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por Márcio Alexsandro Pacheco

Leia uma entrevista exclusiva com o criador dos videogames  Ralph H. Baer

A indústria de videogames é hoje uma das mais rentáveis do mercado, gerando um capital na casa dos bilhões. Esta indústria possui uma longa história, que começou lá em 1948 de maneira bem simples: em tubos de imagens bastante precários.

O tempo passou e outros jogos foram aparecendo de maneira tímida, em velhos e gigantescos computadores que ocupavam uma sala inteira e mal rodavam um aplicativo como o Word. Os primeiros arcades surgiram no começo dos anos 70, mas em 1966 o engenheiro Ralph H. Baer criaria o protótipo do primeiro videogame caseiro da história.

O projeto foi ganhando forma, Baer criou um videogame para dois jogadores chamado Chase, em que dois pontos se movimentavam na tela de uma televisão. Uma pistola foi criada e mais alguns jogos, como ping-pong foram criados. O protótipo ganhou o nome de “Brown Box”, que era exatamente isso, uma caixa cheia de botões.

Baer então fechou um contrato com a empresa de eletro-eletrônicos Magnavox, fazendo algumas alterações no protótipo de Baer e em 1972 era lançado o primeiro videogame da história: Magnavox Odyssey.

As vendas iniciais do Magnavox não foram muito bem, principalmente por causa de uma má estratégia mercenária que dizia que o videogame só poderia funcionar com as televisões produzidas pela Magnavox.

Alguns meses depois do lançamento do Magnavox, seria lançado o primeiro arcade da Atari, chamado de Pong e que fez um grande sucesso. A Magnavox entrou na justiça contra a Atari, dizendo que Pong era um plágio do seu “ping-pong”. Durante a audiência, testemunhas disseram terem visto Nolan Bushnell, um dos fundadores da Atari, jogando o ping-pong da Magnavox no dia de sua demonstração e lançamento oficial, alguns meses antes do lançamento de Pong. Com a sua assinatura em um livro de visitas da feira, ficou difícil para Bushnell negar qualquer coisa e assim a Atari teve que pagar uma multa de $700.000 para poder comerciar o seu Pong. Alguns anos mais tarde, a Magnavox venceu outras grandes companhias nos tribunais, entre elas a Nintendo, que estava comerciando o Magnavox no Japão em 1975 e não estava querendo pagar os royalities. Ela tentou invalidar a patente de Baer dizendo que o primeiro videogame construído foi Tennis For Two, criado em 1958. Como ele não usava sinais de video de TV (era na verdade um osciloscópio que simulava um ping-pong) a Nintendo perdeu a causa e continuou pagando os royalities.

Esta é a breve história de como tudo começou. Está vendo o console aí do seu lado que você tanto gosta e joga? Então, ele é fruto da criação de Baer, que introduziu ao mundo a indústria de videogames caseiros com o Magnavox Odyssey.

Leia abaixo uma entrevista exclusiva que Ralph H. Baer concedeu à Gamehall:

*imagens usadas do site de Ralph H. Baer

Ralph H. Baer e suas criações

GH – Você recebeu em 2006 o prêmio National Medal of Technology. Qual foi a sensação de receber um prêmio dessa grandiosidade? Como você recebeu a notícia. Ela de alguma forma mudou a sua vida?

Baer – Este prêmio é o equivalente ao Prêmio Nobel para tecnologia. Então naturalmente eu fiquei feliz em ter a honra de ter o Presidente dos EUA colocando aquela medalha em volta do meu pescoço há um ano atrás. É uma honra única. Somente uma outra pessoa recebeu aquela medalha na mesma cerimônia na Casa Branca ano passado.

Presidente George W. Bush entregando a medalha para Baer na Casa Branca pela sua criação dos videogames

GH – Você lançou recentemente um livro, Videogame: In The Beginning. Fale-nos um pouco sobre ele e se há a possibilidade de um lançamento no Brasil.

Baer – Quando eu escrevi meu livro “Videogames: In the Beginning”, eu tive uma grande ajuda tendo acesso a todos os documentos que nós geramos durante o desenvolvimento dos primeiros videogames nos anos 60. Qualquer pessoa pode acessar estes documentos agora, bastando ir no site da Smithsonian Institute. Não há programada uma versão brasileira do meu livro, mas ele pode ser comprado através do meu site ou ainda pelo amazon.com.

capa do livro de Baer

GH – De onde veio a vontade e a boa imaginação de criar uma máquina de entretenimento para jogos? E qual sua visão para a indústria de hoje, que foi gerada por sua criação?

Baer – Criar um conceito como jogos usando uma televisão caseira não é ir muito longe, considerando que eu sou um engenheiro de tecnologia para TV e um cientista de nascença. Coloque os dois juntos e você têm os videogames. Minha visão sobre a indústria de videogames atual é que nós estamos dentro de uma ou duas gerações de poder produzir imagens totalmente foto-realísticas. Isso significa que os videogames tornaram-se uma espécie de filmes interativos. Isso é bom e muitos jogos bons usando esta tecnologia estão avaliados. Mas como na indústria de cinema ou livros, muitos jogos ruins também são lançados, socialmente e/ou na diversão. Entretanto, o mesmo pode ser dito para filmes e livros, então não vamos gastar muito tempo preocupando-se sobre o material de “baixa qualidade”.

GH – Em 1966 você já tinha o conceito de um videogame caseiro, que acabou sendo o Magnavox Odyssey lançado em 1972. O que aconteceu durante esses seis anos, porque essa demora?

Baer – O desenvolvimento em laboratório teve sete consoles consecutivos – sendo o sétimo o Brown Box – que durou entre 1966 e 1969. Era um projeto de meio-expediente que ocorria enquanto eu trabalhava na minha divisão na Sanders Associates. Não tinha nada relacionado com o trabalho real da empresa e consequentemente Bill Harrison (que cuidava do hardware) foi chamado alguns meses depois para trabalhar em projetos mais importantes, projetos eletrônicos militares. Nós demonstramos o Brown Box para várias fabricantes de TV em 1969. Então levou mais dois anos até ter a licença da Magnavox. E aí está onde todo o tempo passou. Os engenheiros da Magnavox então gastaram menos de um ano para converter o Brown Box no produto final, o Odyssey. Foi mostrado ao público pela primeira vez em Maio de 1972.

o protótipo final, Brown Box e sua pequena pistola

GH – Como começou na Magnavox?

Baer – Eu nunca comecei na Magnavox. A Magnavox tinha a licença para produzir e vender os videogames sob nossas patentes. Eu trabalhei com a Magnavox na produção do Odyssey mas eu nunca fui empregado deles.

propaganda da Magnavox para o agora Odyssey

GH – Com uma idéia tão inovadora, você encontrou muitas dificuldades para colocá-la em prática? Como as pessoas reagiam quando você dizia o que pretendia fazer? Alguma pessoa disse que você estaria perdendo seu tempo ou algo assim?

Baer – Em meu livro, eu falo sobre isso e você verá que quando eu demonstrei pela primeira vez o TV Game # 2 (que eram jogos bastante primitivos de perseguição e pistola) à gerência da Sanders, não houve muito entusiasmo para o que eu estava fazendo. Comentários do tipo “você ainda está perdendo tempo com essa coisa?” eram comuns por alguns anos. Esses comentários mudaram rapidamente quando os royalties das licenças e dos lítigios começaram a aparecer em milhões de dólares.

GH – Na época você trabalhava para a Equipment Design Division at Sanders Associates Inc, uma indústria de Defesa americana. Seria então o conceito que você teve um sistema de uso militar para os EUA?

Baer – Eu era o encarregado no setor de design de equipamentos das Sanders Associates, que tinha em volta de 500 engenheiros, técnicos e assistentes trabalhando no meu setor. O trabalho que eu tive com videogames usava uma parte minúscula do meu tempo e atenção e não tinha absolutamente nada relacionado com o trabalho militar feito na Sanders. Era apenas algo que eu queria fazer e eu estava em uma posição que me possibilitava isso, sendo o encarregado. Anos mais tarde, nos anos 70, eu iria usar videos interativos com técnicas de treinamento e educação. Então coisas como simuladores de armas e equipamentos de treinamento usando videos interativos tornou-se uma parte importante nos negócios da Sanders. Mas não antes disso.

GH – Como você reagiu à chegada da Atari no mercado, a maior concorrente do Magnavox? Houve um problema na justiça com o jogo Pong da Atari, não? Poderia nos falar um pouco sobre isso.

Baer – A idéia original para o Pong foi desenvolvida por Nolan Bushnell (que fundou a Atari) jogando um game de ping-pong do Magnavox lançado em maio de 1972. Depois de 1975, não havia competição apenas entre a Atari e a Magnavox mas também entre outras empresas que estavam entrando no ramo dos videogames, como a Coleco. O avanço da tecnologia do semicondutor tornou possivel o desenvolvimento de chips únicos, abaixando o custo dos videogames. Atari foi a primeira a tirar vantagem desta tecnologia com o jogo caseiro Pong, que eles venderam no natal de 1975, mas a Magnavox, Coleco e outras empresas (a maioria de Taiwan e China) encheram o mercado com produtos semelhantes. Todas essas empresas, incluindo a Atari, tornaram-se licenciadas legítimas das nossas patentes. Todas aquelas não licenciadas (como a Mattel, Activision, Nintendo, etc) foram levadas à justiça e eventualmente tiveram que pagar milhões de dólares para a Sanders/Magnavox.

Ping-Pong do Magnavox vs Pong da Atari

GH – A Atari dominou o mercado de videogames nos anos 80, até a chegada da Nintendo com o seu videogame de 8 bits. Mas antes disso, a Nintendo distribuía o Magnavox no Japão. Como aconteceu essa parceria?

Baer – A Nintendo é uma empresa japonesa, então naturalmente, seu videogame que era chamado de Famicom, foi primeiro comercializado no Japão. Levou em volta de um ano para a Nintendo introduzir o console nos EUA, conhecido agora como Nes, quando o mercado de videogame estava essencialmente morto. Eles o ressuscitaram com o Nes.

GH – O que você pensa sobre o mercado japonês de videogame? Antigamente era um mercado bem diferente do ocidental, mas hoje em dia os dois mercados parecem mais unidos.

Baer – Eu realmente não sei muito sobre as diferenças dos mercados. Eu não sei se muitos dos jogos que jogamos no ocidente são substancialmente diferentes do mercado oriental. Não acho que sejam tão diferentes mesmo que nossas culturas sejam.

GH – O que você acha dos videogames de última geração, como o Wii, XBox e o Playstation 3? Já chegou a jogar algum deles?

Baer – Eu acho que o PS3 está com um preço muito elevado e que o Wii possui capacidades inovadoras, e é um produto muito melhor. Entretanto, para muitos gamers por aí, o PS3 é um sistema indispensável.

GH – Qual a geração de videogames foi mais marcante para você?

Baer – Na minha idade (85) jogar videogames não é algo que eu continue fazendo. Eu me sinto muito mais confortável com o bom e velho Nes do que com os consoles modernos.

GH – Você ainda joga? Com que freqüência joga, e quais consoles e jogos?

Baer – Raramente, somente quando meus netos me visitam e trazem seus consoles, e ainda com relutância pois eu sempre perco.

GH – Durante todas essas décadas, vários gamers designers apareceram no mercado, como Shigeru Miyamoto, Yuji Naka e Hironobu Sakaguchi, entre outros. Tem algum game designer que você admire, pelo seu trabalho, criação?

Baer – Eu não jogo e não acompanho mais o mercado de games. Fico muito ocupado criando brinquedos eletrônicos, como eu tenho feito há 30 anos, então eu não sei nada sobre esses gamers designers, exceto pelo o que eu leio ocasionalmente na imprensa.

GH – O que você acha dos jogos de hoje? Parece haver uma grande preocupação em termos gráficos e técnicos e o fator criatividade e diversão foram deixados de lado. Seriam os jogos de antigamente mais divertidos e criativos?

Baer – Eu admiro a qualidade técnica dos jogos modernos, mas tem o mesmo problema que eu possa ter com alguns livros ou filmes. Alguns são bons, alguns ruins, alguns ofensivos, alguns têm pouca, ou nenhuma diversão, apenas gráficos coloridos e muita ação entediante, de acordo com os meus netos. Pessoas diferentes terão opiniões diversas nestes jogos, assim como acontece com os livros e outras formas de arte. Há muita discussão sobre a diminuição de sangue e violência nos games, mas é isso que vende, ou pelo menos é o que parece.

todos os sete protótipos do Odyssey

GH – Dos videogames recentes, o Wii da Nintendo é o mais inovador. A Nintendo decidiu optar por um console que não fosse tão poderoso quanto os dos concorrentes e apostou no fator de criatividade e diversão. Será que ela fez a escolha certa?

Baer – Eu absolutamente acredito que a Nintendo fez a escolha certa. Digo isso porque em 1990 e 1991 eu criei um controle similar de captura de movimentos, que dava a sensação ao jogador de fazer parte no jogo, não apenas sentar e apertar botões. Eu estava 15 anos adiantado e não encontrei nenhuma empresa que tivesse interesse em seguir nesta direção.

GH – O que você pensa dos gamers de hoje em dia em comparação com os de antigamente? Há muita diferença ou só mudou a tecnologia?

Baer – Eu acredito que há vários tipos de jogadores. Por exemplo, jogadores mais velhos que na maioria jogam em celulares preferem jogos mais simples como os dos anos 80 e 90. Há lugar para todos os tipos de jogadores, com os jogos na web para múltiplos jogadores ganhando terreno rapidamente.

GH – Quais são os seus tipos de jogos favoritos?

Baer – Jogar nos consoles modernos na minha idade não é mais prático. Dê-me um velho Mario no Nes e eu jogarei, qualquer outro além disso, por favor vá embora e me deixe sozinho para fazer minhas coisas.

GH – Você conhece o Brasil? Como é a imagem do país, em termos de videogames, nos outros países?

Baer – Infelizmente, uma boa parte das pessoas nos EUA sabem quase nada sobre o Brasil. Já estou aqui há bastante tempo para saber disso, pelo menos as maiores cidades ao redor do mundo são bem parecidas, exceto por algumas diferenças culturais. Então eu posso presumir que não há muita diferença de um gamer de São Paulo e um de Chicago. Pessoalmente nunca estive muito no sul além da Venezuela e Panamá, mas se você me convidar, eu posso dar uma passadinha no Brasil.

GH – Aqui no Brasil temos uma forte indústria de videogames. Na época dos 16 Bits a Sega e Nintendo tinham representantes aqui, e com certeza foram os melhores tempos que os brasileiros já tiveram em termo de videogames. Hoje não temos nenhuma representante e há muita pirataria aqui. O que você pensa sobre a pirataria?

Baer – Considerando a pirataria, não havia nada disso então não era um problema para a Magnavox. Mas o plágio de games, entretanto, começou cedo. Em 1973, por exemplo, a Atari distribuiu 7.000 arcades do Pong, mas Seeburg e a Midway produziram ainda mais, todos eles cópias do jogo da Atari. Isto resultou em vários precessos judiciais.

GH – Quais os seus planos para o futuro?

Baer – Meu futuro, assim como foi meu passado, está envolto com mais invenções, a maioria no setor de brinquedos e jogos eletrônicos, pois é o que eu amo fazer e tenho feito por várias décadas. Mais do que isso eu rogo para continuar com saúde para que eu possa dar uma “esticada” por mais alguns anos.

GH – Gamehall agradece ao seu tempo e por favor, deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Baer – O prazer foi todo meu. E para todos os seus fãs: Continuem jogando, Brasil… e divirtam-se muito fazendo isso!

This is Odyssey… the exciting electronic game center