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Os vídeos virais hoje em dia fazem parte do nosso cotidiano, mas há 20 anos atrás, quando ainda nem existia o YouTube, WhatsApp, nuvem e outros serviços que facilitam a propagação online, a história era bem diferente.

Você talvez já tenha visto esse vídeo, conhecido apenas como “Bad Day” (Dia Ruim), ele começou a circular pela internet em 1997 através de emails e é conhecido como um dos primeiros vídeos virais da história da internet.

Nele, vemos um homem trabalhando em um escritório, que por algum motivo está bem estressado com o seu computador (quem nunca?), um PC antigo com monitor CRT, que acaba virando o alvo da raiva do homem.

O vídeo também serve de material para uma conspiração. Preste atenção: o computador está desconectado e há quem diga que o homem, em uma inspeção mais próxima, está sorrindo. Um dos primeiros vídeos virais – e talvez o vídeo viral mais popular de todos os tempos – também seria uma das principais mentiras da internet?

Veja o vídeo abaixo:

O Primeiro Viral

E realmente o vídeo não passou de um teatro. Vinny Licciardi, o “astro” do clipe, não percebeu que ele havia se tornado viral até ouvir de um de seus colegas de trabalho tinha visto um vídeo dele batendo em um computador na TV. Obviamente não foi chamado de “viral” – não havia um precedente real para esse tipo de coisa.

Na época, ele estava trabalhando em uma empresa de tecnologia baseada em Colorado chamada Loronix. O vídeo foi filmado neste local, e o computador que ele destruiu pertencia à empresa, mas ele não era um empregado de cubículo frustrado. A Loronix na verdade era um lugar divertido para trabalhar, o tipo de startup tecnológico onde os funcionários ficavam até tarde jogando Quake online pela linha telefônica da empresa. Eles geralmente não destruíam seus equipamentos de escritório.

A Loronix estava desenvolvendo tecnologia DVR para sistemas de câmera de segurança e amostras necessárias para demonstrar aos clientes potenciais como funcionava. Assim, Licciardi e seu chefe, o diretor de tecnologia Peter Jankowski, obtiveram uma câmera de vídeo analógica e começaram a filmar.

Eles filmaram Licciardi usando um caixa eletrônico e fingiram pegá-lo roubando o armazém da empresa. Licciardi gostou da brincadeira e decidiu que queria ser um “funcionário descontente”, o que deu uma ideia ao chefe. “Nós tínhamos alguns computadores que haviam morrido e monitores e teclados que não estavam funcionando, então nós basicamente colocamos isso em um cubículo em uma mesa“.

Jankowski dirigiu a filmagem, enquanto Licciardi foi até a cidade com um monitor quebrado e uma caixa de computador vazia. Foram feitas duas tentativas. “Na primeira tomada, as pessoas estavam rindo tão forte que tivemos que fazer uma segunda“, diz Licciardi.

Eles converteram o vídeo para MPEG-1, de modo que funcionasse melhor no Windows Media Player e atingisse a maior quantidade de pessoas – “Excelente resolução – 352 x 240“, acrescenta Jankowski, rindo. Eles colocaram o vídeo em CDs promocionais e os distribuíram em feiras comerciais com uma brochura da empresa, e então se esqueceram sobre eles.

Foi somente no ano seguinte que o arquivo “badday.mpg” começou a circular em várias empresas. O arquivo grande causou alguns problemas. “Loronix recebia chamadas dessas empresas dizendo: ‘Ei, você sabe que o seu vídeo está sendo transmitido, e está derrubando servidores de e-mail‘”, diz Licciardi.

Licciardi experimentou a estranha fama parcial de outras estrelas de vídeo viral. “Eu estava viajando em um avião, conversando com o cara ao meu lado, contando-lhe sobre o meu vídeo. E ele ‘Eu vi isso’. E o cara que está atrás de mim também diz ‘eu também vi isso!’ E a aeromoça estava falando: ‘Oh, sim, sim, sim, eu vi isso!’ É surpreendente quantas pessoas viram isso“.

A Teoria da Conspiração

Hoje, a propagação do badday.mpg naquela época parecia algo quase impossível. Não havia nenhum YouTube, nenhum site de vídeo, os emails tinham espaço de armazenamento limitado, e não havia realmente uma infraestrutura para lidar facilmente com a distribuição em massa de conteúdo de vídeo.

Hospedar um vídeo custava dinheiro; fazer o download levava tempo. E depois de baixá-lo, você devia abri-lo em um dos poucos players multimídia, como o Real Player Plus ou o Windows Media Player. É impressionante que qualquer conteúdo na época pudesse ser viral.

Mas existe algo bastante curioso sobre o vídeo. Como a maioria das pessoas, o desenvolvedor web Benoit Rigaut viu o vídeo em 1998, depois que um amigo o enviou por e-mail. O anexo foi uma versão curta e de baixa qualidade do original. Ele foi cativado e buscou uma versão de qualidade superior. Demorou algum tempo para baixar – ele estima 20 minutos. “Definitivamente havia algo especial neste vídeo”, recorda Rigaut. “Uma verdadeira catarse da experiência de computação de alguma forma frustrante“.

Então, em um fim de semana chuvoso, Rigaut fez um site dedicado ao vídeo, principalmente para que ele pudesse compartilhar o enorme arquivo sem explodir as caixas de entrada de seus amigos. Ele já havia trabalhado na CERN [Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, local onde foi criada a World Wide Web] e ainda tinha acesso total ao seu web hosting: “Coloquei o arquivo de 5 MB no maior nodo de armazenamento digital da Europa, sem qualquer contingente de tráfego“.

O site tinha a aparência das antigas páginas Geocities: fundo preto, arte ASCII, GIF de novidade, contadores de visitantes. Rigaut escreveu uma narrativa de conspiração, apontando as inconsistências do vídeo. Ele incluiu frases com círculos vermelhos desenhados em torno dos cabos desconectados e do sorriso do homem.

A Wintel [Windows + Intel] está criando uma catarse porque temem o dia da revolução. O dia em que os trabalhadores sentados na frente de seus produtos não vão rir. O dia em que nos levantaremos para buscar as pessoas responsáveis por esta desastrosa organização de hardware/software!“, diz parte do texto conspiratório.

Quase por acidente, o site de conspiração falsa de Rigaut antecipou a estética de teóricos contemporâneos da conspiração da internet, como o vídeo visto quadro por quadro e círculos vermelhos demarcando detalhes (imagem abaixo). Mas os recursos visuais do site foram apenas o resultado natural do software de gráficos de má qualidade. “Eu me sinto muito orgulhoso do que inventei, ou provavelmente simplesmente popularizei, essa estética popular tão comum nos dias de hoje“, diz Rigaut.

Fórmula de Sucesso!

Logo, o site do vídeo começou a receber milhares de visitantes por dia. Graças à página da Rigaut e algumas outras, o vídeo ficava agora mais fácil de compartilhar. Eventualmente, obteve a atenção da mídia convencional.

O vídeo serviu de fórmula para que outras pessoas filmassem suas próprias versões de destruição de objetos, hoje um subgênero encontrado facilmente na internet, especialmente com computadores ou videogames.

Estou meio impressionado que o vídeo ainda esteja circulando por aí, mas acho que todos podem se relacionar com esse momento“, diz Licciardi sobre seu vídeo ainda estar circulando pela internet nos dias de hoje. “Somos tão marcados porque o software não está funcionando, ou há alguma falha, e todos queremos fazer isso em um ponto de sua vida“.

[via Wired]