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Análise | Neo: The World Ends With You se destaca por bons personagens e cidade vibrante

Neo: The World Ends With You é a continuação direta de The World Ends With You, lançado há mais de uma década no Nintendo DS, e traz um novo grupo de personagens para protagonizar mais um jogo cheio de reviravoltas em Shibuya.

Se você não jogou o primeiro, assim como eu, vai acabar ficando perdido em alguns momentos, já que há muitas referências aos eventos do passado e o retorno de personagens com história já desenvolvida. No entanto, basta um resumo ou vídeo sobre o game, disponíveis aos montes na internet, para ficar por dentro do que importa e se divertir e emocionar por mais de 60 horas.

Um novo jogo em Shibuya

Assim como o seu antecessor, Neo: The World Ends With You narra os eventos de um jogo macabro que rola em Shibuya. Dia após dia, os personagens terão de participar de tarefas desafiadoras que contam pontos para a sua equipe. O detalhe dessa gincana é que todos aqui já estão mortos no mundo real, com ela funcionando quase como um purgatório para almas com um potencial de ser algo mais. No final da semana, aqueles que ficam em último lugar são apagados da existência, perdendo a forma física da sua alma. Já o vencedor pode fazer um pedido para os organizadores e executores do jogo, os Reapers, incluindo ser um deles.

O jogo inclui tarefas pesadas, que colocam jogadores para enfrentarem uns aos outros ou os chamados Noise, que são monstros de uma outra dimensão que podem ou não estar sendo controlados pelos Reapers. O Game Master tem poder total sobre o jogo e define as tarefas diárias. No jogo, cada dia é um capítulo.

Além de todos esses riscos para os jogadores, há uma trama repleta de mistérios com Reapers que vieram de outro local, onde apagaram a cidade no final do jogo. A forma como eles vão lidar com os Reapers locais e os jogadores também é parte da trama complexa.

Essé o lado mais básico da história desse universo, que o jogo aprofunda bastante durante a campanha. Ainda assim, se você quiser de fato mergulhar no que são os Reapers, o jogo macabro, o funcionamento das almas, o Noise e as camadas dos diversos mundos, há arquivos para vasculhar no endgame os que tornam tudo super complexo e interessante.

Personagens memoráveis

Os protagonistas da vez são o jovem Rindo e seu melhor amigo Fret. Muito descolados, os dois moleques conversam com gírias modernas, como o já super popular “cringe”, e usam roupas das principais marcas da cidade, com um estilo bem próprio.

Com apenas algumas horas jogando você provavelmente já terá se conectado com ambos, que são carismáticos e tem uma química que funciona. Rindo passa boa parte do tempo no seu celular conversando com um amigo virtual misterioso, o Swallow, que conheceu jogando Fantasy GO, uma versão de Pokémon GO com Final Fantasy. Ele tem aquelas características natas de um líder de anime. Já o Fret, é aquele arquétipo de amigo hiperativo, que está sempre falando alto e com uma atitude positiva para a equipe.

O que vai atiçar a sua curiosidade é que ambos não lembram de terem morrido no mundo real, e adquirem poderes incríveis durante o jogo: Rindo pode voltar no tempo e Fret tem a capacidade de fazer as pessoas recuperarem memórias. À medida que a trama vai se ramificando e muitos (ênfase nessa palavra) personagens vão sendo adicionados na receita, o resultado é uma porção de pontos narrativos para serem resolvidos que vão sendo adiados até os últimos minutos da jornada. O final é de arrepiar e, imagino, vai agradar bastante os jogadores no geral, principalmente os veteranos.

O uso desses poderes é bem interligado na jogabilidade e na narrativa. Vários dias serão solucionados voltando no tempo e, em alguns casos, o roteiro brincou bastante com as possibilidades. Um dos dias mais marcantes da jornada começa no já no fim, com o Rindo sem memória, e ele então volta aos momentos do passado para relembrar e resolver o dilema.

Os outros personagens que vão entrando no grupo também são legais e aprofundados de uma forma que eu não esperava. A garota com manto de gatinho, Shoka, é especialmente amável e tem uma conclusão que emociona. Há vários outros que não posso citar, especialmente para os veteranos, então o ideal é jogar e se surpreender.

Presença Forte da Cultura Urbana

A primeira coisa que vai chamar a atenção no Neo: The World Ends With You é a ambientação. Da roupa dos personagens até as músicas escolhidas – uma seleção de New Metal e Hardcore inspirada no início dos anos 2000 – há toda uma caracterização vibrante dos personagens e de Shibuya. Em determinados momentos, até pelos efeitos sonoros e referências ao esporte, dá a impressão que você está jogando um JRPG idealizado pelo Tony Hawk.

Cada cantinho reserva uma loja com roupas de alguma marca com estilo próprio, de metaleiros até otakus. Há restaurantes para experimentar as mais variadas culturas presentes na cidade, dos tacos mexicanos até os noodles ou currys, que são pratos clássicos da culinária japonesa. Cada conquista no jogo vira um grafite, e cada poder é um bottom de uma marca. Tudo isso impacta de alguma forma a jogabilidade, o que deixa a aplicação ainda mais orgânica e legal.

Tudo no jogo transpira a cultura urbana dos jovens de Shibuya, que é representada em seus vários distritos, das áreas densas e cheias de pessoas indo e vindo, até os seus becos mais escondidos com as paredes grafitadas. Nesse ponto, muitas comparações serão feitas com outros jogos que já passaram por aqui, como Persona, mas há muita identidade em Neo: The World Ends With You que o coloca em uma prateleira própria, sendo um JRPG bem diferente do convencional.

Combate divertido, mas logo fica repetitivo

A dinâmica da jogabilidade de Neo: The World Ends With You é bem simples e se repete por quase toda a jornada. No geral em cada capítulo, que é um dia da semana, você irá vivenciar um evento do jogo dos Reapers em algumas localizações da cidade. Nesse contexto, há batalhas que são ativadas só quando você quer e aquelas que são obrigatórias, geralmente contra chefes ou inimigos mais importantes.

O combate é de ação, mas é preciso encostar nos inimigos, os Noise, para ativar a luta, então nada de encontros aleatórios, mas também rola aquela pausa antes dos enfrentamentos. O ponto legal é que dá para juntar vários Noise e iniciar uma batalha em cadeia, fazendo diversas lutas em sequência. Com algumas habilidades liberadas pela árvore social do personagem, dá para encadear até 20 batalhas de uma só vez, o que ajuda bastante a melhorar seu nível mais rápido.

Cada personagem tem seus atributos, mas a forma como ele vai funcionar depende só do jogador. Isso porque a habilidade dele em combate serão definidas pelo bottom que ele usa, os chamados Pins. Cada um deles tem um efeito e também um comando próprio no controle. Isso porque em combate, todos os personagens do grupo funcionam juntos, e cada bottom serve para um deles atacar. Lembrou, inclusive, um pouco o combate de outra série da Square Enix: Valkyrie Profile. Isso deixa as opções de customização praticamente incontáveis, já que há mais de 300 Pins diferentes para colecionar e evoluir.

Embora o combate seja bem divertido e deixe o jogador se expressar com sua customização, acaba ficando chato com o tempo. A busca para conseguir dinheiro (o famoso grind) e comprar tudo que você quer pode ser brutal e, como tudo na história também gira em torno desse combate, acaba ficando repetitivo. Para piorar, os inimigos tem pouquíssima variação e são apenas reinseridos com cores diferentes e fraquezas novas para tentar dar um frescor, que infelizmente não funciona.

Conclusão

Neo: The World Ends With You pode ser um pouco complexo em alguns pontos para quem pulou o jogo anterior da franquia, mas dá para entender tudo olhando qualquer resumo facilmente encontrado na internet. A narrativa é bem desenvolvida e a forma como utiliza os elementos da cultura urbana de Shibuya é encantadora e intrigante, mas é uma pena que se estende demais.

O combate é divertido, mas como a busca por dinheiro (ou grind) é pesada, acaba enjoando após a metade do jogo. De modo geral, se você curte JRPG, cultura japonesa e uma boa história, é um jogo mais do que indicado.

Prós

  • Cultura Urbana de Shibuya inserida profundamente na jogabilidade e narrativa
  • Personagens bem desenvolvidos e carismáticos
  • Quantidade boa de conteúdo endgame
  • Trilha sonora inspirada e diversa

Contras

  • Gráficos borrados e com muitos serrilhados
  • Combate por vezes cansa e diminui a vontade de continuar
  • Campanha se estende mais que o necessário

Nota: 8.0/10.0

Uma cópia do jogo para PS4 foi fornecida pela Square Enix para elaboração desta análise