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Desde a transição para a era dos jogos tridimensionais, a série Sonic passa por dificuldades. Mesmo com títulos bons, como os dois primeiros Sonic Adventure, o mascote da Sega nunca conseguiu manter o mesmo fôlego dos jogos que estrelou para o Mega Drive, e virou uma espécie de piada na indústria – até mesmo o mais ardoroso dos fãs olha com desconfiança para os novos títulos anunciados.

Sonic Chronicles: The Dark Brotherhood combina dois elementos que, à primeira vista, parecem não combinar. De um lado, o veloz porco-espinho e seus amigos. De outro, a poderosa Bioware, produtora especializada em RPGs densos em que se destacam a história e a liberdade de opções que definem o rumo que os personagens e acontecimentos irão tomar.

Essa mistura funciona melhor do que o esperado, embora possa decepcionar quem esperava algo no mesmo nível de títulos como Mario RPG ou enredos complexos como o de Mass Effect. Exclusivo para o portátil da Nintendo, Dark Brotherhood faz algumas concessões em sua jogabilidade e história para se adaptar ao hardware para o qual foi desenvolvido, resultando em um título que, se não é exatamente memorável, ao menos não decepciona e mostra que o nome Sonic ainda pode ser bem aproveitado.

A origem das Esmeraldas do Caos

Depois de várias batalhas, parece que Eggman (o eterno Dr. Robotinik) finalmente foi derrotado por Sonic e seus amigos, que destruíram a maioria de seus robôs e sua poderosa aeronave Egg Carrier. Porém, algo estranho está acontecendo: além dos animais estarem mais agressivos e diversos robôs que deveriam estar desativados caminharem sobre o mundo, Knuckles desapareceu e, junto dele, as lendárias Esmeraldas do Chaos.

Os responsáveis por isso são os Marauders, um clã de equidnas que se acreditava terem sido derrotados há um longo tempo pelos ancestrais de Knuckles. Agora, cabe a Sonic e seus amigos (incluindo algumas figuras inesperadas) se unirem para desvendar o passado deste misterioso adversário e recuperar o equilíbrio do planeta antes que um grande desastre aconteça.

Embora a história não seja especialmente elaborada, combina bem com o universo dos primeiros jogos estrelados por Sonic, inclusive no tom da aventura. Saem os enredos pseudo-complexos dos títulos tridimensionais e entra algo mais alegre e descontraído – até mesmo a interação com humanos, embora presente, foi bastante reduzida, em uma mudança bem vinda de direcionamento.

O que decepciona, principalmente ao levar em conta que se trata de um título da poderosa Bioware, é a falta de qualquer tipo de caminho opcional para o jogo. Embora seja possível interagir com os outros personagens de formas diversas, raramente ser educado ou sarcástico provocam uma reação diferente – no final, qualquer uma das formas resulta no mesmo desenvolvimento para a história, com os mesmos personagens formando seu grupo.

RPG que mistura elementos ocidentais e orientais

Assim como outros títulos do DS, Sonic Chronicles é totalmente controlado através da tela de toque e, fora ela, somente o botão “L” é responsável pela entrada de comandos. A navegação pelo mapa é feita de forma simples, e há vários pontos interativos que acionam as habilidades específicas dos personagens – como o voo de Tails ou o poder de escalada de Knuckles.

Ao entrar em contato com um dos inimigos, o jogo entra em um modo de batalha por turnos, típico dos RPGs ocidentais, em que a ordem de ataque é definida pela agilidade de cada um dos quatro membros do time. Além de ataques normais, estão disponíveis uma série de habilidades especiais que garantem mais dano aos inimigos ou proteção para os personagens participantes.

Embora a estrutura básica do jogo funcione bem, há alguns momentos inevitáveis de irritação, tanto durante as batalhas, quanto na exploração do cenário. Como certos objetivos só podem ser alcançados mediante a combinação de habilidades especiais de determinados personagens, são inevitáveis os momentos em que se deve deixar de lado membros de seu time favorito somente para conseguir explorar de forma eficiente os cenários.

Em relação às batalhas, o que mais irrita é o ritmo lento, no qual são comuns mensagens indicando que o personagem errou um inimigo. Isso sem contar com os adversários resistentes a ataques comuns, que obrigam o jogador a abusar de golpes especiais capazes de ignorar tal proteção – situação que tira qualquer variedade de ação durante as constantes batalhas que surgem durante a aventura.

Porém, não dá para dizer que o sistema de jogo não possui seus pontos fortes, especialmente no que diz respeito à utilização da tela sensível do portátil. Para acionar os ataques especiais ou se defender de inimigos, deve-se realizar de forma eficiente a sequência que aparece na tela, seja traçando caminhos de forma correta ou tocando com a stylus em pontos determinados – o processo funciona muito bem e garante variedade às batalhas.

Título que utiliza bem o hardware do DS

Sem dúvida, o ponto de destaque de Sonic Chronicles está nos gráficos do jogo, que combinam muito bem elementos desenhados e objetos tridimensionais, em um resultado colorido que se adéqua perfeitamente ao universo Sonic. Levando em consideração as limitações do hardware, os modelos dos personagens são muito bem feitos e cada inimigo possui uma identidade única, fácil de distinguir das demais (embora ocorram situações em que um modelo é reaproveitado utilizando uma paleta de cores diferente).

As sequências animadas que abrem cada capítulo merecem comentários à parte, pois aproveitam muito bem as duas telas do portátil na hora de narrar a aventura. Com um estilo inspirado em histórias de quadrinhos, as cenas mostram qualidade o bastante para superar muitas das animações em CG que se tornaram padrão da indústria – pena que são poucas no geral e possuem um bom intervalo entre si.

Infelizmente, todo o cuidado posto na parte gráfica parece ter sido ignorado na hora de produzir a trilha sonora. Fora algumas faixas inspiradas nas músicas clássicas da franquia, no geral as melodias são pouco inspiradas e, combinadas com os irritantes efeitos sonoros, tem tudo para fazer com que você queira abaixar o volume do DS e ligar um rádio ou MP3 player para acompanhá-lo durante a aventura.