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Análise | Resident Evil Village dosa bem ação e terror em um dos melhores jogos do ano

O debate sobre o que faz um jogo ser um Resident Evil de verdade será eterno. Desde o clássico, protagonizado por Jill e Chris no PS1, a franquia vem passando por diversas mudanças. A quantidade de ação e terror, a câmera e, especialmente, a ambientação, são quase sempre modificadas de um título para o outro. Resident Evil Village é, talvez, o mais ousado e experimental em todos esses pontos e, ao contrário do que o temor dos fãs mais puristas prega, entrega uma das melhores experiências da série.

Ethan finalmente protagonista

O oitavo jogo da linha principal da série começa alguns anos após Resident Evil 7. Após os acontecimentos na mansão Baker, Ethan e a sua esposa, Mia, se mudam para a Europa em busca de paz e segurança, seguindo as orientações do icônico Chris para se protegerem. O casal já tem uma filha, Rose e, ao que parece pelos primeiros minutos do jogo, vivem uma vida tranquila, mas ainda com alguns traumas por conta do horripilante passado recente.

Tudo muda quando do nada, realmente do nada, Chris e os seus comandados invadem a casa, descarregam os pentes de suas armas na Mia e levam a Rose com eles. Ao Ethan não é deixado nada, nem mesmo o corpo da esposa ou uma resposta sobre o que farão com a sua filha. Se você já conhece o rapaz por meio do jogo anterior, sabe que ele vai atrás da filha, nem que isso custe a sua vida.

Diferentemente do que vimos em Resident Evil 7, um Ethan caladão e que é meio alheio ao que está acontecendo, em Village o protagonista não só mostra mais da sua personalidade, como se tornou um dos meus favoritos da franquia. Ao longo da jornada, ele tem diálogos mais interessantes, supera medos, se emociona e também xinga bastante. Como a história foca nos seus sacrifícios e luta pela família, abre espaço para ele brilhar e se conectar com quem está jogando no sofá.

Isso se torna ainda mais notável para alguns por conta da dublagem. Essa parte é pura preferência pessoal, mas é um tremendo de um ponto positivo existir a opção, pela primeira vez na saga, de jogar com as vozes dubladas em português. Mostra o carinho que a Capcom tem com os fãs brasileiros de Resident Evil.

Lobisomens e vampiros?

A jornada de Ethan em busca da filha e de respostas então começa. Seria Chris o vilão da história? Por que mataram a Mia? O que querem com a Rose? As perguntas são muitas e o herói parte atrás do comboio dos soldados que acabaram com a sua vida.

O caminho leva para uma vila escondida e, meu Deus, como é bonita. Em uma cena que lembra um protagonista de Fallout saindo do Vault pela primeira vez, somos apresentados ao palco das nossas próximas horas de terror. Ao fundo, um castelo enorme de arquitetura gótica, e logo abaixo uma vila que parece mais pobre, contornada por florestas e rios, tudo coberto por neve. Ao mesmo tempo que é bela, ela é mórbida e conta com aquele ar de que a morte ronda cada esquina.

Esse é um bom momento para fazer aquela reverência obrigatória ao motor gráfico RE Engine. O jogo é belíssimo, repleto de detalhes e roda liso em todas as plataformas em que foi lançado, inclusive da geração passada. A adição do ray tracing para a próxima geração não é tão impactante, mas acrescenta na experiência e, tirando algumas texturas menos detalhadas, no geral é uma experiência visual deslumbrante.

Pela forma como descrevi a ambientação, você provavelmente já foi logo pensando se Village é um “Resident Evil de Verdade”. Vila? Castelo? Isso está com cara de Resident Evil 4, um dos ápices da franquia e que, por modismo da modernidade, passou a ser odiado por alguns dos jovens na internet. Bom, lembra muito o Resident Evil 4 e, pelo lado bom. Também lembra muito o Resident Evil 7, obviamente, outro que é tido como não Resident Evil por conta da sua câmera. Na verdade, a melhor descrição é uma combinação do 4 com o 7. Sim, tem até um vendedor e corvos que deixam dinheiro ao morrer.

Dando sequência na narrativa sobre os fungos e explorando os espaços criativos que são gerados com isso, a Capcom colocou aqui seus inimigos mais distantes dos clássicos zumbis. Há uma espécie de lobisomem, que teve seu comportamento muito bem feito. Também há vampiros e diversos monstros quase indescritíveis, que no primeiro momento não fariam sentido nessa franquia, mas funcionam e muito bem.

Os lobisomens, por exemplo, estão sempre em ambientes com um certo espaço para se esconder. Como eles atacam em bando e chegam por todos os lados, é possível se esconder em uma casa e trancar a entrada com uma prateleira, por exemplo. A música se intensifica e os monstros tentando quebrar as portas e janelas tornam a experiência em algo memorável e aterrorizante.

Aliás, a variedade de inimigos é uma das maiores da saga, se não for a maior. São muitas variações entre cada tipo de inimigos e em cada área novos tipos são apresentados. Junte isso aos chefes, que contam com batalhas bem legais, e o resultado é o jogador sempre empenhado em descobrir mais.

Quatro lordes e uma matriarca

A dinâmica do jogo é bem definida logo de cara, daquelas que você sabe o que esperar em termos de para onde a aventura vai, ao menos até os momentos finais. A vila é controlada por quatro lordes que seguem e obedecem, ao menos no papel, a misteriosa Mãe Miranda.

A primeira delas você já cansou de ver, ou não, pelas redes sociais: a gigante e vampira Dimitrescu, dona do castelo da vila. Temos também a Beneviento e suas bonecas, o deformado Moreau e, por fim, o descolado e rebelde Heisenberg.

Cada lorde domina uma área que vai desafiar Ethan a enfrentar os seus piores pesadelos e, na prática, vai acabar funcionando como uma mini campanha diferente, com focos distintos. O castelo é o clássico Resident Evil dentro de uma mansão, com portas trancadas e muitas idas e vindas. Já a parte da Beneviento é terror puro, em um dos momentos mais tensos de toda a série.

Essa alternância faz com que o jogador raramente se canse e deixa a dinâmica do jogo divertida e fresca. Dosa bem os momentos de ação e terror e, por incrível que pareça, sem perder o ritmo da narrativa, que é sempre alucinante. O principal problema é que algumas partes parecem aceleradas. Se você acompanhou os vazamentos dos documentos internos da Capcom no ano de 2020, sabe que vários trechos receberam cortes. Esse é provavelmente um fruto dos tempos de pandemia, então nem dá para pegar pesado. Áreas como a do Moreau foram muito curtas e pouco exploradas, e a interação entre os vilões e especialmente Chris, também.

Outro ponto negativo na campanha é quantas ligações importantes da narrativa são feitas por meio dos documentos. Tem certas coisas que ainda dá pra relevar, mas há outras que os personagens deveriam desenvolver e falar nas cutscenes. Um dos últimos momentos do jogo, onde as maiores revelações são feitas, acontece por meio da leitura dos documentos e nada mais. Se você passar batido por algum deles, já era, só jogando de novo para descobrir.

Toda essa jornada pelas áreas dos lordes tem como suporte a própria vila, que serve como um Hub para se preparar antes de partir para cada nova jornada. O mais interessante é que a própria vila vai passando por mudanças ao longo da jornada e explorar cada cantinho engrandece demais a aventura. Sem contar o tempo das cutscenes, levei cerca de treze horas para finalizar a campanha pela primeira vez, coletando tudo que fosse possível, um tempo mais do que satisfatório para o gênero e até superior à maioria dos jogos da franquia. No entanto, por conta de algumas áreas curtas demais e a qualidade geral do jogo, daria para adicionarem mais cinco ou até dez horas facilmente nesse contador final.

No fim fiquei com a sensação de ter jogado o melhor início e final de um jogo da saga. A conclusão deixa muita coisa aberta para continuações e a vontade de continuar jogando foi tão grande que minha segunda jornada pela campanha começou imediatamente após o final.

Áudio espacial imersivo

Um tópico que acho essencial para essa análise é sobre o áudio espacial, ou tridimensional que foi implementado no jogo. Se você possui um fone com suporte para áudio 3D, não deixe de testar no Resident Evil Village. Eu tenho a convicção que a experiência é infinitamente superior, realmente outra, para quem jogar assim.

O áudio espacial é simulado nos fones, o que pode fazer perder alguma qualidade de áudio no fim das contas, mas é pouca coisa e o que se ganha em imersão é incomparável. Em várias partes, como a prisão do castelo, ouvir os inimigos chegando por todos os lados é aterrorizante e muito imersivo. Bater em uma corrente e ouvi-la chacoalhando ao fundo se torna algo muito maior do que é na ambientação. Corvos levantando voo, as perseguições da Dimitrescu, são dezenas de momentos que estão na minha mente e só foram memoráveis assim por conta do áudio.

Como o jogo tem o marketing da Sony, foi desenvolvido com muito cuidado pensando na Tempest Engine e o resultado é realmente impressionante e até o agora o que mais mostrou o potencial da tecnologia no PS5. Para quem joga no Xbox ou PC, basta apostar no Dolby Atmos.

Pacote completo

Como um bom Resident Evil, agora sim seguindo uma norma da franquia, Resident Evil Village conta com um pacote de conteúdo completíssimo. Após zerar, você terá acesso à loja de extras, que conta com novas armas, suas munições infinitas, concept arts e modelos 3D dos personagens e monstros do jogo. Como é liberada também uma nova dificuldade, jogar a campanha novamente e tentar bater os desafios das conquistas e troféus é um convite quase irrecusável.

Além disso, há o aguardado retorno do modo Mercenários, em que você pode gastar horas e horas tentando os rankings mais altos em cenários feitos para botar a parte de ação do jogo como destaque. No fim das contas, é um conjunto de conteúdos que faz o jogador ter a sensação de que o dinheiro investido valeu a pena.

Conclusão

Resident Evil Village não tem medo de inovar dentro da franquia e apresenta a ambientação e inimigos mais distantes dos jogos clássicos da série. Com uma mistura de Resident Evil 4 e 7, entrega terror e ação bem dosados, que assim como praticamente tudo inserido aqui, funciona muito bem.

Algumas partes parecem corridas demais, mas no geral a narrativa é sólida, com um Ethan bem mais desenvolvido como personagem e que vai se tornar um dos mais queridos da franquia. Com um pacote legal de conteúdo, vale a pena em todas as plataformas onde foi lançado.

Prós

  • RE Engine entrega qualidade e performance em todas as plataformas
  • Ethan é um personagem mais desenvolvido e com camadas
  • A Vila é deslumbrante e deliciosa de se explorar
  • Personagens marcantes
  • Áudio espacial muito bem implementado

Contras

  • Algumas partes são curtas demais
  • A interação entre os lordes da vila é pouco explorada
  • Muito da história fica escondida em documentos que nem todo mundo vai encontrar ou ler
  • Chris foi menos relevante do que deveria

Nota: 8.5

Uma cópia do jogo para PS5 foi fornecida pela Capcom para elaboração desta análise

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