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Desde meu primeiro contato com o gênero survival horror, ocorrido há muito tempo atrás com Alone in the Dark, fiquei fascinado por jogos que nos proporcionam experiências deste tipo. Contudo, foi apenas depois que joguei o primeiro Resident Evil que percebi como esses games eram verdadeiramente especiais. Há algo diferente nos títulos de terror que tem a participação de Shinji Mikami. As sensações de medo e aflição dentro deles não são criadas apenas pelos seres monstruosos que você encontra ou a ambientação, mas também por algo tão simples como errar disparos que você efetuou com sua arma, pois isso pode significar o seu fim.

Quando o primeiro The Evil Within foi revelado em 2012 pela revista japonesa Famitsu, com Mikami tomando as rédeas da direção, eu tinha certeza que algo especial seria concebido. Isso ficou ainda mais claro quando ele afirmou que o jogo seria um “verdadeiro” survival horror, pois estava desapontado com os games deste gênero que haviam sido lançados até aquele momento.

Embora o jogo tenha algumas falhas, como uma história não tão bem explicada quanto poderia, necessitando inclusive dos DLCs para ser plenamente concluída, fiquei satisfeito com o resultado final. Isso se deve adicionalmente ao fato de que joguei no PC, que embora tenha tido um port longe de ser perfeito, não continha os acentuados problemas de desempenho vistos nas versões para consoles e podia ser jogado desde o lançamento sem as famigeradas barras pretas “cinemáticas” nas partes superior e inferior da tela.

The Evil Within 2 chegou para dar continuidade aos acontecimentos do antecessor e tentar melhorar todos os seus aspectos. Se ele obteve sucesso ou não nisso, você confere agora nesta análise.

Sebastian Castellanos, o protagonista do primeiro jogo está de volta. O agora ex-policial e ex-detetive está com uma aparência mais abatida, pois ainda não se recuperou do que aconteceu no Hospital Psiquiátrico Beacon, há três anos, sendo assombrado a todo instante pelas experiências vivenciadas por lá. Juli Kidman, sua ex-parceira que na verdade é uma agente da corporação Mobius, que destruiu a sua vida, reaparece e lhe conta que sua filha Lily, que ele acreditava ter morrido em um incêndio na sua casa, está na verdade viva. Sua morte havia sido forjada pela Mobius, que agora precisa da ajuda de Sebastian para salvar Lily, que está perdida dentro do STEM, numa cidade virtual chamada Union. Ele então aceita a tarefa de resgatar não apenas Lily, mas também qualquer membro da Mobius que esteja lá dentro.

Como era de se esperar de um survival horror, você encontra diversas criaturas aterrorizantes ao longo da sua jornada. Mesmo as mais fracas podem te dar trabalho se enfrentadas de maneira equivocada. Lembre-se, você está jogando um jogo de terror com o toque de Shinji Mikami, portanto, o jeito que você decide encarar esses monstros é fundamental para não se frustrar.

O modo como a narrativa da história se desenrola me surpreendeu positivamente. Em nenhum momento me senti perdido, sem entender algum trecho da trama, algo que ocorreu comigo no jogo anterior. Há diversos coletáveis na forma de arquivos e memórias residuais dos moradores de Union e de personagens que você encontra por lá que são importantes para compreender melhor os acontecimentos ao seu redor. Felizmente, não são difíceis de serem localizados, algo que é ainda mais acentuado no caso das memórias, pois seu rádio comunicador sempre lhe avisa quando tem uma por perto, bastando que você sincronize a frequência para achá-la. Também existem slides fotográficos, usados para aprofundar ainda mais seus conhecimentos a respeito do que está acontecendo agora, assim como o que ocorreu há três anos em Beacon. Achar tudo isso é obrigatório? Não, mas ajuda bastante para que você tenha um entendimento abrangente da história.

Ao contrário de The Evil Within, onde o foco era centralizado em um único antagonista e três protagonistas, Sebastian, Kidman e Joseph, tentando impedir seus planos, aqui a situação muda com a inserção de diversos personagens, tanto inimigos quanto aliados, cada um com seus próprios objetivos pessoais. O papel deles é muito bem explicado durante o jogo, sendo possível até mesmo conversar com alguns deles para saber mais detalhes. A dublagem em português, que ficou na minha opinião melhor do que a original em inglês, é uma boa contribuição na hora desses diálogos. Outro aspecto muito bem vindo é que o game muda de capítulo de forma contínua, sem nenhuma pausa, aumentando o dinamismo com o qual a história decorre.

A cidade de Union lembra um pacato município dos Estados Unidos, desses onde muita gente adoraria morar para ter uma vida tranquila. Entretanto, como o local foi tomado por monstros e a maioria dos moradores foi assassinada ou transformou-se nessas criaturas, a situação foi de sonho para pesadelo. Assim que você entra lá, percebe de cara a atmosfera sinistra que ronda a área. A ambientação é fantástica, lhe passando uma sensação constante de que você não está seguro. Mudar de um design focado completamente na linearidade, indo para algo que mistura isso com um pequeno mundo aberto, foi uma decisão muito acertada, contribuindo muito na construção dessa atmosfera intimidadora.

Embora a maioria dos lugares tenha uma aparência não convidativa, a curiosidade fala mais alto e você fica com vontade de explorá-los para ver o que encontra. Alguns revelam surpresas aterrorizantes, que podem te fazer ficar de cabelo em pé se estiver jogando a noite, sozinho, com as luzes apagadas e fones de ouvido.

Fuçar cada canto da cidade e outros recintos que visitar é importantíssimo para encontrar itens valiosos que o ajudarão muito na hora de encarar as criaturas com as quais irá esbarrar-se. Decidir fazer as missões opcionais que lhes são dadas pelos personagens também é crucial para achar não apenas itens, mas novos armamentos que não podem ser obtidos de outras formas. O lado bom nessas tarefas extracurriculares é que elas, em sua maioria, não são tediosas de serem realizadas, com algumas reservando algo inesperado.

Enfrentar os monstros que residem em Union requer planejamento. Afinal de contas, você está jogando um survival horror com o selo de aprovação do criador de Resident Evil, e não um jogo de ação desenfreada. Há a possibilidade de executar uma abordagem mais furtiva, mais direta, ou uma mistura de ambas, que ao meu ver é a melhor escolha. Existem momentos onde você se depara com muitos inimigos e encarar eles diretamente o fará ficar sem munição num piscar de olhos. Chame a atenção deles atirando uma garrafa em um canto vazio e os esfaqueie por trás com sua faca. Use os elementos presentes no cenário, como barris vermelhos para explodi-los, gasolina no chão para queimá-los ou água saindo de um hidrante para eletrocutá-los.

Há criaturas, no entanto, com as quais fazer unicamente isso não será suficiente. É nelas que você precisa focar em utilizar suas armas de fogo, que não são poucas. Há pistolas, espingardas, rifles, lança-chamas e até mesmo a boa e velha besta com virotes. É necessário ver bem o tipo de inimigo que está enfrentando para usar a arma mais adequada e procurar sempre acertar a cabeça ou no ponto fraco. Os mais perigosos podem te matar com apenas um ataque, então com esses é mais vantajoso usar algo que os acerte de longe.

Em The Evil Within 2 você pode melhorar a eficácia de suas armas e também as habilidades do próprio Sebastian. Os armamentos você incrementa com o uso de peças encontradas em Union. Fazendo isso elas causam mais dano, recarregam com maior rapidez, suportam um número aumentado de balas no pente e assim por diante. No caso das habilidades, passivas e ativas, elas são obtidas usando-se o já conhecido gel que você apanha dos monstros e em frascos, sendo divididas em Saúde, Combate, Atleticismo, Furtividade e Recuperação. Focar em melhorar unicamente apenas um destes grupos por vez não é uma boa ideia. Ser mais flexível, desenvolvendo um pouco de tudo, aumenta suas chances de sobrevivência. Os armários repletos de itens também estão de volta, e achar suas chaves não é uma tarefa fácil, assim como no jogo anterior.

Graficamente o game é nitidamente mais bonito que seu antecessor, graças ao excelente uso das cores apresentadas, especialmente nos cenários. Há mudanças bem executadas nas tonalidades de acordo com a sensação que o jogo quer te passar. O visual dos monstros lhes dão aparências que são tanto perturbadoras quanto grotescas. E nada de barras pretas na tela!

Outro ponto interessante é como o jogo utiliza o som para aumentar ainda mais a imersão. Se você tiver um bom conjunto de caixas de som ou fones de ouvido, haverá ocasiões onde você se sentirá realmente dentro do game. No caso do PS4, há até mesmo a utilização da função de som do DualShock 4 para deixar certos momentos ainda mais apavorantes.

Comentando sobre bugs, eles estão sim presentes. Três deles, inclusive, me obrigaram a ter de recarregar um salvamento para continuar jogando. O primeiro foi até engraçado, onde uma das criaturas ficou grudada nas minhas pernas, gritando e berrando, e não saía mais de lá. O segundo me fez atravessar a parede quando decidi usá-la para me esconder, me jogando para fora do cenário. O último aconteceu quando eu fui matar furtivamente um inimigo, o que fez o personagem ficar correndo infinitamente em direção da parede, comigo perdendo completamente o controle sobre ele. São bugs que, embora eu tenha presenciado apenas uma vez cada e não prejudicaram a experiência que me foi proporcionada, precisam ser consertados o quanto antes.

Falando do desempenho, é de claro conhecimento de quem jogou o primeiro game que esse aspecto nele não é dos melhores, especialmente nos consoles. Entretanto, durante minhas quase 19h em The Evil Within 2 no PS4 Pro não tive qualquer tipo de problema nisso. A taxa de quadros por segundo manteve-se estável o tempo inteiro. Só achei uma lástima não haver qualquer tipo de suporte para o console mais poderoso da Sony, mas felizmente isso será implementado no futuro via uma atualização. Se você estiver pensando em jogar no PS4 tradicional ou Slim, não se preocupe, pois acredito que também não terá dificuldades técnicas no quesito performance.

Infelizmente não pude testar o jogo no Xbox One para saber como ele está rodando nele, mas tive a oportunidade de jogar um pouco no PC. O problema mais grave que vi foi conseguir manter 60 fps constantes, algo impossível até mesmo jogando nas configurações mais baixas em um i7 4790k e uma GeForce GTX 970. Entretanto, não encontrei dificuldade em jogar neste computador com os gráficos aplicados no máximo, em 1080P e com 30 fps contínuos, que é a taxa de quadros do jogo nos videogames. Uma máquina mais robusta, digamos com um i7 e uma GTX 1080, provavelmente não terá problemas em manter 60 fps pela maior parte do tempo.

Terminar The Evil Within 2 lhe abre a possibilidade de continuar jogando através de um modo “Novo Jogo+”, mantendo todos os seus equipamentos, habilidades e coletáveis. Também é liberado o nível de dificuldade “Clássico”, parecido com a dificuldade “Pesadelo”, mas sem salvamentos automáticos, apenas sete salvamentos manuais e sem a possibilidade de melhorar as habilidades ou armas de Sebastian.

Uma cópia digital do game para PS4 foi fornecida pela Bethesda para análise.