nunca foram adjetivos distantes do último raio de esperança da Sega no ramo de hardwares.

Se encontrava de quase tudo do Dreamcast, entretanto um gênero de game que era bastante dominante na segunda metade dos anos 90 e em meados dos anos 2000 se tornou um dos grandes tendões de Aquiles na sua biblioteca: JRPGs.

Nesse período oriente e ocidente abraçaram os JRPGs como nunca antes o fizeram, ou novamente o fariam. Final Fantasy VII trouxe com força total esse gênero para “o lado de cá” do mundo. Desnecessário dizer que para grande parte da comunidade gamer, a Squaresoft era a queridinha nesse seguimento.

Ao contrário de empresas como a Capcom e a Namco, que deram um massivo suporte ao Dreamcast, a Squaresoft jamais cogitou a ideia de investir no console. Desta feita, um console de uma empresa japonesa ficou sem o suporte da maior produtora de JRPGs da época. E isso era preocupante.

Pior ainda, outras empresas conhecidas por seus bons trabalhos para com games desse gênero também não se importaram muito com o console.

Atenta a isso, a Sega fez com essa gênero o mesmo que o fez para com games de esportes, uma vez que a EA também não deu suporte ao Dreamcast: voltou seus esforços para a produção interna de tais gêneros.

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Desse esforço surgiu um dos melhores games de JRPG clássico que já tivemos acesso, e mesmo que infelizmente não receba do público em geral o devido valor, por certo possui um lugar especial no coração de quem a ele deu uma chance: Skies of Arcadia.

Skies of Arcadia, lançado no mercado japonês pelo nome de Eternal Arcadia, foi desenvolvido pela Sega Overworks e visava suprimir a necessidade de proporcionar ao público do Dreamcast um “experiência Final Fantasy”.

As comparações para com a famosa franquia da Square são claras, em especial no canon do enredo.

À sua forma, Skies of Arcadia trata de civilizações antigas e seus reflexos nos dias atuais, poderes de cristais (aqui tratadas como cristais das Seis Luas) e a importância do equilíbrio entre eles, alguém ou alguma entidade tentando usar de tais poderes para proveito próprio, a dualidade entre o tecnológico e o mágico, entre outros temas.

É tudo usado de maneira bem particular, verdadeiramente construindo um universo próprio, rico e coeso, mas a comparação é inevitável e porquê não, salutar.

O protagonista da história é o aspirante a pirata Vyse, um jovem residente da ilha dos piratas Blue Rogue. Um rapaz bem humorado, sempre otimista e que sonha em poder ter sua própria aventura pirata ao redor do mundo. Tem em Aika, também moradora da ilha dos piratas Blue Rogue, sua melhor e mais antiga amiga.

É dado a um inusitado encontro com Fina, última sobrevivente direta da linhagem da antiga Civilização de Prata, que se tem o início da grande aventura de Vyse e Aika pelos céus de Arcadia.

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Apesar de seu um jogo relativamente antigo, deixarei nesse texto questões referentes ao enredo bem absortas, sem revelar muito do mesmo, pois acredito veementemente que todo fã do gênero deva experimentar o game. Sem spoilers portanto.

Assim como mandava a cartilha dos JRGs da época, o game possui ampla e livre exploração por seu mundo, dungeons perigosas a serem sobrepujadas, encontros de batalhas randômicas, sistema de combate estratégico e por turnos, personagens carismáticos, plot convoluto mas atraente, trilha sonora magistral e visuais que impressionavam.

O sistema de batalha, possivelmente junto com o roteiro o elemento mais importante de um game do gênero, é muito competente e faz com que as batalhas demandem atenção e estratégia.

A party é formada por até quatro personagens, cada qual com suas características e funções em campo de batalha muito bem definidas. Um personagem que possui claro foco em suporte, jamais será um “hard hitter”, não importa o quanto o jogador tente. Isso obriga ao gamer a montar uma party equilibrada a cada situação demandada pelo jogo.

Em batalha os comandos básicos são os usuais, mas cada ação consome um pouco da barra de ação. Tal barra é de uso coletivo e uma ação só pode ser efetuada por membro da party se houverem pontos o suficientes na mesma. É como a barra de ação individual de Legend of Legaia, mas em Skies of Arcadia ela é una para toda a party.

Gerenciar a barra de ação é vital para uma boa performance em combates. É possível se utilizar de itens para preenche-la mais rapidamente a cara turno, bem como é possível executar a ação chama “Focus” com os membros da party, que não consomem barra de ação e que ainda dão a ela alguns pontos de preenchimento extra para uso no próximo turno.

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As magias também estão presentes e são bem vistosas, bem como alguns ataques especiais. Destaque também no quesito combate para a dublagem, pois os personagens de Skies of Arcadia possuem vozes, algo bem incomum para um game do gênero naquela época.

Não havia uma dublagem completa. Na maioria esmagadora do game os diálogos ainda eram apenas caixas de texto que teriam de ser lidas e passadas adiante, mas haviam diálogos importantes dublados, bem como quase toda ação em combate possuía alguma adição vocal.

Esse elemento ajudou, em muito, a dar uma maior identidade e personalidade aos personagens de Skies of Arcadia.

Por falar em personagens, o game possui um cast muito bom. Todos são muito carismáticos e cumprem muito bem sua função de trazer ao jogador amor ou ódio por cada um deles. Motivações e personalidades fazem um personagem ser ou não engajante, felizmente o game trabalha muito bem ambos os aspectos.

Ao contrário das navegações usuais nos World Maps dos JRPGs da época, Skies of Arcadia lhe dá uma liberdade tridimensional. É possível navegar pelos céus de Arcadia tridimensionalmente, sendo possível explorar cada região.

Ao avistar uma ilha flutuante o gamer pode explorar esse território por todos os lados, podendo inclusive encontrar locais para aterrissar sua airship e descobrir novas localidades macro, somente pela exploração em específicos locais das ilhas.

Apesar de ser um World Map em escala não realista, o game traz consigo um elemento extra em sua exploração, aumentando a imersão proporcionada e somando pontos positivos ao seu gameplay.

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Importante destacar que mesmo durante a navegação os encontros randômicos continuarão ocorrendo e as batalhas acontecerão dentro do próprio navio voador.

Por falar em airships, é possível participar de combates entre tais naves ao longo do game.

As mecânicas são bem similares aos combates regulares do jogo, incluindo a presença da barra de ação, mas com menos opções a serem selecionadas. Apesar disso não se engane, é necessária estratégia para encontrar o melhor momento para atirar com seus canhões na airship do oponente e causar reais danos.

Ademais, é muito divertido gradualmente melhorar os atributos de sua airship, transformando-a na máquina destruidora suprema dos céus de Arcadia.

O visual de Skies of Arcadia é absurdamente acima da média do que era ortodoxo no período de seu lançamento para um game do gênero.

Muito do que era usualmente retratado somente por texturas de baixa qualidade aplicadas no polígono, eram verdadeiramente construções poligonais em Skies of Arcadia. As cores são vivas e os personagens possuem expressões faciais (mesmo que não em tempo real).

Os ambientes são muito grandes, bem detalhados e todos construídos poligonalmente, ou seja, nada de pré-renderização aqui. Isso permitiu um alto senso de exploração dentro de cada uma das cidades (vilas, cidadelas, etc) do jogo.

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É como se estivéssemos jogando um adventure em cada local macro do jogo. Se isso lhe parece corriqueiro atualmente, na época não o era.

O design de personagens é muito inspirado, criando visualmente um bom mix entre o tema piratas e convenções de design oriundas da cultura japonesa. Não é ocidental demais para desagradar os fãs mais hardcore de JRPGs e nem oriental demais para trazer estranheza a um conto de piratas, apesar de trazer uma estética mais voltada a animação japonesa.

O mesmo bom senso aplicado no design de personagens pode ser visto no design de ambientes e na composição da trilha sonora.

Ficando a cargo de Yutaka Minobe e Tatsuyuki Maeda, a trilha sonora de Skies of Arcadia encontra muito bem o tom entre o épico usual dos JPRGs da época e o aventureiro e ocidental do mundo dos piratas. A trilha que embala a maior parte da aventura, o tema regular das batalhas, é absolutamente delicioso.

Enquanto problemas, alguns jogadores apontam que as Dungeons do game não apresentavam nenhum elemento novo, se limitando as usuais procuras por tesouros, chaves ou itens necessários, ou então simplesmente a procura pela saída.

Além disso, apontam que algumas dungeons são muito grandes ou difíceis, bem como há um número excessivo de combates ao longo do game, o que causa uma lenta progressão.

Particularmente não considero nenhum desses pontos como algo negativo. Não me senti incomodado com o como as dungeons foram concebidas, bem como não encontrei dificuldades acima da média ao longo da jogatina. De qualquer maneira, fica registrado os usuais descontentamentos para com o game.

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Assim como todo bom RPG, Skies of Arcadia possui um bom conteúdo opcional extra, destinado ao jogador que quer se aventurar mais afundo no universo do game.

Skies of Arcadia ganhou também uma versão para Game Cube, intitulada de Skies of Arcadia: Legends. É basicamente o mesmo jogo, mas com adições de conteúdo e uma inexplicável perda de desempenho. Ainda assim, vale muito a pena, apesar de a versão para o console da Nintendo ser possivelmente mais rara que a do Dreamcast.

Foi-se cogitado há alguns anos um remaster, bem como uma sequência para Skies of Arcadia. O primeiro nunca passou de um rumor enquanto o segundo foi cancelado mesmo antes do projeto sair dos estados mais embrionários.