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– As barreiras e preconceitos dos videogames –

Eu li um post muito bacana sobre as cinco principais razões de não ser legal você admitir que é um gamer. Como o artigo está em inglês, resolvi fazer uma versão aqui para nós, já que muitos certamente já devem ter passado por situações parecidas com as descritas. Eu pelo menos já passei. Afinal, quando se é criança não tem problema em dizer que gosta de videogames, mas e quando você está numa idade mais adulta? Jogadores da era 8/16 Bits que hoje estão beirando (ou já passaram) ou seus 30 anos? Nós crescemos, os videogames não. E nós vivemos numa sociedade onde existe o estereótipo de que videogame é “coisa de criança” ou de “nerds solitários”.

Muitos já devem ter passado por uma situação constrangedora, especialmente quando se encontra em um ambiente com pessoas que nãoa companham videogames. Mas videogame não é “coisa de criança”, uma pesquisa apontou que a idade média dos jogadores está na faixa dos 30 anos. Mas então porque todo esse preconceito com a arte eletrônica?

Certa vez, eu estava numa balada e conheci duas garotas e começamos a conversar. Quando me perguntam no que eu trabalhava, resolvi ser sincero (coisa que eu nem sempre faço, gosto de inventar empregos e profissões… não é bonito ou correto, eu sei, mas…) e disse que trabalhava com videogames. A reação de uma das garotas foi uma risada debochada seguida pela pérola “videogames é coisa de criança”.

Confesso que aquilo foi um golpe na minha auto-estima e minha vontade era mandar a perva *&%$#, mas como eu estava interessado na amiga dela, tive que aguentar a “xaropona”. Isso é só um exemplo de milhares que tem por ai, com pessoas que têm vergonha de dizer que gostam de videogames por causa desse tipo de reação.

E porque isso acontece? Eis aqui algumas razões das barreiras, problemas e estereótipos criados pelos videogames:

5 – Não se pode mudar o estereótipo de “virgem, anti-social e solitário”

Gostar de videogames é sinônimo de ser “nerds”, ou o termo cool da moda “geek”. E ser um geek é sinônimo de uma vida social frustrada e bastante solitária, que é em parte compensada pelos videogames. Não sou eu que estou dizendo isso, mas é a mentalidade de muitas pessoas por ai. Parece coisa de filme americano, com os adolescentes de um colégio, onde tem o cara descolado, cheio de amizades, pegador, capitão do time de futebol e do outro lado tem aquele nerds franzino, óculos grandes, roupas fora de moda e vários livros embaixo do braço, geralmente o centro de gozações do cara descoladão e seus seguidores. Os filmes/quadrinhos do Homem-Aranha mostram muito bem isso.

Para ajudar na construção desse cenário temos lançamentos de games como o Game Crush, um serviço em que você paga mulheres para jogarem videogames com você ou ainda o My Wife: A Bride for You, um simulador de esposas para os solitários. Por oito dólares por 10 minutos, as garotas conversam com você, ou até deixam olhá-las pela webcam enquanto você joga.

E qual o estigma que jogos como esses nos dizem? Que se “você tem um controle de videogame nas mãos, você nunca tocou em uma mulher”. Mas o problema é que os jogadores fazem o seu papel nesse estigma, quando em chats ou no mundo virtual encontram uma mulher, agindo como verdadeiros adolescentes (e muitos realmente são).

Mas olha aqui algo que você provavelmente não sabia: segundo um estudo, dois terços dos jogadores online são mulheres. E se você está pensando “então onde elas estão, que eu nunca vejo” é porque elas evitam jogos de dominação masculina ou então jogam “disfarçadas” – 70% delas usam avatares do sexo masculinos para não terem que ficar ouvindo bobagens o tempo todo.

Mas jogos online geralmente são cheios de bobagens, com ou sem mulheres.

4 – A indústria pensa que somos todos jovens de 17 anos cabeças ocas

Pornografia é algo que dá muito dinheiro. E geralmente os jovens, sobretudo, são associados a ela. Hormônios, testosterona, puberdade, enfim.  A pornografia ainda não chegou aos videogames (pelo menos não oficialmente), mas isso está cada vez mais próximo de acontecer, como a declaração da atriz pornô Belladonna em querer fazer um game pornô. E qual o problema disso? Nenhum, eu não sou puritano e acredito que se o game estiver devidamente avaliado para maiores de idade, sem problemas.

Mas a indústria de games usa a “fantasia sexual” como importante fator para vender jogos “adultos” e geralmente, em videogames, a avaliação “Mature” significa “garotos adolescentes”. E aqui estamos nós, novamente com outro estereótipo, o de vender fantasias sexuais que atrai especificamente homens que nunca tiveram um relacionamento com uma mulher. Um exemplo perfeito disso é God of War 3, com o seu mini-jogo de sexo com Afrodite, enquanto as serviçais acompanham o “duro trabalho” de Kratos. Particularmente eu achei bacana, mas eu sou adulto, já passei dos meus 17 anos, já tive com relações com mulheres. Mas o estereótipo diz o contrário.

E quanto ao games que tem uma heroína como protagonista? Bom, geralmente seguem a fórmula básica “gostosona com pouca roupa”, como Bayonetta e tantas outras por ai. Algumas mulheres “reais” acham extremamente exagerada essa apelação sexual aos personagens femininos, algumas podem até se ofender. Outras gostam e não ligam. Mas se você tem 30 anos ou mais e diz que gosta de games, o estereótipo diz que na verdade você “é um adolescente do sexo masculino sexualmente frustrado”.

3 – O roteiro de games ainda está no nível dos filmes B

Confira abaixo, por exemplo, os 10 jogos mais vendidos do Xbox 360. Quase todos eles jogo ou já joguei e apreciei muito.

1. Halo 3
2. Call of Duty: Modern Warfare 2
3. Gears of War
4. Gears of War 2
5. Grand Theft Auto IV
6. Call of Duty 4: Modern Warfare
7. Call of Duty: World at War
8. Halo 3: ODST
9. Forza Motorsport 2
10. Fable II

O que todos eles têm em comum? Histórias fracas típicas de filmes B, como soldados armados destruindo milhares de aliens, soldados, estrangeiros e o que mais vier pela frente. Sim, é claro que existem games com histórias mais desenvolvidas, complexas e humanas, como Heavy Rain, mas esse Top 10 diz que a preferência são jogos que contam histórias de formas mais primitivas e cheios de clichês: caras bombados, brutos, soldados, gangsteres, femme fatale e por ai vai. Pegue os filmes de Steven Seagal, Jean Claude Van Damme e do mestre Chuck Norris e você terá a fórmula básica para história de games padrão B.

Ou seja, videogame é associado à “lixo cultural” que não agrega nada ao ser humano. Com certeza há vários games que realmente não deveriam nem ter saído do papel, mas por outro lado existem títulos com roteiros e diálogos excepcionais que conseguem sim afetar os jogadores e interagir com fortes emoções, arrancando risos, lágrimas, raiva e diversão.

E eu não vou nem tocar no assunto que videogames incitam a violência.

2 – ainda estamos obcecados por tecnologia nova

Um dos fatores que mais atrai nos videogames é a sua tecnologia. Desde o Magnavox os videogames acompanham o avanço tecnológico da sua época, evoluindo e aperfeiçoando seus games alcançando novos patamares, ganhando a admiração das pessoas. Isso é muito legal e necessário, mas de uns tempos para cá, podemos notar que estamos virando vítimas dessa admiração pela tecnologia, deixando de lado fatores como a diversão, jogabilidade e imersão.

Com os videogames, na maioria dos casos (com certeza muitos jogadores devem ter seus momentos inesquecíveis – eu pelo menos tenho), isso não acontece. A E3 está chegando e os temas que giram em torno são sobre aspectos técnicos como jogabilidade, gráficos HD, 3D versus personagens, história ou criatividade. O que vemos nos fóruns por ai são discussões intermináveis sobre “melhores gráficos, melhor videogame, melhor jogo” etc.

No post original, no qual que me baseei pra escrever esse artigo, o autor dá um exemplo que viu em um fórum, pessoas reclamando sobre um “defeito” no game Alan Wake. E o que será, um final que não agradou? É o personagem principal em 2D? Há um mini-jogo frustrante em que você tem que cortar os pêlos púbianos de Alan?

Nada disso. Acontece que alguém tirou uma screenshot do jogo, aumentou em 500x e contou todos os pixels para ter certeza que a resolução estava no seu máximo de 720p. E resultou que em algumas partes, ele não estava. Pronto, abriram as portas do inferno. Milhares de pessoas reclamando sobre o “grande problema”.

Para onde Alan está indo? Quem é a mulher com quem ele está falando? Aonde eles estão indo? A história chega a ser envolvente? Quais emoções essa cena quer provocar? Tensão? Humor? Terror? Afinal, como você pode se preocupar com essas coisas quando um pequeno quadro da sua caminhonete não está na resolução  máxima?

Os jogos evoluíram, e muitos são capazes de contar histórias que se conectam com as pessoas de forma mais profunda, até mudando suas vidas. Mas nem todos percebem isso pois estão preocupados demais contando o número de pixels na tela.

1 – Nós temos problemas com direitos legais

A pirataria é um problema que sempre assombrou a indústria de videogames. Facilmente você encontra pela internet sites que disponibilizam centenas de jogos para download. Ou se você preferir, pode ir naquela lojinha “mocada” dentro de um galeria e comprar games por preços bem abaixo do original. Mesmo o PlayStation 3 já existe um hacker que alega ter conseguido burlar o sistema de segurança do aparelho.

Mas então temos o Humble Indie Bundle, sistema de download de jogos independentes, sem DRMs chatas, com a diferença que você escolhe quanto quer pagar (até um centavo se quiser) e pode decidir para onde vai o dinheiro: os produtores, para caridade ou a porcentagem que vai para cada um. Não é de graça, mas você pode definir o preço que achar mais justo.

Mas ao que parece, mais de um quarto de pessoas achou que um centavo era muito para se oferecer em troca de centenas de horas para quem desenvolveu o game. E isso não inclui as pessoas que baixaram o Bundle de torrents –  isso é apenas as pessoas que piratearam os jogos diretamente do servidor dos desenvolvedores. Ou seja, além de usarem os próprios recursos dos fabricantes de jogos e não pagar nada, eles ainda custaram dinheiro pela banda de download.

Ainda existem muitas pessoas escrotas que acabam queimando o filme de jogadores que realmente apoiam a indústria de games. Um pouco de bom senso não faz mal a ninguém.

Para finalizar, parece que as barreiras dos videogames estão caindo, sobretudo graças ao Nintendo Wii que permitiu que pessoas de todas as idades pudessem jogar videogame. Hoje em dia o console não fica escondido no quarto, mas exposto na sala, ao lado do DVD e do Home Teather. Mas com certeza ainda existem muitos estereótipos a serem quebrados. O Japão é o melhor exemplo que uma sociedade pode conviver com os videogames sem barreiras e que pode ser apreciado por todas as pessoas, de qualquer idade, sem preconceitos.

Aqui no Brasil ainda existem fortes tabus a serem quebrados. Mas nós, como seres humanos e jogadores, devemos fazer a nossa parte, que é acima de qualquer coisa, respeitar as pessoas pelos os seus gostos e preferências pessoais. Essa é a melhor maneira de vencer-mos os estereótipos criados em volta dos videogames.

E você, tem alguma história para compartilhar conosco? Escreva ai nos comentários.