Análises

Zillion

Escrever sobre Zillion para mim é bastante nostálgico e traz muitas boas lembranças, pois era nessa época que minha paixão por animes despertava (Zillion e Macross – ou Guerra das Galáxias, como foi traduzido aqui – eram meus favoritos no final dos anos 80), assim como a sua versão jogo para Master System, que infelizmente é pouco conhecido, mas é um baita dum jogão para o carismático console 8 bits da Sega.

o jogo já começava detonando com JJ atirando na tela de abertura!

Zillion era a resposta da Sega para Metroid, lançado em 1986 para o NES e que foi um sucesso mundial, em parte, graças à genialidade de Gunpei Yokoi (criador do Game Boy) ao criar estruturas de fases não lineares criativas e desafiadoras. A Sega não podia ter Metroid em seu sistema e então resolveu criar o seu próprio filho. Mas Zillion não nasceu como um jogo, mas sim como um anime, produzido pela Tatsunoko Productions (que produziu vários animes de sucesso, como Macross e Evangelion, apenas para citar dois), que por sua vez foi criado para servir de propaganda para a pistola Light Phaser do Master System (eu mesmo queria uma por causa do anime). Então, antes de falar sobre o game, vamos ao anime.

Akai Koudan Zillion

Criado pela Sega em parceria com a Tatsunoko, Zillion foi ao ar em abril de 1987 (e que chegou ao Brasil com uma ajudinha da Tec Toy), com seu último episódio passando em dezembro do mesmo ano, no Japão. A ideia era ajudar na divulgação da pistola do Master System, usada pelos três personagens principais da série, além dos dois games que seriam lançados naquele mesmo ano para o console. Mas o que poderia ter sido apenas mais uma jogada de marketing nipônica, acabou se transformando em uma ótima série de qualidade, com apenas 31 episódios.

Uma segunda temporada estava prevista, mas reza a lenda que as duas empresas tiveram “problemas de relacionamento” e assim o projeto Zillion foi arquivado e esquecido nas brumas do tempo, infelizmente. Inclusive, o último episódio deixa várias pontas soltas.

JJ jogando o bom e velho Master System no futuro!

A história se passa no ano de 2387 no planeta Maris, uma colônia humana considerada como uma segunda Terra, que está em guerra contra os alienígenas Nozas, que são tecnologicamente mais avançados e poderosos, e nenhuma arma construída pelo homem parece ser capaz de derrotá-los. Mas quando tudo parecia perdido, surgem misteriosamente três pistolas muito poderosas que conseguem derrotar os invasores, que foram chamadas de Light Phaser Zillion.

Assim uma organização secreta de nome White Knights fica responsável pela seguranças e uso das pistolas, e procuram pelos melhores atiradores do planeta. Muito mais do que as pistolas, o anime se destacava pelos caricatos personagens. E dentre os três, o que mais chamava atenção era com certeza o JJ, garotão malandro, safado, preguiçoso, um aloprado total que sempre arrumava confusão. Também tinha o Champ, cara metido a fodão (e as vezes era mesmo) cujo hobby era fazer tricô (?!) e a bela Apple, gatinha que JJ vivia dando em cima. Somente eles, utilizando as pistolas Zillion, seriam capazes de derrotar o império Noza e salvar a humanidade.

a pistola vendida pela Sega

Do anime para o Master System

Com o sucesso do anime, rapidamente veio game, lançado em maio de 1987, produzido pela Sega e Tatsunoko. Se você conhecia o anime, jogar sua versão game era bem mais prazerosa. Tínhamos ali uma aventura espacial futurística, com ação de plataforma 2D não linear em que você explorava bases subterrâneas, ganhando mais poder de fogo para sua arma, resolvendo puzzles e acessando novas áreas. Parece familiar? Se você já jogou algum Metroid na vida, certamente vai reconhecer esses padrões.

Mas além do clássico do NES, o jogo tinha fortes influências de outro título ainda mais antigo: “Impossible Mission“, lançado para Commodore 64 em 1984. Nele você controlava um agente secreto que acessava terminais de computadores para abrir portas, desligar dispositivos e acessar novas áreas, sistema esse também utilizado em Zillion (porém o personagem de IM não usava armas e tudo que podia fazer era desviar dos inimigos/obstáculos).

chegando no planeta inimigo em busca dos disquetes perdidos!

Assim, Zillion era uma mistura desses dois jogos, resultando em um produto de qualidade muito boa. Ele possui uma história bem simples, inspirada no anime: Os White Knights, uma força pacificadora dentro do Sistema Planetário, estão em missão para destruir a base do maléfico Império Noza no Planeta X. Para fazer isso, JJ, o personagem principal, precisa se infiltrar na base e adquirir cinco DISQUETES que o permitirão inserir a sequência de autodestruição no computador central.

O jogo começa com sua nave aterrizando na superfície do planeta, e assim JJ precisa abrir caminho pelo labirinto subterrâneo lutando contra inimigos, evitando perigos e resgatando seus dois companheiros capturados, Champ e Apple, para então destruir a base.

aqui é onde começa a sua aventura

Percorrendo labirintos malditos

O jogador começa controlando JJ, do lado de fora da nave mãe na superfície do Planeta X, com a missão de adentrar na base subterrânea dos Noza, um labirinto que vai se complicando na medida em que se avança. Assim como Metroid, cada área é uma “sala” fechada contendo terminais com senhas, cartões de acesso, itens de atualização para sua arma e recarga de energia. Para entrar e sair nas salas da base é necessário destravá-las usando os cartões e inserindo códigos de quatro dígitos corretamente (de uma lista de dez). Com esses códigos é possível realizar outras ações, como desligar barreiras, desativar armadilhas ou até mesmo cometer suicídio. Alguns dos obstáculos da missão envolvem minas terrestres, guardas inimigos, canhões laser e campos de força.

para acessar os terminais tinha que decorar os fuckin códigos (eu dava apelidos, como “florzinha”, “coração”, “copo”…)!

JJ usa como arma a sua pistola do Master System, e enquanto o jogo progride, é possível deixá-la mais poderosa, e assim arrebentar obstáculos mais resistentes. Quando resgatados, o jogador pode jogar com Apple ou Champ, cada um com suas próprias diferenças; Apple é rápida e salta mais alto, porém é mais fraca e Champ é lerdo, mas forte. Assim como JJ, eles também podem subir de níveis e evoluir suas estatísticas: poder de fogo, velocidade, habilidade de salto e energia.

acesse os terminais para pegar os códigos, itens e power-ups

O jogo não é difícil, porém é para poucos, porque ele é bastante longo e complexo. Começa fácil, mas os labirintos vão ficando mais complexos e confusos, é um sobe e desce de elevador e entra e sai de salas do início ao fim. Não há sistema de mapas, o que deixa a coisa ainda mais complicada. Eu desenhava em folhas de papel os mapas e os malditos fuckin códigos, pois não existia as facilidades de internet e Google, e ainda assim me perdia (levei dias mapeando o lugar, só para então começar a jogar mesmo). Para completar há o momento “shit happens” mais motherfucker de todos os tempos: ao chegar no computador central e inserir os códigos de destruição da base, uma contagem regressiva começa para você cair fora de lá para sua nave pousada no solo do planeta. Era fugir do meio do miolo de um labirinto nervoso, sem mapa, sem nada! E ainda para ajudar, no meio da fuga aparece um monstrão para ser destruído, com o tempo passando, é claro. Um dos momentos mais tensos e nervosos que me recordo da minha vida de gamer!

o mo-mo-monstrão no final do jogo

Outra coisa que complica bastante é que o jogo não possui sistema de password ou de save. Ele inteiro é uma única gigantesca fase para ser terminada numa jogada! Só para jogadores nível hardcore. Na época eu tinha a ajuda de um amigo, nos alternando entre as jogadas, mas quando um ou outro morria, acabava em brigas apoteóticas. É uma recordação de infância que muitos que o jogaram naquela época devem ter.

elevadores estão em toda parte e é bem fácil se perder

Os gráficos são bem modestos, os cenários de fundo são no geral azuis (temos algumas salas vermelhas e cinzas) e o design dos personagens não são lá muito bonitos (são meio desengonçados na verdade). Mas eles funcionam bem na tela e atendem aos propósitos visuais, e o mais importante, respondem rápido aos comandos, coisa imprescindível aqui, pois há muitos pulos, tiros e desvios a serem feitos.

tela de estatísticas dos personagens, que podem ser evoluídas 

A trilha sonora é muito bem composta, com assinatura do lendário “Bo“, compositor da Sega que fazia trabalhos genias no Master System e Mega Drive, entre os quais podemos destacar “Alex Kidd in Miracle World“, “Phantasy Star“, “Castle of Illusion“, “QuackShot” e ainda deu uma ajudinha para Yuzo Koshiro nos clássicos “The Revenge of Shinobi” e “Streets of Rage“, entre vários outros. Apesar de tecnicamente boa, infelizmente a trilha sonora de Zillion não é muito variada, com uns três ou quatro temas apenas (todas baseados nas canções do anime, “Break a trap for yourself” e “Push“, caso esteja curioso), e com o tempo pode se tornar repetitiva. A música tema do anime, “Pure Stone“, toca na abertura do jogo, e em algumas áreas, e certamente é uma das mais belas composições que você pode ouvir em toda a sua glória 8 Bits.

escute a versão tema de Zillion no Master System

O jogo teve uma sequência, conhecida como “Zillion II: The Tri-Formation Cycle“, mas apesar de gráficos mais elaborados, teve sua jogabilidade “metroidvania” totalmente alterada, sendo mais agora um jogo de plataforma e tiro 2D normal, que acabou não agradando muito aos fãs. Ao menos temos como legado da Sega o fabuloso anime, que eu fortemente recomendo que você assista se curte animação japonesa, e o belíssimo primeiro game. Um jogo que merecia um remake da Sega para consoles atuais, sem dúvida nenhuma!

Márcio Pacheco

Márcio Alexsandro Pacheco - Jornalista de games, cultura pop e nerdices em geral. Me add nas redes sociais (links abaixo):

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