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O primeiro Gears of War foi lançado em 2006 em meio a uma revolução. Naquele momento, a bussola que apontava o norte para o mainstream do mercado de jogos migrava do oriente para o ocidente.  Jogos como como God of War 2, Half Life 2, a série Halo, o próprio Gears of War e a consolidação da Microsoft no mercado de consoles definiram novos rumos para toda a indústria.  Toda essa sensação de novidade e o peso da influência – Gears of War ainda hoje é a fonte primária para os chamados “Cover Shooters” – transformaram a série em ícone de toda uma geração.

De lá para cá foram lançados cinco jogos na linha principal da franquia, o comando da série foi modificado – saindo das mão da Epic e indo para as mãos da Coalition – e o mundo ao nosso redor se transformou. Com o cansaço natural da fórmula, mas com o peso da tradição, a pergunta que ficou no ar desde o anúncio de Gears 5 foi: um novo título na série deveria mudar para se adequar aos novos tempos ou deveria continuar sendo o Gears de sempre?

Mudanças que vêm para o bem

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Quando se fala em mudanças em uma franquia tão consagrada como Gears, a primeira reação dos jogadores é sempre torcer o nariz. Exemplos não faltam: o mundo aberto de Metal Gear Solid V, a reformulação completa de God of War, os novos rumos de Zelda e diversos outros. O risco é muito grande e exemplos que deram errado também estão aos montes por ai.

No entanto, é fato que a série precisava de uma chacoalhada. Jogos com corredores lineares e sequências controladas de combate já não são bem aceitos graças às possibilidades tecnológicas de hoje. A narrativa também carecia de profundidade e os sistemas do último jogo da franquia, Gears of War 4, foram simplistas em relação aos concorrentes.

Gears 5 precisava de novidades e tomou o melhor caminho possível para fazer as mudanças, sem sacrificar o que torna a franquia única. Os sistemas foram expandidos, a narrativa ampliada em tempo e qualidade, o mundo deixou de ser totalmente linear mas também não se deixou distanciar demais para ficar irreconhecível e o combate manteve o core e modificou apenas a abordagem. No fim a experiência é moderna e nova, mas a sensação de estar jogando um Gears continua intacta.

O ponto mais marcante da franquia, o combate em terceira pessoa com uso de coberturas, continua intacto. A principal modificação está na abordagem. Em vez de preparar os cenários de forma extremamente controlada, agora existem diversos momentos em que o jogador tem a liberdade de escolher a abordagem.

É possível se posicionar estrategicamente antes de iniciar o combate, escolher sua arma, alvos ou mesmo decidir tomar o caminho da furtividade – graças a uma nova mecânica que permite executar os inimigos que não conseguem te ver. Em alguns locais é possível usar o ambiente para ter vantagem no combate, desde os clássicos barris vermelhos e torretas em locais convenientes ou o interessante sistema que implementaram para os rios congelados. Atire no gelo e um buraco se forma, fazendo com que os inimigos caiam na água gelada e morram imediatamente. Só senti falta da inteligência artificial usar isso também a favor dos inimigos.

Outra adição de peso foi o robô Jack, que pode inclusive ser controlado por um terceiro jogador. Com uma árvore de habilidades própria, ele abre todo um novo leque de opções no combate. É possível hackear os robôs, cegar o Swarm com um flash e até mesmo ficar invisível por um período para facilitar as emboscadas.

Todas essas pequenas adições deram um frescor para as sequências de combate, mas foi o novo ritmo entre exploração, narrativa e tiroteios que fizeram toda a diferença no final.

Admirável mundo novo

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Com uma nova direção na construção de mundo, a Coalition criou pequenos blocos de mundo aberto para cada ato do Gears 5, cada um deles com um tamanho considerável e uma boa quantidade de conteúdo.

Nessas regiões é possível fazer algumas missões secundárias em locais que ficam sempre marcados com algum tipo de bandeira.  Ao explorar aviões da COG caídos, trens descarrilhados e bases inimigas, Kait e seus amigos podem encontrar melhorias para o Jack, o que faz suas habilidades ficarem ainda mais mortais.

Para navegar pelo mapa enorme de forma rápida, foi introduzido um bote movido a ar, graças a uma espécie de vela que se abre ao se movimentar. Os controles são bem simples e intuitivos e minha experiência com o novo sistema de travessia foi bem positiva. É possível inclusive levar algumas armas nas laterais do veículo, o que dá um elemento extra para a preparação antes das missões.

Além do óbvio efeito na jogabilidade, essa mudança também proporcionou paisagens estonteantes. Do branco e azul do gelo no primeiro para as areias vermelhas do deserto horas depois, cada ato traz uma estética própria e muito bem produzida. Explorar cada canto e tentar descobrir mais sobre o planeta Sera nunca foi tão divertido na série.

História com altos e baixos

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Embora a alternância entre combate, história e exploração seja muito bem executado, a narrativa em si tem alguns problemas, hora de ritmo e hora de consistência no desenvolvimento dos personagens. As motivações de cada um deles são bem explicadas graças ao jogo anterior e os eventos que rolam durante a introdução, mas o desenvolvimento de alguns personagens e especialmente as mudanças bruscas de personalidade são feitas de forma apressada e muitas vezes não batem com o arquétipo proposto.

Quem mais sofre com essa dinâmica tortuosa é o JD, o filho do Marcus Fênix que protagonizou o Gears of War 4. Sua mudança para um brucutu mais fiel ao sistema e totalmente oposto ao jovem rebelde que desertou da CGO até passa, mas o seu desenvolvimento a partir daí é medíocre e perde muitas oportunidades de aprofundamento, o que acaba impactando até mesmo o final do jogo. Vou evitar spoilers, mas definitivamente fiquei decepcionado com a transição do ato três para o final e mais ainda com a resolução do último ato do jogo.

Já com a Kait o resultado é muito positivo. A decisão de dar o protagonismo da série para ela trouxe uma série de abordagens que antes eram impensáveis. Aliás, no que diz respeito a narrativa, Gears sempre viveu de momentos, onde geralmente abusa de resoluções impactantes, como a morte de personagens ou momentos melodramáticos, para tentar dar alguma carga na história que passa batida entre as sequências frenéticas e incansáveis de combate. Com a motivação da Kait de encontrar a verdade sobre seu passado e a formação do Swarm, os roteiristas puderam trabalhar mais a origem da CGO, seus experimentos e culpa nas guerras do passado além vários dilemas militares que dariam orgulho a Tom Clancy.

Com uma narrativa mais estruturada e com maior profundidade nos temas, por um lado Gears evoluiu, mas por outro ainda sofre com os pormenores naturais da produção de uma obra tão cara em uma mídia interativa. O resultado são alguns momentos muito acelerados e que não conseguem manter a mesma qualidade do início. Com mais umas cinco horas de campanha divididas entre os dois últimos capítulos para trabalhar melhor o JD, provavelmente Gears 5 teria conseguido notas ainda maiores.

Multiplayer Competente

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O modo campanha do Gears 5 chega a durar 20 horas se o jogador fizer todas as missões secundárias. Mas o principal conteúdo ainda está nos modos para vários jogadores, onde as novidades não são muitas, mas a execução é feita de forma primorosa.

Do padrão “Team Deathmatch” até o diferente Fuga – que coloca os jogadores em um ambiente hostil e com poucos recursos- a Coalition conseguiu criar um ambiente que deve fazer a comunidade ficar ativa por meses e quem sabe até anos após o lançamento.

Existe um sistema de recompensas diárias, semanais e vários incentivos para continuar tentando fechar todos os mapas de PVE e dominar o PVP. Para se ter uma ideia, temos quase vinte mapas do modo Horda já no lançamento, cada um com 50 ondas de inimigos para sobreviver.

O sistema de cartas e habilidades únicas para cada um dos personagens de cada modo é um motivo a mais para continuar jogando. O sistema não é massante e não foi utilizado para tirar dinheiro dos jogadores, o que por si só é digno de nota. Com tanto conteúdo para buscar, o fator de replay do Gear 5 é fenomenal.

O problema fica mesmo para os veteranos que esperavam mais novidades, já que quem vem jogando os modos de multiplayer dos últimos Gears não vai encontrar muitas novidades. Talvez como na campanha, tenha faltado ainda mais ousadia da Coalition para introduzir coisas diferente sem medo da retaliação dos jogadores.

Conclusão

Gears 5 trouxe uma campanha muito competente e com novidades que trouxeram um frescor para a franquia que há muito precisava. Embora as novidades sejam impactantes, no final ainda fica a sensação de que poderiam ter sido ainda mais aprofundadas. Com o impulso de confiança pela boa recepção do Gears 5, o inevitável Gears 6 deve vir com ainda mais novidades e menos receio, o que já me deixa no hype por antecipação.

Prós

  • Novidades no combate são simples, eficientes e não quebraram o core do jogo
  • O robô Jack
  • Blocos de mundo aberto com elementos de exploração
  • Narrativa mais madura
  • Multiplayer competente

Contras

  • Problemas com o ritmo da narrativa e motivação dos personagens
  • Modo stealth é muito superficial

Nota: 9,0